UOL Notícias Internacional
 

24/07/2009

A nova estratégia midiática da China

Le Monde
Bruno Philip
Em Pequim (China)
É inédito na história da República Popular da China: no dia seguinte aos violentos tumultos que cobriram de sangue Urumqi, as autoridades "convidaram" os correspondentes da imprensa estrangeira em Pequim a cobrir o evento. Uma decisão que permitiu aos jornalistas que se deslocassem à vontade pelas ruas da cidade, inclusive nos períodos de grandes tensões, em especial quando uma multidão de hans marchou com o propósito confesso de "quebrar" os uigures muçulmanos, sendo que estes últimos são acusados de terem desencadeado os tumultos.

Certas equipes de televisão e de fotógrafos foram impedidas de fazerem seu trabalho pela polícia ou ameaçadas por manifestantes em fúria, mas de forma geral, os enviados especiais trabalharam em condições inéditas de normalidade. Resta saber se essa atitude constitui uma exceção, ou se ela está inaugurando uma nova regra.

Essa abertura às mídias estrangeiras que, desde o início de 2007, não precisam mais pedir uma autorização de reportagem quando saem de Pequim - com exceção notável do Tibete - não prefigura um salto democrático repentino do regime no que diz respeito à liberdade de expressão. Pelo contrário: a direção do Partido Comunista continua, desde o período pré-olímpico de 2008 e neste ano do 60º aniversário da República Popular, a mostrar os sinais renovados de uma tensão autoritária e de um endurecimento de sua política.

O "China Daily", dirigido a um público estrangeiro e anglófono, justificou essa nova estratégia midiática ao explicar que o poder havia "aplicado em Urumqi as lições de Lassa". Após os tumultos na capital tibetana, em 14 de março de 2008, as autoridades demoraram para reagir. Dessa vez, "o Estado tomou a iniciativa decidindo dar aos repórteres chineses e estrangeiros informações sobre o que se passava em Urumqi. Essa escolha contrasta fortemente com a feita durante os tumultos de Lassa", observou no "China Daily" Yu Guoming, vice-reitor da escola de jornalismo da Universidade do Povo de Pequim.

Além disso, a agência Chine Nouvelle mostrou rapidez ao anunciar, na noite de 5 de julho, uma hora após o início dos atos de violência, que os tumultos haviam estourado. Após os acontecimentos de Lassa, foi preciso esperar doze dias para que um pequeno grupo de jornalistas cuidadosamente selecionados fosse autorizado a ir à capital tibetana, onde haviam organizado para eles uma "visita" das mais restritas...

O regime entendeu a vantagem que existia em demonstrar transparência em vez de esconder uma informação que acabaria vazando na internet. No fim, o objetivo era que triunfasse na imprensa a versão oficial de Pequim, segundo a qual, em Urumqi, os tumultos haviam sido organizados por "separatistas" que agiam no exterior graças ao "Congresso Mundial Uigur" dirigido por Rebiya Kadeer.

Ao ampliar a margem de manobra dos repórteres, Pequim sem dúvida fez uma boa operação: a imprensa ocidental escreveu e contou que, pelo menos uma vez, as autoridades não a impediram de trabalhar em uma cidade que acabava de vivenciar o que foi um dos mais terríveis tumultos da história da República Popular.

A comunicação de Pequim tem evoluído há algum tempo. Durante o terremoto de maio de 2008 em Sichuan, os responsáveis pela comunicação do ministério chinês das Relações Exteriores reagiram rapidamente ao organizarem uma viagem para jornalistas embora, até recentemente, as catástrofes naturais fossem classificadas como "segredo de Estado"...

Mais uma vez, a internet e as informações filtradas em uma rede chinesa, certamente controlada, explicam a evolução da estratégia de comunicação de Pequim. Notícias cotidianas que antigamente passavam sob silêncio despertam a fúria dos internautas a ponto de o regime às vezes julgar preferível mostrar que as mensagens foram ouvidas, em vez de deixar desenvolver na internet uma revolta de consequências imprevisíveis.

Neste ano, após a morte suspeita de um detento na prisão, que havia comovido os internautas, estes foram convidados pelas autoridades de Yunnan, a província onde se passou o drama, a criar um comitê de "net cidadãos" para esclarecer essa morte. Descobriram que o prisioneiro havia sido morto por seus colegas de cela.

Ainda que a internet muitas vezes seja só o espelho deformante ou deformado da sociedade, o regime leva em conta o fato de que mais de 250 milhões de chineses são "surfistas" inveterados. Como explica Eric Sautedé, pesquisador ligado ao Instituto Interuniversitário de Macau, "não se trata mais de 'esconder' a verdade nem de 'transfigurá-la' por edificação, mas ainda se trata de controlar os fluxos. Ao mesmo tempo, ainda que seja obrigado a considerar as realidades e as pressões que as novas tecnologias impõem, o governo se sente forte o suficiente para se servir delas tanto como uma arma ofensiva em matéria de propaganda quanto como um agente de sua própria capacidade em evoluir, provando com isso que ele não perdeu nada de seu pragmatismo e de sua capacidade de adaptação".

Tradução: Lana Lim

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