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29/07/2009

Os interesses comuns de Washington e Pequim

Le Monde
Corine Lesnes
Em Washington (EUA)
A reestruturação da diplomacia americana continua. Desta vez, é a China que tem as honras. "As relações entre os Estados Unidos e a China darão forma ao século 21", diz o presidente americano, Barack Obama, ao abrir na segunda-feira (27) em Washington uma cúpula destinada a convencer Pequim de que a cooperação é a melhor resposta aos desafios comuns: desde a crise econômica até a mudança climática, passando pela proliferação nuclear.

A questão monetária

Outubro de 2008. Barack Obama, em campanha eleitoral, denuncia as manipulações de Pequim sobre sua moeda.

22 de janeiro. A China ameaça os Estados Unidos com sanções comerciais, caso Washington opte por uma política protecionista.

29 de janeiro. Pequim condena a supremacia do dólar.

Abril. O G20 reunido em Londres aceita que a questão monetária não seja levantada. Washington retira o termo "manipulação", mas mantém que o yuan está "subvalorizado".

Junho. O nível dos títulos do Tesouro americano em poder da China atinge mais de US$ 800 bilhões (R$ 1,5 trilhão)

Mais de 150 altos oficiais chineses, entre os quais 24 membros do governo, participam desse "diálogo estratégico e econômico" de dois dias. O grupo seria recebido na terça-feira na Casa Branca, sendo que os chefes de delegação, o vice-premiê Wang Qishan, e o vice-ministro das Relações Exteriores, Dai Bingguo, tinham direito a uma entrevista separada com o presidente Obama e o vice-presidente, Joe Biden, no salão Oval.

Barack Obama, como de costume, fez um discurso visando ir além dos nacionalismos. Ele citou o jogador de basquete do Houston Rockets, Yao Ming (2,29 m), bem como o filósofo Mêncio (um discípulo de Confúcio), antes de prestar honras à contribuição dos americanos de origem chinesa, dos quais dois representantes figuram em seu gabinete. Ele pediu por uma superação da "desconfiança" mútua entre os dois países e das "inevitáveis divergências do momento" para fazer com que o século 21 seja o da "cooperação, e não o da confrontação".

A respeito dos direitos humanos, Obama manteve a atitude que adotou na Rússia e no mundo árabe. Sem críticas, e sim uma explicação detalhada das práticas americanas. "A defesa dos direitos humanos e da dignidade humana está enraizada nos EUA", ele disse. "Não são coisas que procuramos impor. É nossa identidade". E os EUA só conseguiram manter sua unidade "estendendo os direitos fundamentais a todos os habitantes: liberdade de expressão, de religião, e de escolha de seus dirigentes".

A crítica mais direta foi a respeito do tratamento das minorias. "Assim como respeitamos a cultura antiga e notável da China, também acreditamos firmemente que a religião e a cultura dos outros povos devem ser respeitadas e protegidas, e que todos os povos deveriam ser livres para emitir suas opiniões. E isso inclui as minorias étnicas e religiosas na China, e certamente as minorias nos Estados Unidos". Diante deles, os oficiais chineses encontraram reunidos todos os grandes nomes da administração Obama: Hillary Clinton, a secretária de Estado, Tim Geithner, do departamento do Tesouro, assim como Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve (Fed, o Banco Central americano), Larry Summers, o economista-chefe da Casa Branca, Peter Orszag, diretor de orçamento, e ainda Steven Chu, o secretário de Energia.

  • Alex Wong/Getty Images/AFP

    Vice-premiê chinês, Wang Qishan (esq.) cumprimenta o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, na abertura de uma cúpula bilateral, em Washington, nesta segunda-feira

A administração Bush já havia promovido um "diálogo" similar, mas sob a égide do departamento do Tesouro. Henry Paulson, o diretor na época, acreditava que fora Taiwan e o Tibete, a China via principalmente seus interesses econômicos através do prisma econômico, e que não havia lugar para introduzir outras dimensões.

Desde sua chegada, Hillary Clinton convenceu o presidente a incluir a mudança climática e as questões de segurança. Correndo o risco de ter de enfrentar uma hidra burocrática. "Quando se conduzem dois diálogos ao mesmo tempo, corre-se o risco de acabar dizendo coisas diferentes", ressalta Taiya Smith, uma das organizadoras do diálogo sob a administração Bush, hoje pesquisadora no Carnegie Endowment for International Peace. Hillary e Geithner têm interesse em se tornar bons amigos".

Por enquanto, a administração dá grande destaque para o fato de ter conseguido obter o apoio da China para uma resolução que reforçava a condenação da Coreia do Norte em matéria de testes nucleares. A esse respeito, os especialistas observam que na véspera da cúpula de Washington, Pyongyang propôs repentinamente "uma forma de diálogo específico" com os Estados Unidos; oferta que foi imediatamente rejeitada, pois os EUA querem dialogar com os norte-coreanos, mas somente no contexto de negociações de seis lados.

No plano econômico, o lado americano ficou satisfeito com as políticas implementadas. "Diante da crise, a China e os Estados Unidos agiram de uma maneira mais similar do que com a maior parte dos outros países industrializados", observa David Loevinger, o coordenador para a China do departamento do Tesouro. A administração repetiu a seus convidados que a estrutura da economia americana havia mudado "provavelmente de forma fundamental".

As divergências sobre a política monetária foram discutidas. "Nós falamos das taxas de câmbio chinesas. Eles falaram de sua vontade de reformar o sistema monetário internacional", disse o funcionário do Tesouro. Bernanke teve de responder aos oficiais chineses, preocupados com a possível desvalorização de suas reservas em dólares. Peter Orszag tentou tranquilizá-los, indicando que o plano de retomada do crescimento iria até 2011, mas que Obama havia se comprometido a levar o déficit até um nível "suportável" antes do fim de seu mandato.

Tradução: Lana Lim

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