UOL Notícias Internacional
 

29/07/2009

Colombianos afetados pelo confronto com guerrilha se refugiam no centro de Bogotá

Le Monde
Marie Delcas
Em Bogotá (Colômbia)
Luis M. olha para suas mãos calejadas, que trabalharam a terra durante mais de 40 anos. "Não fui feito para mendigar", ele suspira. Em 2007, ele deixou sua terra natal, no oeste da Colômbia, ameaçado de morte pelas milícias paramilitares. Há quatro meses ele acampa com sua mulher e quatro filhos no centro de Bogotá.

Sua vizinha Mariela era professora em Granada, no departamento de Meta, do outro lado do país. Ela se apaixonou por um policial - que logo a abandonou. Os guerrilheiros, no entanto, não esqueceram. "Eu havia me tornado uma inimiga do povo. Eles me deram uma hora para deixar a cidade", ela explica. Mariela passou sua primeira noite em Bogotá em um posto de gasolina, antes de ser acolhida por primas distantes, "pobres mas generosas". Ela se espanta que "o governo do [presidente] Álvaro Uribe encontre dinheiro para fazer guerra, mas não para cuidar das vítimas".

Inaugurado em 2005, o Parque do Terceiro Milênio havia sido concebido como o epicentro de um grande projeto de renovação urbana no coração da capital. Mais de 2 mil refugiados se amontoam lá hoje, sob lonas, tábuas e caixas de papelão. "Estamos aqui para protestar contra a negligência do governo, que nos abandonou à nossa sorte", afirma Janer Rodriguez, um dos líderes do movimento. "Não sairemos daqui antes de obter para cada um de nós uma moradia digna e um emprego".

Algumas famílias levaram seus colchões, outras dormem no chão, mesmo. Arroz e batatas cozinham sobre fogo de lenha. Na frente da fonte do parque, as pessoas fazem fila para se lavarem. "Nós recebemos um pouco de ajuda dos sindicatos, das associações e das igrejas evangélicas", diz Janer. Há uma semana, o acampamento está cercado de barreiras, vigiado por um cordão de policiais usando máscaras. Um caso de gripe A (H1N1) teria sido detectado. "É mentira", afirma Janer. "As autoridades armaram isso para levar nossos filhos. Ainda ontem, o departamento sanitário da prefeitura veio buscar nossas mulheres grávidas para alojá-las em um centro, mas elas se recusaram. Se deixarmos o movimento se dividir, estamos ferrados".

A gestão da crise se voltou para o confronto entre a prefeitura de Bogotá (esquerda) e o governo (direita). Segundo números oficiais, 50 famílias deslocadas chegam todos os dias a Bogotá, principal pólo de atração para as vítimas do conflito armado que perdura há 40 anos nos campos. "Os meios da prefeitura são limitados. O governo deve assumir suas responsabilidades", diz Samuel Moreno, prefeito de Bogotá.

Encarregado da questão no departamento nacional da Ação Social, Emilia Casas considera "completamente irrealistas" as reivindicações de Janer e seus colegas. "Milhares de deslocados esperam por uma moradia. Nós não podemos privilegiar os rebeldes. Seria injusto para aqueles que respeitam as formalidades", ela explica. Os deslocados do parque recusaram as ofertas de emprego propostas pela prefeitura.

"Os líderes do movimento exigem 14 milhões de pesos por família (cerca de R$ 13.300) para montar um projeto produtivo, e recusam qualquer ajuda ou solução alternativa", afirma Emilia Casas. Ela espera que a medição da agência local do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) - iniciada na sexta-feira (24) - permita solucionar a situação.

"O drama do parque do Terceiro Milênio é só a ponta do iceberg", lembra um funcionário da ONU. Ele acredita que o governo colombiano deixou que "uma situação explosiva" se desenvolvesse. Segundo relatório recente da Amnesty International, a Colômbia ocupa a segunda posição mundial em matéria de deslocamento de população, atrás do Sudão. De 3 a 4 milhões de cidadãos foram forçados a abandonar suas casas desde 1997, sob pressão dos grupos armados - guerrilhas e paramilitares - e do exército. Para 2008, os números oficiais calculam 380 mil deslocamentos. A Corte constitucional acaba de denunciar a negligência do governo sobre essa questão.

Marcelo Pollack, diretor do Programa para a América da Amnesty International, acredita que "a difícil situação humanitária é uma refutação ao governo colombiano, que afirma que o conflito terminou".

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,13
    3,270
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,51
    63.760,94
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host