UOL Notícias Internacional
 

30/07/2009

A incorrigível exuberância do mercado do ouro negro

Le Monde
Jean-Michel Bezat
O número surpreendeu as pessoas e continua sendo um sinal preocupante da volatilidade dos mercados petroleiros: US$ 147. É o preço que o barril (158 litros) atingiu em junho de 2008, antes de desabar para US$ 33 em fevereiro de 2009, e depois subir para mais de US$ 70 no início de julho, voltar a cair abaixo de US$ 60 alguns dias mais tarde, e depois subir novamente para atingir hoje quase US$ 71... Que direção ele tomará no futuro? E o que valem as previsões dos especialistas sobre o fim de 2009?

Uma disparada dos preços, conduzida por uma recuperação das Bolsas e por melhores perspectivas econômicas, corre o risco de comprometer o retorno do crescimento drenando o poder de compra. Dado o nível elevado da oferta (estoque, capacidade de produção saudita...) e da fragilidade persistente do consumo, apesar de um aumento da demanda chinesa, o barril não deveria estar a US$ 71 hoje. Esse preço reflete, sobretudo, antecipações sobre a oferta e a demanda a médio prazo, bem como o nível necessário para que os petroleiros invistam. Mais do que os preços, é sua volatilidade que preocupa, o comportamento maníaco-depressivo dos mercados que embaralha o horizonte das empresas.

É compreensível que a Associação Americana do Transporte Aéreo, um setor atingido pelas oscilações do preço do combustível, tenha aplaudido a iniciativa do diretor do órgão americano que regula os mercados de matérias-primas (CFTC). "Devemos utilizar de maneira firme tudo aquilo que está em nosso poder para que o mercado funcione honestamente", disse Gary Gensler, no dia 7 de julho. Assim como para certos produtos agrícolas, ele considera limitar o número de contratos de opção (sem obrigação de compra ou de venda) sobre um produto que um operador poderia vender ou comprar, exceto aqueles tomados para se proteger do risco associado a suas posições sobre o mercado dos contratos futuros, onde as entregas são efetivas.

Os políticos se preocupam com essa volatilidade, mas seus discursos continuam sendo muitas vezes "mágicos", e suas soluções, pouco convincentes. Há um tema recorrente: o reforço do diálogo entre produtores e consumidores. Ele funcionou bem em casos de graves ameaças ao abastecimento: durante a primeira guerra do Golfo, membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) solucionaram a interrupção das exportações do Iraque e do Kuait. Ele não funciona bem quando se trata de regular os preços, e o cartel se recusa a bombear mais para abaixá-los.

Esse diálogo permitiria que "houvesse um acordo sobre uma orientação de preço geral para dar ao mercado", falou recentemente Nicolas Sarkozy, em Abu Dhabi. O presidente francês defende a ideia de uma "margem de preços" capaz de garantir a rentabilidade dos investimentos sem esmagar os países consumidores. Ele a retomou no início de julho durante a cúpula franco-britânica de Evian, e depois no G8 de L'Aquila Itália). Sem grande sucesso, os países ricos se contentam em apelar para "que melhorem a transparência e reforcem seus diálogos".

A ideia de uma margem de preços não convence os maiores petroleiros. Diretor-geral da Total, Christophe de Margerie respondeu diplomaticamente a Sarkozy que "é o papel de um presidente ser voluntarista", mas que ele não conseguia ver a viabilidade de tal mecanismo. Uma faixa de flutuação esteve em vigor entre 2000 e 2004: abaixo dos US$ 22 o barril, a Opep reduzia suas cotas para impulsionar os preços; acima de US$ 28, ela aumentava a produção para acalmar os mercados. A explosão da demanda chinesa em 2004 tirou proveito do mecanismo. A Opep "foi incapaz de aumentar suas capacidades e os preços dispararam", observa Olivier Appert, presidente do Instituto Francês do Petróleo.

Lançada pelo diretor-geral do grupo italiano Eni, Paolo Scaronni, a ideia de uma agência internacional do petróleo também fracassou. Ela administraria um fundo de estabilização que deveria corrigir os movimentos erráticos do petróleo. O precedente do estanho, nos anos 1970, mostra as dificuldades da tarefa, lembra Appert. A regulação fracassou, uma vez que se tratava de um micromercado comparado ao do petróleo, onde o comércio chega a US$ 5 bilhões todos os dias, e as transações de "barris de papel" a dez vezes mais.

Formada no liberalismo anglo-saxão, a Agência Internacional de Energia alerta contra uma "regulação excessiva". Um consenso se esboça sobre um preço justo entre US$ 70 e 80 - próximo dos US$ 75 defendidos pela Opep. Ao mesmo tempo em que condena os "investidores", o novo termo que o cartel escolheu para os "especuladores", este se recusa a abrir as portas para acalmar os mercados. "Ele embolsa os rendimentos cada vez maiores do petróleo sem se preocupar com os danos que os preços elevados podem causar a uma retomada econômica embrionária": a crítica vem do Centre for Global Energy Studies, a consultoria fundada em Londres pelo xeque Zaki Yamani, ex-ministro saudita do Petróleo. US$ 40, 60 ou 80 o barril no fim de 2009? Para Patrick Artus, diretor de Pesquisa Econômica do banco Natixis, uma "grande incerteza" pesa sobre a retomada.

Tradução: Lana Lim

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