UOL Notícias Internacional
 

28/07/2009

Síria volta a ser um ator regional indiscutível

Le Monde
Cécile Hennion
Em Beirute (Líbano)
Nas lutas de influência que agitam o Oriente Médio, Bachar Al-Assad pode se orgulhar de ter obtido uma bela vitória ao recuperar, pelo menos provisoriamente, o lugar que um dia foi ocupado por seu pai, Hafez Al-Assad, o de líder indiscutível da região. É o que comprova a visita no último domingo (26) a Damasco de George Mitchell, enviado especial da Casa Branca para o Oriente Médio. Em 14 de junho Mitchell já se encontrou com Bachar Al-Assad em Damasco, na que constituiu a primeira visita oficial de um diplomata americano desse nível à Síria desde 2005.

Em quatro anos, Assad conseguiu elevar a Síria da posição de Estado infrequentável à categoria de potência indiscutível, cortejada por quase toda a comunidade internacional, sem no entanto ter respondido concretamente às exigências de uns e de outros.

A última década

2000. Bachar Al-Assad torna-se presidente da Síria após a morte de seu pai, Hafez.

2004. O Conselho de Segurança da ONU se preocupa com a influência síria no Líbano.

2005. O assassinato de Rafic Hariri provoca a retirada das forças sírias do Líbano.

2008. Visita de Nicolas Sarkozy a Damasco. Estabelecimento de relações diplomáticas sírio-libanesas. Ataque aéreo americano contra uma aldeia síria próxima ao Iraque.

2009. Vitória dos "antissírios" nas legislativas libanesas

Entre 2005 e 2008, o regime sírio parecia frágil, ameaçado pelo governo americano de George Bush, boicotado pela França, a Arábia Saudita e o Egito, que suspeitavam que tivesse participado do assassinato do primeiro-ministro libanês Rafic Hariri em 2005.

Hoje a situação do líder sírio é tão confortável que pode apoiar verbalmente a linha-dura de Teerã, encarnada pelo aiatolá Ali Khamenei e o presidente Mahmud Ahmadinejad, em plena crise iraniana, enquanto recebia dos EUA um sinal concreto de normalização, com a volta de um embaixador americano a Damasco, anunciada em 24 de junho, depois de quatro anos de ausência.

Em 3 de julho, Assad, descontraído, convidou pela rede britânica Sky seu homólogo americano, Barack Obama, para visitar Damasco. "O presidente Obama é jovem. O presidente Assad também é muito jovem. Talvez esteja na hora de esses jovens dirigentes fazerem uma diferença no mundo", declarou então sua mulher, Asma.

A Arábia Saudita, a exemplo dos EUA, muito preocupada com as ambições nucleares iranianas, também decidiu enviar um embaixador à Síria, cargo vago havia um ano. Sem ter renunciado a apoiar o Hizbollah libanês nem o Hamas palestino, duas ameaças armadas às portas de Israel, Damasco também retomou conversações, indiretamente, com Tel Aviv, graças à mediação da Turquia. "Os sírios possuem a chave da região", salienta o presidente turco, Abdullah Gül.

A mesma constatação havia sido feita em 2008 pela França, que, para salvar o projeto de União Para o Mediterrâneo (UPM) caro ao presidente Nicolas Sarkozy, havia iniciado o retorno concreto da Síria às boas graças internacionais. Assad figurou, assim, entre os convidados de honra ao desfile de 14 de julho de 2008.

A eleição de um presidente libanês após meses de bloqueio, a troca de representações diplomáticas entre o Líbano e a Síria e o bom desenrolar das eleições legislativas libanesas em 7 de junho também foram demonstrações, segundo a França, da confiabilidade da Síria. Ela se vê recompensada por sua "não-ingerência" no caso libanês.

Antigo papel de árbitro
As relações entre Claude Guéant, o secretário-geral do Eliseu, e o prefeito de Damasco são oficialmente "construtivas", ou mesmo amistosas, em todo caso regulares. O chefe da diplomacia francesa, Bernard Kouchner, também presidiu na capital síria uma conferência regional dos embaixadores franceses em 11 de julho. Nessa ocasião ele encontrou autoridades sírias, às quais deu pouco crédito durante suas primeiras tentativas de resolver a confusão libanesa.

A aposta estratégica francesa visando afastar a Síria de seu aliado iraniano mostrou seus limites. Por outro lado, as boas disposições francesas levaram ao que Damasco esperava: uma retomada das relações com Washington.

A Síria também ocupa um papel central na resolução da crise interpalestina entre o Hamas e a Fatah. Porque a capital Síria é a retaguarda dos radicais palestinos. Mahmud Abbas, o presidente palestino, se consulta muito regularmente com Bachar Al-Assad. No início de julho, Omar Suleiman, o chefe dos "mukhabarrat" [órgãos de inteligência] egípcios, infatigável mediador no processo de reconciliação, enviou a Damasco seu adjunto e seu diretor de gabinete.

Mas a aproximação mais espetacular é a realizada com a Arábia Saudita em janeiro, por ocasião da cúpula árabe no Kuwait. Fontes informadas disseram que essa "reconciliação" foi decidida pelo rei Abdallah, que se abriu para Assad em um "tête-à-tête" à margem da cúpula, sem ter consultado anteriormente seu parceiro egípcio, Hosni Mubarak. Uma visita do rei Abdallah a Damasco é esperada para breve. O destino de um novo governo libanês poderia ser decidido nessa ocasião.

Assim, a Síria, cujo exército foi expulso sem consideração do Líbano depois do assassinato de Rafic Hariri, reencontra seu antigo papel de árbitro nas querelas libanesas. Apesar da vitória do clã chamado "antissírio" nas legislativas de 7 de junho, a importância da representação da oposição (entre a qual o Hizbollah) no governo libanês será negociada sob a égide da Síria.

Fortemente simbólica da "vitória" síria na região será, finalmente, a visita a Damasco do novo chefe de governo libanês, Saad Hariri. Entretanto, ele havia acusado a Síria de ter assassinado seu pai. Mas, como tantos libaneses antes dele, deverá retomar o eterno caminho de Damasco.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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