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24/07/2009

A desventura de um professor negro reacende a questão racial nos Estados Unidos

Le Monde
Corine Lesnes
Os americanos ainda estão ouvindo falar do 16 de julho, dia em que Henry Louis Gate Jr., um de seus professores mais conhecidos, titular da cadeira de estudos afro-americanos em Harvard, grande especialista em história do racismo e da segregação, foi detido em sua casa como um bandido qualquer por um policial branco da delegacia de Cambridge, em Massachusetts. A vítima prometeu aprender todas as lições. "Farei um documentário sobre isso", ele jurou. "O sistema de justiça penal é realmente podre".

  • Josh Reinolds/AP
O professor voltava de uma viagem à China, onde ele fora pesquisar sobre as origens familiares do violoncelista Yo-Yo Ma. Desde que o recurso ao DNA se banalizou, Henry Louis Gates se especializou em pesquisas genealógicas. Com a escritora Maya Angelou, ele remontou a Serra Leoa. Com o ator Don Cheadle, até a tribo indígena dos chikasaw. A cada vez, ele consegue um documentário visto por milhões de telespectadores. Ele também criou um site "black" na internet , The Root, financiado pelo "Washington Post". Em Cambridge, onde ele mora na Ware Street, em uma casa a algumas quadras da universidade, as pessoas o cumprimentam na rua.

No dia 16 de julho, a fechadura da porta de sua casa parecia um pouco emperrada, a chave não funcionava. Com a ajuda de seu motorista de táxi, Gates forçou a porta. Vendo dois negros em ação nesse bairro burguês, uma mulher (cuja identidade não foi revelada) chamou a polícia. Era início da tarde. O chamado mencionava "dois negros grandes" com mochilas.

  • AP

    Imagem feita por um vizinho mostra da prisão

  • AP

    Foto tirada pelo departamento de polícia

Nesse ponto, as versões divergem. O professor Gates mostrou seus documentos, provou que era sua casa, e por sua vez pediu a seu interlocutor que provasse sua identidade. O sargento James Crowley, onze anos de profissão, teria se recusado, e o professor Gates teria denunciado uma discriminação racial.

A discussão terminou na delegacia, onde o acadêmico, um homem de 58 anos de aparência mirrada, chegou algemado. Ele só saiu de lá quatro horas depois, após a intervenção de Charles Ogletree, conhecido como "Tree", famoso professor de direito de Harvard e mentor do presidente Barack Obama no início de sua campanha.

O incidente, que se deu seguindo um roteiro bem conhecido dos negros americanos, despertou os reflexos clássicos. "As únicas pessoas que vivem em um mundo pós-racial são os quatro habitantes da Casa Branca", comentou Gates, amargurado. No "Washington Post", o jornalista Wil Haygood falou por experiência própria desse momento em que, independente do status social, os indivíduos reproduzem comportamentos que os transcendem: "Esqueçam Harvard, (Gates) está nessa zona delicada onde se encontram a pele negra e a imposição da lei (...) Esse momento em que o homem negro carrega uma eternidade como bagagem".

O sargento Crowley se recusou a apresentar sua justificativa. Ele também provavelmente ainda ouvirá muito sobre esse incidente. O professor Gates pretende fazer disso o símbolo das contradições dos EUA na era de seu primeiro presidente negro. A eleição de novembro de 2008 não foi seguida de "mudanças estruturais", ele constatou. Vista a popularidade dos democratas em Cambridge, o policial "provavelmente votou em Barack. Isso não me foi de grande ajuda".

Durante sua coletiva de imprensa, na quarta-feira na Casa Branca, o presidente Obama foi questionado sobre o incidente. "Skip é um amigo", ele disse, usando o apelido do professor. "Corro o risco de ser parcial". Sempre extremamente prudente quando aborda a questão racial, para não aparecer como o homem de uma comunidade, dessa vez ele se posicionou. "Primeiramente, creio que se pode dizer que qualquer um de nós ficaria realmente furioso (com essa situação). Em segundo lugar, que a polícia de Cambridge foi estúpida de deter alguém quando já estava provado que ele estava em sua própria casa. Em terceiro lugar, independente desse incidente, sabemos que há um longo histórico neste país onde a polícia detém os afro-americanos e os latinos para averiguação de maneira desproporcional".

Tradução: Lana Lim

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