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15/07/2009

Com recessão como pano de fundo, Rússia é ameaçada por revoltas sociais

Le Monde
Marie Jégo
Em Moscou (Rússia)
Pela primeira vez em dez anos, a Rússia apresenta um crescimento negativo. Segundo números publicados na segunda-feira (13), o produto interno bruto (PIB) deverá cair 10,2% no primeiro semestre e 6,8% no segundo antes que uma ligeira retomada da economia seja esboçada em 2010. No segundo semestre, a produção industrial deverá diminuir 9,8%. Nesse contexto de recessão, a consultoria Eurasia Group acredita que as revoltas sociais sejam inevitáveis. Diversos conflitos já se manifestam.

Em Pikaliovo (região de São Petersburgo), os operários, sem trabalho após o fechamento de três fábricas de cimento da cidade, pediam há meses pelo pagamento de suas indenizações, em vão. Revoltados, os desempregados e suas famílias bloquearam, no início de junho, a estrada principal, causando um engarrafamento de 400 quilômetros. Desencorajada pela presença de mulheres e crianças, a polícia se recusou a intervir. Os manifestantes tinham certeza de que o premiê Vladimir Putin, em viagem pela região, passaria por lá.

Dois dias mais tarde, o helicóptero de Putin finalmente pousou em Pikaliovo. O chefe do governo se dirigiu apressadamente para a empresa Basel-Tsement, "uma verdadeira lixeira", ele disse. Os diretores das três fábricas, presentes, foram repreendidos por sua "falta de profissionalismo", por sua "ganância". Era preciso ver o oligarca Oleg Deripaska, o proprietário da "lixeira", escondendo o rosto com as mãos. As televisões mostraram essa imagem repetidas vezes. O público gostou.

Descrito em 2008 como "o homem mais rico da Rússia", Deripaska, que mantém relações próximas com o Kremlin, agora é o mais endividado dos empresários russos. Nem pensar deixar cair essa imagem da "Rússia próspera", presente na metalurgia, na construção civil, no setor automobilístico, na polpa de celulose e, ainda por cima, ligada à família do falecido presidente Yeltsin.

No início da crise, o Estado lhe concedeu um crédito de US$ 4,5 bilhões (quase R$ 9 bilhões). Durante sua visita, Putin, ou "VVP" (russo para PIB), acertou tudo com um cheque de 34,5 milhões de euros (cerca de R$ 94,5 milhões) do Vnechtorgbank. As contas das três fábricas foram saldadas, os salários atrasados foram pagos. "VVP" partiu sob aplausos.

O exemplo de Pikaliovo, dizem alguns sociólogos russos, poderá ser imitado em toda a Federação. Segundo o ministério das Regiões, o clima é de descontentamento: em abril de 2009, 42 mil pessoas participaram de ações de protesto, contra 13 mil em dezembro de 2008. Outros rejeitam tal hipótese. O povo russo, pouco organizado, com fama de passivo e tolerante, também não é vingativo. A situação é alarmante nas cidades monoindustriais, herança da época soviética, quando uma usina, um complexo industrial, uma mina, dava trabalho a toda a população. Com a crise, centenas de fábricas pararam.

Em Svetlogorie, no Extremo Oriente russo, o fechamento da mina de tungstênio deixou 227 famílias sem recursos e incapazes de serem ouvidas, pois não há nem rodovias nem ferrovias nas proximidades. O proprietário da mina - registrada nas Ilhas Seychelles - ninguém consegue localizar. Em compensação, em Baikalsk (Sibéria), os operários da fábrica de celulose ameaçaram bloquear a passagem da Transiberiana. Em Zlatoust (região de Moscou), os metalúrgicos fizeram uma greve de fome. Segundo o Instituto da Política Regional, a Rússia tem 460 "monocidades", ou seja, 40% de todas suas aglomerações urbanas, 25% de sua população total e 40% de seu PIB. "Essas cidades são um quebra-cabeça para a política social do Estado. É possível socorrer uma cidade, talvez quinze,mas e depois, o que se faz?", pergunta o analista Igor Bounine, diretor do Centro de Tecnologias Políticas em Moscou.

Dotado da terceira maior reserva de divisas do mundo (290 bilhões de euros/R$ 795 bilhões), o Estado russo tem como pagar. No total, segundo Rosstat, a agência de estatísticas, os salários atrasados chegam a 202 milhões de euros (cerca de R$ 554 milhões). Ao contrário da situação que prevalecia no momento da crise econômica de 1998, quando o Estado era pobre e os oligarcas ricos, hoje é o inverso. Nesse contexto, contempla-se a nacionalização das empresas em dificuldade.

As revoltas sociais poderão pressionar os "políticos liberais" associados ao presidente, Dmitri Medvedev, a darem a vez aos "estadistas" [partidários de um maior controle estatal], próximos de Putin. A gestão dos "estadistas", entretanto, está longe de ser exemplar. Um deles, Viktor Tchemezov, um ex-diretor da KGB que dirige a corporação de Estado Rostechnologie, fez de tudo para absorver em seu conglomerado 500 empresas do setor industrial e militar. A maioria está endividada e opera com prejuízo, apesar de um grande apoio do Estado. O setor militar-industrial é um dos mais atingidos pelos atrasos de salários.

Ao ir a Pikaliovo, Putin reforçou sua reputação de homem providencial, mas também abriu a caixa de Pandora. "A mensagem enviada aos outros territórios em crise é a seguinte: vocês estão descontentes? Vocês têm fome? O motim é a solução", se alarmou recentemente o jornal "Moskovski Komosomolets".

Tradução: Lana Lim

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