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18/07/2009

"Nossa missão é tornar o sistema mais estável", diz secretário do Tesouro norte-americano

Le Monde
Entrevista concedida a Alain Frachon e Stéphane Lauer
Após uma viagem por Londres e pelo Oriente Médio, o secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, esteve em visita a Paris na quinta-feira (16). Entre outros, ele encontrou o premiê François Fillon e a ministra da Economia, Christine Lagarde, a fim de preparar o próximo G20, que acontecerá em Pittsburgh (EUA) em 24 de setembro. O objetivo dessa cúpula será tentar encontrar soluções para a retomada do crescimento mundial e regulamentar o sistema financeiro internacional.

  • Kevin Lamarque/Reuters
Le Monde: Qual é o seu maior temor para os próximos meses?
Timothy Geithner:
Na verdade, estou mais otimista do que há três meses, e de certa forma acredito que estamos melhores do que poderíamos imaginar no início de 2009. A confiança na política adotada nos Estados Unidos e no mundo está trazendo resultados. O retorno do crescimento passa por se construir novas fundações do sistema. Nossa missão consiste em ir nessa direção. Com perseverança, tenho certeza de que conseguiremos consertar os estragos. Mas isso vai levar tempo, pois estamos atravessando uma recessão muito profunda.

Le Monde: Para quando o sr. prevê o retorno do crescimento?
Geithner:
A maioria das previsões contam com uma melhora dos indicadores nos Estados Unidos a partir do quarto trimestre. Em outras partes do mundo, a situação é diferente, ainda que se observem sinais de estabilização. Mais uma vez, nós devemos essas melhoras à confiança instilada pelo G20 de Londres, em abril. É bem diferente da forma como o mundo lidou com a Grande Depressão. Nós soubemos adotar muito rapidamente uma estratégia coletiva. Isso é muito importante para restaurar a confiança.

Le Monde: No entanto, parece que os bancos retomaram seus maus hábitos, preparando-se para pagar bônus enormes. O setor bancário realmente aprendeu algo com a crise?
Geithner:
Creio que uma de nossas principais missões consiste em implementar reformas que tornem o sistema mais estável e menos vulnerável. O presidente Obama tomou a decisão estratégica de agir rapidamente, ainda que a crise estivesse em sua fase crítica. Se tivéssemos esperado, teria sido mais difícil encontrar um consenso político. Sabe, é difícil fazer as pessoas mudarem. Devemos tentar fazê-las compreender que isso é necessário para conseguir mais estabilidade. O sistema financeiro americano, com seus empréstimos hipotecários, perverteu o conceito de inovação. Nós queremos criar um sistema mais estável antes que o mundo se esqueça dos erros recentes.

Le Monde: O déficit público americano acaba de ultrapassar a impressionante marca do US$ 1 trilhão (cerca de R$ 1,9 trilhão). Isso não pode prejudicar a confiança dos investidores quanto à capacidade dos Estados Unidos em pagar suas dívidas?
Geithner:
Não, creio que não. O déficit é muito grande em razão da recessão e das políticas adotadas nos últimos anos. Mas, assim como outros países, incluindo a França, nós adotamos uma estratégia que consiste em sustentar a demanda para consertar o sistema financeiro e restabelecer o crescimento.

Le Monde: A estabilidade do dólar está ameaçada?
Geithner:
O dólar tem um papel muito importante no sistema financeiro internacional, e acredito que ele vai continuar sendo a principal moeda de reserva. Mas reconheço que os EUA devem assumir suas responsabilidades. Não podemos simplesmente solucionar a crise e consertar o sistema financeiro. Mas devemos nos certificar de que ainda temos a capacidade de estabilizar o sistema monetário e financeiro internacional. É importante para os Estados Unidos e para o mundo, e tenho confiança de que conseguiremos.

Le Monde: Quais são seus objetivos para o próximo G20?
Geithner:
Primeiramente, devemos nos certificar de que as políticas implementadas permitirão o retorno do crescimento. Em segundo lugar, devemos verificar se estamos fazendo progressos na reforma do sistema financeiro. Em terceiro lugar, devemos fazer o possível para provocar mudanças mais profundas nas instituições financeiras internacionais, garantir uma vigilância mais rígida e uma capacidade financeira mais forte. Nós não queremos, uma vez que vamos sair da crise, repetir determinados desequilíbrios que foram responsáveis por ela. Nosso modelo de crescimento deve ser mais equilibrado e mais estável. É preciso que os americanos poupem mais e que os outros países do mundo se orientem para um desenvolvimento mais provocado pela sua demanda interna. Isso seria saudável. Já estamos observando um grande aumento da taxa de poupança nos Estados Unidos. É bom para nós a longo prazo. Mas isso reflete uma realidade de base - a natureza do crescimento será mais equilibrada.

Le Monde: Essa propensão a poupar mais é uma mudança estrutural ou apenas uma consequência da recessão?
Geithner:
É difícil saber. Tendo a pensar que para as famílias, trata-se de uma mudança duradoura de comportamento. Mas não sabemos quanto tempo isso vai durar.

Le Monde: Alguns acreditam que os europeus não têm feito o suficiente em matéria de estímulo. O sr. concorda com essa opinião?
Geithner:
Eu nunca disse que os europeus não faziam o suficiente. Nós estamos enfrentando desafios, estruturas políticas e escalas diferentes. O importante é agirmos juntos, e nesse domínio, cada país fez a sua parte.

Le Monde: Algumas personalidades, como o vencedor do prêmio Nobel de Economia de 2008, Paul Krugman, acreditam que seria necessário um segundo plano de estímulo para os Estados Unidos. O sr. concorda?
Geithner:
Ainda não chegou a hora de tomar esse tipo de decisão. O plano atual foi baseado em dois anos. As medidas fiscais já produziram efeitos. Quanto aos grandes investimentos de infraestrutura, que terão um impacto sobre o emprego, esses se concentrarão no segundo semestre.

Le Monde: O Federal Reserve (Fed) decidiu comprar títulos públicos, o que significa financiar diretamente o déficit público. Ele não perdeu parte de sua independência?
Geithner:
Não vejo as coisas dessa forma. O Fed faz o que é necessário e adequado em qualquer crise financeira. Nós temos um banco central independente, capaz de manter uma inflação estável a um nível baixo. É muito importante, e é por isso que apoiamos sua ação.

Tradução: Lana Lim

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