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23/07/2009

Bancos dos EUA voltam à loucura dos bônus enormes

Le Monde
Anne Michel
De que estão brincando os grandes bancos de Wall Street? Mal se livraram da tutela do Estado - que destinou US$ 700 bilhões de fundos públicos em seu socorro no outono passado - e já estão prometendo bônus colossais para seus funcionários em 2009.

Os contadores enlouqueceram, como no tempo da bolha financeira anterior à crise. Um exemplo: o envelope sem precedentes de US$ 20 bilhões garantido no banco Goldman Sachs para pagar os bônus deste ano. Essa quantia equivale à soma atribuída pelo Grupo dos Oito à luta contra a fome em todo o mundo. A volta desses prêmios ligados diretamente aos lucros em curto prazo, capazes de incitar à tomada de riscos, provoca as mais vivas preocupações na classe política.

Em entrevista à televisão PBS na última segunda-feira, o presidente americano, Barack Obama, criticou a avidez dos financistas irresponsáveis, surdos à miséria do mundo: "O problema, para mim, é que não temos a impressão de que o pessoal de Wall Street tenha o menor remorso por ter corrido tantos riscos", declarou Obama.

Enquanto o desemprego nos EUA alcançou em junho 9,5%, sem precedentes desde 1983, enquanto os contribuintes pagam um alto preço pelo socorro aos bancos - em grande medida responsáveis por uma crise que para muitos deles custou o emprego ou a moradia -, o presidente Obama teme que não se tenha tirado nenhuma lição dessa crise.

Mas na realidade tanto nos EUA como na Europa cresce a pressão para, senão limitar as remunerações dos banqueiros, pelo menos inscrever o tema na ordem do dia da próxima reunião do Grupo dos Vinte, prevista para os fins de setembro em Pittsburg, EUA. Em uma entrevista ao jornal "The Financial Times" desta quarta-feira, a ministra francesa da Economia, Christine Lagarde, criticou de maneira virulenta o "absoluto escândalo que representam os bancos, que continuam se outorgando bônus de garantia", sem levar em conta o desempenho real e os riscos. "É escandaloso que alguns ainda queiram voltar às velhas práticas", explicou, contando com o Grupo dos Vinte para conter esses desvios.

Os banqueiros centrais, por sua vez, defensores da ortodoxia financeira, multiplicaram as advertências. O presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, não deixou de criticar o deslizamento da economia real em proveito da especulação e as apostas na esfera financeira. Exortou a uma reestruturação dos sistemas de remuneração.

O governador do Banco da França, Christian Noyer, manifestou sua "preocupação" pelo regresso às "políticas de remuneração que incitam à tomada de riscos". Se forem reproduzidos os excessos que em parte conduziram à crise, acrescentou o banqueiro central da França, as instâncias internacionais deveriam se encarregar do problema. Começando pelo Grupo dos Vinte em setembro.

A irritação das autoridades políticas e tutelares é tanto mais viva porque os bancos americanos manifestam pouco entusiasmo por financiar a economia real através de crédito às famílias e às empresas. Certamente, os resultados dos bancos no segundo trimestre - cuja magnitude deixou perplexa a opinião pública, que os considerava esgotados - se alimentam das comissões recebidas sobre as emissões de dívidas de empresas. Estas sim são úteis para o funcionamento da economia.

Mas eles também devem muito às atividades do mercado. A recuperação da Bolsa permitiu que os estabelecimentos financeiros se "recompusessem". Daí a pensar que os bancos utilizaram dinheiro público para especular nos mercados é apenas um passo, que os políticos não demoraram a dar, assim como certos economistas, e de maneira mais surpreendente também alguns agentes econômicos influentes.

Assim, o ex-diretor da Axa, Claude Bébéar, expressou sua decepção nesta quarta-feira: "A cobiça generalizada, em grande parte responsável pelos desvios que conduziram à crise financeira, foi estigmatizada por Obama, que prometeu medidas enérgicas. (...) Onde está isso agora? O Goldman Sachs declara lucro sem precedentes depois de ter separado US$ 11 bilhões para pagar bônus. E estão previstos bônus de US$ 20 bilhões para 2009. (...) Os programas governamentais permitem que esses bancos reconstituam suas reservas. Em troca, o CIT Group (um grupo de serviços financeiros em dificuldades), cuja missão é o crédito às pequenas e médias empresas, parece abandonado a sua triste sorte. (...) Os mercados consideram corajosa essa decisão. (...) Não sei por que me lembra os animais doentes da peste."

O economista Philippe Brossard, por sua vez, mostra-se decepcionado pela atitude das autoridades reguladoras dos EUA. "Por mais que a crise dos anos 1930 tenha conduzido a uma verdadeira reflexão sobre as práticas bancárias e os mecanismos especulativos e desembocado em uma regulamentação restritiva, desta vez não se seguiu esse caminho."

Pelo contrário, estima Brossard, "se permitiu que os bancos especulassem com o dinheiro público. O plano de ajuda federal permitiu que os bancos de investimentos saíssem dos apuros e, além disso, tivessem acesso direto ao financiamento do banco central americano, já que foram autorizados a voltar a ser bancos em pleno exercício (como é o caso do Goldman Sachs)".

Para o economista Paul Jorion, os salários e bônus oferecidos pelos bancos americanos são "uma inconsciência. Não levam em conta o peso que representa a garantia do governo americano. É pura e simples provocação. Isso vai acabar mal".

Um grande número de economistas espera que a opinião pública exija contas dos bancos, que foram subvencionados e que deram muito pouco em troca. O debate sobre a reforma das remunerações e sua contribuição para a economia, através dos impostos, apenas começou.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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