UOL Notícias Internacional
 

29/07/2009

Vacinas e Tamiflu não serão suficientes para combater pandemia

Le Monde
Jean-Philippe Derenne*
Duas palavras surgiram no século 18 para caracterizar o que antigamente se chamava catarro epidêmico: "follette" [destrambelhada] e "grippe"[agarra]. "Follette" ela é, pois é imprevisível, enganando a todos, chegando onde não é esperada, e se escondendo quando estamos prontos para enfrentá-la. "Grippe", pois ela apanha as pessoas aos milhões, bruscamente, brutalmente, as testa, e de repente se vai.

Saiba mais sobre a gripe A (H1N1)

  • Reuters
A história das pandemias gripais é sempre a mesma do ponto de vista temporal: ela desaba como um tsunami. Ela não perdura como a Aids. Em algumas semanas, tudo está terminado. No máximo, ela pode voltar uma segunda ou terceira vez. A gripe atinge milhões e mata milhares. Então ela poupa a maioria dos doentes, mas considerando seu grande número, ela faz mais mortos do que qualquer outra doença.

Preparar-se para uma pandemia gripal é especialmente difícil, pois ao contrário da gripe sazonal que atinge principalmente as crianças e mata as pessoas idosas, os alvos foram diferentes a cada vez. Ela matou principalmente os adultos jovens e sobretudo os idosos em 1889-1890; os menores de 5 anos, as pessoas saudáveis entre 15 e 45 anos e os maiores de 65 anos em 1918 (curva em W); as crianças e os idosos, em 1957, e somente os últimos em 1968.

Saber quais são os grupos prioritários (tratamentos e vacinas) depende então da avaliação que se faz das categorias que parecem vulneráveis, que mudaram a cada pandemia. A atual gripe A (H1N1) mutante norte-americana se espalha pelo mundo de uma forma que parece impossível de deter. Em geral ela possui um caráter benigno e atinge principalmente os menores de 20 anos. No entanto há mortos, e esses últimos são mais numerosos do que os registrados pela OMS, como mostram as experiências mexicana e quebequense. A gripe mata, e o que é incomum, por pneumonia viral e não microbiana, e os que morrem têm em sua maioria entre 15 e 60 anos. Ela parece ser mais grave em certas condições: gravidez, asma, obesidade mórbida.

Acima de tudo, ela exerce uma pressão significativa sobre o sistema de saúde com 5% a 10% de internações na América do Norte, sendo que uma parte está na UTI. Imagine o que isso significaria se ela atingisse (o que todo mundo teme e o que o governo deve antecipar) milhões, e não milhares.

A experiência mexicana mostrou que, com o surgimento do novo vírus nos doentes que apresentavam uma gripe clínica, somente 21% eram atingidos pelo mutante A (H1N1). O que sugere que, se todos fossem tratados com o Tamiflu, ele seria desnecessário em 4 de cada 5 casos. E essa proporção é a mesma constatada nas gripes sazonais.

E se no outono surgirem de repente milhões de doentes, por quais critérios poderemos saber que determinado paciente visto em urgência é portador do vírus? Até o momento não existe nenhum teste que permita saber, nessas condições. Será dado Tamiflu a todos, correndo o risco de desperdiçá-lo, ou até mesmo causar o surgimento de estirpes resistentes? Se ele for dado a um, mas não a outro, sob quais critérios seria feita a escolha? Como os doentes serão internados, se não houver mais leitos disponíveis? O que os médicos deverão fazer, se cada um deles receber simultaneamente dezenas de pedidos de socorro? Qual deverá ser a atitude dos doentes e sobretudo de suas famílias?

São algumas das questões para as quais se deverão obter respostas antes da possível chegada da doença.

Hoje, o corpo médico está sem ação. Um grande número de seus membros, angustiados pela atitude da ministra da Saúde a respeito da lei hospitalar, e perplexos com a sucessão de circulares administrativas contraditórias, retrocederam.

Seria um erro grave acreditar que será suficiente enviar algumas diretivas concebidas pelos especialistas da Direção Geral da Saúde (DGS) e do Instituto Nacional de Vigilância Sanitária (InVS) para que tudo se resolva. As decisões médicas são tomadas em função daquilo que o corpo médico respeita, ou seja, os pareceres e as recomendações das sociedades científicas, dos órgãos de ensino pós-universitários e das organizações representativas.

Se quisermos que o conjunto de médicos, e junto com eles outros profissionais da saúde tenham uma atitude comum, é preciso consultá-los ainda, e considerar suas opiniões. Se uma pandemia gripal atingir nosso país, será indispensável que o governo, os médicos e enfermeiros e a opinião pública estejam de acordo, e que a confiança prevaleça entre eles.

É bobagem pensar que bastaria dispor de um monte de vacinas e de Tamiflu e, assim como Tio Patinhas em sua caixa-forte, ficar contando-os e recontando-os. É urgente e indispensável que o governo reúna sociedades científicas, organizações profissionais e sindicais, para que o conjunto de médicos, enfermeiros e outros profissionais participem da elaboração de decisões, para que sejam solidários e assim garantam sua aplicação.

*O Professor Jean-Philippe Derenne é consultor no grupo hospitalar Pitié-Salpêtrière.

Tradução: Lana Lim

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