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16/07/2009

Casablanca vai do luxo ao lixo em poucos quilômetros de distância

Le Monde
Florence Beaugé
Enviada especial a Casablanca (Marrocos)
A tranquilidade e a vegetação. Talvez seja esse o verdadeiro luxo de Anfa, 4º distrito de Casablanca, o mais elegante da capital econômica do reino. Aqui, não há nem poluição, nem barulho de buzinas. Somente canto de pássaros, palmeiras, oleandros... Quanto mais se sobe a colina, mais chique é. Do alto, pode-se ver o mar. Tudo é lindo.

Reda, 30, diz ter passado aqui "uma infância e uma juventude dos sonhos". Ele estudou no liceu francês de Casablanca antes de fazer seus estudos superiores na França e depois nos Estados Unidos, como todos seus amigos. Os jovens de Anfa tomam banho de mar na costa. Nada de praias públicas. Todos são sócios de algum clube. O mais conceituado é o Sun, apelidado de CCC (clube dos clubes de Casa). Seus membros nadam em uma piscina olímpica com água do mar, trocada três vezes por semana. À noite, costuma-se jantar em um dos lugares descolados de Casablanca, como o Relais de Paris, antes de ir para uma das casas noturnas da moda.


O clube de golfe Anfa Royal, no alto da colina, é outro ponto de encontro, a dois passos do famoso hotel de Anfa, onde Churchill, Roosevelt, De Gaulle e Giraud se reuniram em janeiro de 1943 para decidir sobre o pós-guerra. Perto de lá, há um conjunto de mansões com acesso restrito. É uma propriedade particular de Mohammed Sexto. Aqui, cada família tem pelo menos "um vigia, um chofer e três arrumadeiras, todos com direito a moradia e alimentação. É o básico", explica Reda. Os casamentos são a ocasião para festas suntuosas. Às vezes, toda essa elite aproveita o pretexto de um casamento para se deslocarem até Marrakech. "No fim de semana de 1º de maio houve três festas concorrentes. Foi uma loucura! Um desfile de roupas de grife, joias, carros esporte...", conta uma testemunha.

"Os ricos têm seu reino. Eles andam entre si e nos desprezam", diz, desiludida, Saidia, de 40 anos. Essa mãe de dois adolescentes confessa "ter vergonha" de morar em Sidi Moumen. Situada no 16º distrito de Casablanca, essa favela é a maior da cidade. Um condensado de miséria e de violência em 42 quilômetros quadrados. O entorno parece um depósito de lixo a céu aberto. As crianças brincam descalças no meio do lixo e de carcaças de carros, e pode-se ver uma vaca e algumas cabras perambulando...

Sidi Moumen é o oposto do cenário, é a anti-Anfa. A maioria dos terroristas que atacaram diversos lugares de Casablanca em 16 de maio de 2003, fazendo 45 mortos e mais de 100 feridos, vinham de lá.

Desde então, as autoridades aceleraram a recuperação da favela. Pequenas ilhas de "normalidade" começaram a aparecer. Foram criadas ruas e até mesmo avenidas, e surgiram imóveis. Prédios de 3 ou 4 andares, até bonitos e confortáveis. Metade dos barracos foram derrubados e seus habitantes, realojados, muitas vezes no mesmo local. "Até 2012, Sidi Moumen terá sido completamente transformada. O grande estádio de Casablanca vai ser construído lá, e a futura linha de bonde sairá de lá. O futuro de Casablanca está aqui!", garante Mohammed Bourrahim, um membro do conselho municipal de Sidi Moumen.

Por enquanto, 300 mil pessoas ainda vivem em condições mais do que precárias. Tarik, formado em economia, está desempregado há dez anos. Ele faz parte dos inúmeros "diplomados desempregados" que vemos diariamente em manifestações, em Rabat e outros lugares. Ele nem se dá mais ao trabalho de procurar emprego. "É muito mal pago, nem vale a pena", ele resmunga. Então, ele "gasta" seu tempo com seus amigos, fuma um baseado e assiste aos canais de televisão do Golfo, principalmente a Al-Manar e a Al-Jazeera. Ao contrário da maioria dos jovens marroquinos, ele não sonha em imigrar para a Europa ou para os EUA. "Aqui é meu país, não quero deixá-lo", ele diz.

