UOL Notícias Internacional
 

25/07/2009

Japão caminha na direção de uma mudança política

Le Monde
Philippe Pons
Em Tóquio (Japão)
Há mais de meio século que o Japão não conhece uma alternância no poder. Com exceção de uma breve "seca" (1993-1994), o Partido Liberal-Democrata (PLD) sempre manteve as rédeas do país. Nas eleições legislativas de 30 de agosto, ele corre o risco de perdê-las para o Partido Democrata do Japão (PDJ), principal partido de oposição. Se for o caso, em dois anos, as duas Câmaras terão passado para a oposição. Uma derrota "histórica". Mas a mudança prometida pelo PDJ estaria à altura dessa afirmação?

  • EFE/DAI KUROKAWA

    Premiê japonês, Taro Aso, em 21 de julho, quando se anunciou a dissolução da Câmara Baixa

O imobilismo político japonês é desconcertante. Cautela do eleitorado, conservadorismo inveterado? O PLD fez do Japão a segunda maior economia do mundo. Ele conservou o poder porque sua política correspondia aos interesses nacionais de uma época - a guerra fria - que terminou sem que as consequências políticas tivessem sido dela derivadas. Derrotado e dependente dos Estados Unidos para sua segurança, o Japão se concentrava em sua recuperação econômica e em uma melhora das condições de vida da maioria: as desigualdades existiam, mas cada qual, em seu nível, recebia dividendos do crescimento.

Nos anos 1960-1980, "era de ouro" do PLD, este detinha o monopólio do realismo, ao passo que a esquerda socialista, apoiada em seu pacifismo, passava por utopista. Composto de tendências que iam da centro-esquerda até a direita, o PLD conseguiu durante décadas confinar o debate político dentro de seu meio. Uma "democracia interna" que permitiu a esse partido - originado da fusão, em 1955, das duas correntes conservadoras - , mostrar uma reação pragmática. Efetuando ajustes e políticas de compensação social, protegendo suas iniciativas da oposição, ele se utilizava com abundância da fonte pública para satisfazer suas clientelas. Uma "política pelo dinheiro" elevada nos anos 1970 à categoria de sistema de poder pelo primeiro-ministro Kakuei Tanaka.

O sistema funcionou enquanto os cofres do Estado estavam cheios. O estouro da "bolha especulativa" (início dos anos 1990), e depois a recessão, emperraram o mecanismo de atrair votos. Mas o PLD manteve o poder graças a alianças com o centro. Depois, a máquina emperrou: os liberais-democratas perderam a mão.

A sociedade havia mudado: menos homogênea do que no decorrer das décadas anteriores - quando a maioria pensava pertencer a uma vasta classe média - ela exprimia demandas diversificadas que fugiam das redes de clientelas do PLD. Acuado, ele as "traiu" (começando pelo mundo rural) sem, entretanto, garantir o apoio do eleitorado urbano, decisivo para o resultado de uma eleição.

A inaptidão do premiê Taro Aso, que hoje "afunda" o PLD, é só um epifenômeno em seu declínio. Assim como foram os anos de Junichiro Koizumi, primeiro-ministro de 2001 a 2006, que gozando de uma popularidade fundamentada nas expectativas sobre sua capacidade de dar ao país uma nova orientação somente adiou as escolhas. Elas também agravaram as disparidades sociais, mas sem levar ao surgimento de uma camada de "desfavorecidos permanentes". Mas esse é o caso, agora.

O "teatro de Koizumi", cuja apoteose foram as eleições legislativas de 2005 (maioria esmagadora do PLD), só teria sido um fogo de artifício ilusório. A crise mundial acentuou as consequências de uma política cuja precarização do mercado de trabalho foi uma das consequências. A sucessão de três primeiros-ministros desde 2006 e as amargas batalhas internas às vésperas da dissolução, em 21 de julho, demonstram o desgaste, se não o tormento, do PLD.

A "conta" da incompetência de seus dirigentes em dar ao Japão uma orientação nova na globalização é pesada: do 4º lugar em termos de renda por habitante, o Japão passou para o 19º (em 2007) e do 1º para o 9º na corrida de competitividade internacional. São identificados os males que enfrenta uma sociedade que está envelhecendo: previdência social insuficiente, aumento das desigualdades, dívida pública.

Estaria o PDJ à altura das expectativas? Sua ascensão se deve ao declínio do PLD. Sob a liderança de um "animal político", Ichiro Ozawa - que teve de se demitir em maio por causa de um escândalo financeiro de fundo político - , apareceu como uma força de alternância. E seria mesmo? Formado por desertores do PLD - assim como Ozawa e seu sucessor, Yukio Hatoyama - , ex-social-democratas e ex-sindicalistas, ele carece de coerência interna. Seu programa não se diferencia muito daquele da atual maioria, a não ser por uma maior atenção aos pobres e uma ambição manifesta de abandonar a infalível atitude de rebanho em relação aos Estados Unidos.

A palavra "reforma" perdeu seu brilho junto a uma opinião que espera por remediações concretas para a degradação de suas condições de vida. Ao votar no PDJ, ela assumirá um risco. Mas o risco será certamente maior em caso da manutenção no poder de um partido enfraquecido, mais incapaz ainda de governar.

Tradução: Lana Lim

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