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21/07/2009

Viver em Barcelona: uma nova paixão italiana

Le Monde
Jean-Jacques Bozonnet
Enviado especial a Barcelona (Espanha)
Matteo Fulvani fala do clima, "uma eterna primavera". Dos impostos, "muito mais baixos". Da eficiência da burocracia: "Só levei uma semana para obter minha inscrição na junta comercial". Enquanto prepara um café curto, ou "ristretto", como em seu país, esse italiano de 32 anos não consegue parar de enumerar as razões que o levaram a abrir seu restaurante em Barcelona, bem longe de sua Friuli natal. Para terminar, ele confessa: "Na Itália, Barcelona está na moda".

Um refúgio para mafiosos

Há um ano, seis chefes da Camorra, a máfia napolitana, e vários de seus braços direitos, foram presos na costa mediterrânea espanhola, de Barcelona a Marbella, apelidada "Costa Nostra" pelos policiais em razão da forte concentração de mafiosos italianos. Dos 249 chefes considerados "perigosos" pela justiça italiana, 70% teriam encontrado refúgio na Catalunha e nas ricas estações balneárias da Costa del Sol, segundo o procurador antimáfia de Nápoles Luigi Cannavale, citado no fim de junho pelo jornal "El País". Essa emigração teria começado nos anos 1980. Mas a Espanha não é somente uma aposentadoria dourada para as três máfias italianas. Segundo o magistrado, os napolitanos, os sicilianos da Cosa Nostra e os calabreses da 'Ndrangheta estariam administrando juntos, a partir de território espanhol, o tráfico de drogas com destino à Europa

Quando ele abriu o Cuore di Mamma no bairro de Eixample, dezoito meses atrás, Matteo ainda tinha em mente um programa "cult" da MTV, "Italo Spagnolo", gravado em um apartamento da capital catalã,que louvava para os jovens italianos "o milagre espanhol". Claro, o primeiro ano foi "um trabalho infernal", como para qualquer um que vai abrir seu negócio próprio, mas Matteo Fulvani não desceu de sua nuvem: "Aqui, a atitude das pessoas é positiva, reina um espírito de abertura bastante singular".

Quais foram os motivos dos outros 22.685 italianos que se estabeleceram em Barcelona, oficialmente registrados pela prefeitura? A partir deste ano eles passam a formar a maior comunidade estrangeira da cidade, à frente dos equatorianos, paquistaneses e bolivianos. Assim como Matteo, a maioria se instalou há pouco tempo: seu número mais do que dobrou desde 2005. "Uma verdadeira explosão", confirma De Martin, o cônsul-geral da Itália em Barcelona. Na Catalunha, os inscritos passaram de 15.400 no ano 2000 para mais de 52.000 hoje.

Metade deles são "só passaportes", ironiza Maurizio Bandettini, vice-presidente da Casa degli Italiani ("Casa dos Italianos"), uma instituição criada em 1866 pelos primeiros imigrantes que chegaram da Bota. Graças à lei Tremaglia, votada em 2005 para permitir aos italianos do exterior que votassem em massa nas eleições legislativas de 2006, os filhos e netos de imigrantes italianos de todo o mundo puderam recuperar a nacionalidade italiana. Uma abertura para a Europa, que muitos argentinos, uruguaios e brasileiros aproveitaram. "Eles ficaram na Espanha por comodidade linguística, e também porque lá era mais fácil encontrar trabalho do que na Itália", explica Pietro De Martin.

Os italianos da América Latina chegaram em família, com uma experiência e um projeto profissionais: "São representantes da classe média, entre 35 e 45 anos, determinados a ficar", explica Ignasi Cardelus, diretor de relações internacionais na prefeitura de Barcelona. "Geralmente eles não têm relações com a comunidade dos italianos nascidos na Itália". Estes últimos formam o segundo fluxo de imigração italiana. Enquanto seus primos do outro lado do Atlântico se espalharam por toda a Espanha, eles escolheram em sua maioria a Catalunha, e especialmente Barcelona, onde eles representam quase 60% da presença italiana.

"O dinamismo econômico e social da última década atraiu muitos jovens italianos", conta De Martin. "A maioria tem vontade de voltar para a Itália. É a geração Europa". Esses barceloneses de adoção recente vêm de toda a Itália. Tanto do sul, gangrenado por um desemprego crônico, como das ricas regiões do norte do país. "Muitos são estudantes que encontraram no lugar seu primeiro emprego, ou jovens formados que voltaram após alguns anos de experiência ou de dificuldade na Itália", ressalta Cardelus.

No departamento de marketing encarregado de trabalhar permanentemente a "marca Barcelona", acredita-se que o fato de ter sido designada como sede da União para o Mediterrâneo (UPM) reforçará sua imagem de capital do Mediterrâneo: "É a cidade mediterrânea por excelência, onde a vida é boa", diz Ignasi Cardelus. O cônsul-geral se orgulha de uma "integração bem-sucedida", onde dominam as profissões liberais (arquitetos, fotógrafos, médicos, etc.).

Quando ele chegou a Barcelona, em 1966, para implantar a pequena empresa familiar de cerâmica, Maurizio Bandettini havia feito parte de uma comunidade italiana "menos numerosa, mas muito mais influente". Ele se lembra que na época "a grande indústria na Catalunha era italiana,com a Fiat, a Olivetti, a Pirelli..." Os dirigentes desses grandes grupos deram toda sua grandiosidade para a Casa degli Italiani, suas obras sociais, sua escola. Esta última recebe hoje 500 alunos, em sua maioria... espanhóis.

Os jovens italianos que entram pela porta do belo prédio da associação "geralmente estão à procura de um emprego", é o que garantem na secretaria. Para Bandettini, "a imprensa italiana engana a juventude, ao continuar apresentando Barcelona como um Eldorado. Como fazer com que eles entendam que a vida não é mais barata do que na Itália, e que não há mais trabalho"? No consulado, admite-se que a crise poderá "diminuir o ritmo" da imigração. No entanto, apesar das más notícias econômicas, outros 1.841 foram registrados em 2008, ou seja, um aumento de 8,8%. E são raros os que se decepcionam com a viagem: já que é para ter empregos temporários, é melhor que seja aqui, pensam eles, como Catia, a jovem garçonete do Cuore di Mamma. Arquiteta de formação, a jovem de Turim não encontrou emprego após o estouro da bolha imobiliária espanhola, mas ela "aproveita Barcelona" e tenta vender o tiramisù da casa.

Tradução: Lana Lim

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