A respeito do "Estado policial" do Marrocos, Tarik se mantém desiludido. Ele não gosta de Benkirane, o líder do Partido da Justiça e do Desenvolvimento (PJD), grupo islâmico aceito pelo poder. "É uma raposa!", ele diz. Segundo ele,"o único verdadeiro islamita é Bin Laden!" Seus outros heróis são Nasrallah, o líder da comunidade xiita no sul do Líbano, e Kim Il-sung, o dirigente norte-coreano.

Warda Jardi também nasceu em Sidi Moumen. Mas em vez de "permanecer de braços cruzados esperando por um trabalho", esta jovem formada em direito árabe fundou, em 1998, a associação Arraidat ("as pioneiras"), com quatro amigas desempregadas. Essas batalhadoras apostaram antes de todo mundo em mudar Sidi Moumen. A qualidade de seu trabalho é reconhecida, especialmente em matéria de alfabetização e de cursos de recuperação para as crianças saídas do sistema escolar. "O mais difícil é lutar contra o clima de desespero. O bordão 'nada a perder' é nosso principal inimigo", confessa Warda Jardi.

"A pobreza diminuiu no Marrocos ao longo dos últimos dez anos. Mas as desigualdades continuam as mesmas. Pelo menos elas não se aprofundaram. Mas reconheço que não é o suficiente", suspira Ahmed Lahlimi Alami, em seu escritório em Rabat. O alto comissário para Planejamento (HCP, sigla em francês) foi hostilizado recentemente, por causa de um relatório sobre a classe média, publicado por sua instituição em junho. Segundo o alto comissário, a classe média engloba agora 53% da população do reino; como muitos marroquinos são analfabetos, a novidade suscitou alguns sarcasmos, sendo que alguns chegaram a denunciar "um uso político" das estatísticas.

"Não falei sobre 'a' classe média, mas sim 'as' classes médias, e estas são heterogêneas!", protesta Ahmed Lahlimi Alami. "A renda por família nessa categoria de população vai de 3.500 dirhams (cerca de R$ 950) a 5.300 dirhams. Dizem que não é nada, mas os intelectuais marroquinos se esquecem de que o Marrocos é um país pobre, e que portanto sua classe média é pobre!"

Segundo o alto comissário, foram os dois extremos - os mais ricos e os mais pobres - que se beneficiaram dos esforços feitos pelas autoridades, nos últimos anos, para lutar contra a pobreza. As chamadas classes médias não viram uma melhora sensível de suas vidas quotidianas. Seus salários são baixos, e com frequência elas estão endividadas. Muitos possuem um segundo emprego no setor informal, para o qual o poder público fecha os olhos.

"Se nossos dirigentes estivessem certos, então o Marrocos seria mais rico que a Europa!", sorri Larabi Jaidi, do Centro Marroquino de Pesquisa Econômica. Esse economista duvida que as desigualdades não tenham se aprofundado no Marrocos nos últimos dez anos. Ainda que ele parabenize o espírito da Iniciativa Nacional para o Desenvolvimento Humano (INDH), um amplo plano de luta contra a pobreza lançado pelo rei em 2005, Larabi Jaidi é mais cético quanto à sua aplicação. "Foi subsidiado um número impressionante de associações, às quais se confiaram projetos, distribuindo os fundos, às vezes de forma clientelista", ele acredita. "Foram injetadas somas consideráveis em bairros pobres, mas mais em infraestruturas de turismo do que em atividades duradouras. A filosofia da INDH era excelente, mas até agora esse projeto não manteve todas suas promessas".

Tradução: Lana Lim

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