UOL Notícias Internacional
 

17/07/2009

Mercado de espermatozóides congelados cresce na Europa

Le Monde
Brigitte Perucca
Enviada especial a Aarhus (Dinamarca)
Elas dedicaram muito tempo e energia a seus estudos e a suas carreiras, não viram o tempo passar, e uma bela manhã acordaram com o desejo de terem um bebê, urgente, sem companheiro para realizá-lo. A menos que elas pertençam à categoria "daquelas que querem ter uma produção independente". Essas mulheres formam o "segmento" de clientela que Ole Schou, diretor do maior banco de esperma da Europa, vê "estourar". "Há dois ou três anos, 80% de nossos clientes eram casais heterossexuais, 10% de homossexuais e 10% de solteiras. Hoje, as "singles", que muitas vezes têm mais de 30 anos, representam de 30% a 40% da clientela", explica esse dinamarquês de 55 anos.

Criador da Cryos após ter "sonhado uma noite com esperma congelado" enquanto ele ainda era estudante de administração, esse que se descreve como "tendo sido sempre atraído por coisas não convencionais" realizou seu sonho em Aarhus, a segunda maior cidade da Dinamarca, cujos 40 mil estudantes representam o tanto de doadores possíveis.
Adeus, pacientes, olá, clientes: treinado no "business to business" com as clínicas, o banco decidiu se abrir há três meses para os particulares. Pois o mercado se globalizou - a Cryos International já exporta 80% - e as fusões estão em andamento.

Essa escolha é uma reviravolta para essa pequena empresa de 20 funcionários e 3 milhões de euros (cerca de R$ 8 milhões) de faturamento. A pressão da demanda exige isso, afirma Schou. E a queda comprovada da fertilidade masculina só poderá aumentá-la. A equipe de quarentões reunida por Ole Schou em um ambiente descontraído assume essa mudança de direção. "Estamos entrando em uma fase industrial ao mesmo tempo em que preservamos a proximidade com os clientes", confirma o diretor-geral, Jesper Koch. Mas também sem comprometer "a qualidade" que fez o sucesso da Cryos: mais de 14 mil gestações desde 1991 e um índice de sucesso de mais de 30%. Esses resultados são obtidos graças a uma rigorosa seleção dos doadores: somente um em cada quatro merece, após análise e seleção, figurar nesse catálogo de um gênero ainda inédito na Europa, mas comum do outro lado do Atlântico.

Sinal mais visível dessa mudança de estratégia, a Cryos colocou online a partir de 2 de junho uma lista de 309 potenciais genitores, "a maior do mundo", garante Koch. Repleta de informações que até então eram reservadas às clínicas, ela informa sobre sua "raça" - caucasiana, grosso modo - , grupo étnico, altura, peso ou cor dos olhos, mas também sobre o nível de instrução, sua profissão e seu grupo sanguíneo, obviamente, anônimo ou não anônimo.

Cryos diz querer copiar "o modelo americano". Sua filial franqueada americana, criada em 2001, já oferecia esse serviço. Por 500 a 2.000 euros (cerca de R$ 1350 a R$ 5.400), dependendo da qualidade e da quantidade desejadas, mas também da escolha do doador e do tipo de transporte, os canudinhos coloridos são entregues em 24 horas cravadas. Única exigência para os particulares: fornecer o certificado de um médico que os receberão.

A clientela pode escolher entre dois tipos de "perfis": "perfil de base ou perfil estendido. Os primeiros são designados por números, e os segundos por nomes. As indicações são bem breves para uns, bem detalhadas para outros. Pegue Cliff, por exemplo, um belo bebê de 1 ano: é uma das vantagens dos perfis estendidos, dar acesso a uma foto do doador quando criança. Cliff é formado em uma das dez melhores universidades americanas. Um critério "muito importante" para as solteiras, observa Jeannett, do serviço comercial, que responde por telefone às perguntas dos clientes, quando os casais querem privilegiar antes de tudo a busca por uma criança que "se pareça" com o pai. Por 25 euros (quase R$ 70), a Cryos oferece a possibilidade de uma primeira seleção de doadores de acordo com sua semelhança física com o futuro pai. Basta enviar sua foto...

A equipe também oferece uma descrição psicológica: "Cliff está sempre de bom humor e sempre se mostra disposto a conversar. Ele se expressa bem, adora viajar..." Detalhes com os quais os clientes se contentam cada vez menos. "Pedem cada vez mais informações sobre os doadores", garante Ulla, que dirige o serviço comercial. Com exigências às vezes impossíveis de satisfazer: como a cliente que busca um homem sem pêlos no peito. Ou ainda o casal de lésbicas à procura do doador que permitiu que uma delas tivesse um filho, para lhe dar "um irmãozinho" ou uma "irmãzinha". Do outro lado da linha, a Cryos se esforça para deixar o cliente satisfeito. Tendo por únicos limites aqueles, frágeis, determinados pelo banco: por enquanto ele se recusa a rastrear um doador que deixou de sê-lo, ou a fornecer uma foto do doador em idade adulta.

O histórico médico de cada um é analisado em detalhes. Uma árvore genealógica permite remontar a três gerações. Até a menor alergia é caçada. As doenças hereditárias estão no cerne do longo questionário ao qual cada doador é submetido. Em caso de dúvida, os quatro médicos que trabalham nas quatro filiais da Cryos Dinamarca (Aarhus, mas também em Copenhague, Odense e Aalborg) procuram Gert Bruun, professor honorário em medicina genética, "o único a ter autoridade médica e, portanto, responsável juridicamente". Ele garante que as questões éticas também o angustiam. Pois é aos médicos que cabe fazer cada um desses jovens homens refletir diante da escolha, cheia de consequências, de tornar-se um doador anônimo ou não anônimo.

Assim como o Reino Unido e a Suécia que adotaram leis nesse sentido, a tendência na União Europeia é de retirar o anonimato dos doadores, em nome do direito das crianças de conhecerem suas origens. Lobista poderoso, como quando em 2008 ele atuou para evitar o projeto do Parlamento dinamarquês de sujeitar à tributação a remuneração dada aos doadores, Schou se irrita com esses "políticos cegos que não querem ver a realidade dos mecanismos do mercado".

Ele garante que o abandono do anonimato resulta invariavelmente em alimentar um "mercado negro" ou em favorecer a "doação do primeiro que aparece". Ele fala mal da Itália, "onde não existe nenhuma forma legal de obter esperma", ou da legislação francesa, que não autoriza a inseminação de mulheres homossexuais e de solteiras, obrigando assim muitas mulheres a trapacearem. É um segredo de polichinelo em Cryos: as francesas mais bem informadas e as mais determinadas passam pela Bélgica.

Será que a Cryos poderia ter tido uma expansão tão grande em outro lugar que não fosse a Dinamarca? Ole Schou certamente tem razão em classificar seu país como lugar "mais favorável" para seus negócios. Ali a legislação é, sem dúvida, mais flexível que em outros lugares. A igreja protestante, majoritária, não pressiona as consciências como o Vaticano nos países de tradição católica. Além disso, "é um país generoso, que já figura no topo da lista dos que mais doam sangue", ele observa.

Mas em vista da globalização da demanda, a Cryos não pretende se ater ao mercado ocidental. A empresa se prepara para abrir em setembro uma nova franquia na Índia, em Bombaim.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h40

    -0,07
    3,134
    Outras moedas
  • Bovespa

    15h45

    -0,83
    75.344,81
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host