UOL Notícias Internacional
 

04/08/2009

Marrocos: a pesquisa de opinião proibida

Le Monde
Florence Beaugé
Testar a popularidade de um soberano ou de um chefe de Estado? Comum no Ocidente, o exercício é arriscado em um país cuja democratização está longe de ser atingida. Entretanto, a "TelQuel", principal revista do Marrocos, resolveu se aventurar. Na ocasião do décimo aniversário da chegada ao poder de Mohammed 6º, essa publicação semanal independente e de tom crítico encomendou uma pesquisa de opinião em escala nacional para saber o que os marroquinos pensam de seu rei.

É um marco importante, tanto no Marrocos como no Magreb e no mundo árabe como um todo. No entanto, foi ousado demais. No sábado (1), em Casablanca, o ministro marroquino do Interior, Chakib Benmoussa, ordenou que as cópias do último número da "TelQuel" e sua versão em árabe, "Nichane", fossem apreendidas na gráfica e destruídas. Motivo: "A monarquia não pode ser equacionada, mesmo por meio de uma pesquisa", como declarou o porta-voz do governo e ministro da Comunicação, Khalid Naciri.

O mais espantoso é que o resultado dessa pesquisa é extraordinariamente favorável a Mohammed 6º. O rei é aprovado pela imensa maioria do povo marroquino. Será que o poder quis lembrar que um princípio é um princípio, e que ele não pode ser infringido, correndo o risco de empregar métodos que acreditávamos reservados à Tunísia de Zine al-Abidine Ben Ali ou à Argélia de Abdelaziz Bouteflika? O rei, empresário. O rei, figura sagrada. O rei e seu protocolo de uma outra época... São perguntas que foram feitas, do fim de junho ao início de julho, a uma amostra representativa da população marroquina, por uma equipe de entrevistadores profissionais da LMS-CSA, filial no Marrocos do instituto francês de pesquisas CSA. O "Le Monde" quis se associar a esse projeto.

Foi a primeira vez que cidadãos marroquinos anônimos tiveram de responder a perguntas precisas e sem complacência tratando diretamente de seu soberano. E ainda que o resultado dessa pesquisa de opinião tivesse sido desfavorável a Mohammed 6º, a "TelQuel" teria mantido seu plano: publicar, do jeito que estivesse - segundo seus princípios - esse reflexo do verdadeiro rosto do Marrocos. Talvez ela até mesmo fosse gostar de resultados mais críticos, uma vez que milita, há anos, por um Marrocos mais moderno, mais democrático, desempoeirado da pompa real, e por um rei que deixe de governar a seu "bel prazer".

Mas o Marrocos de verdade está a milhares de léguas das elites francófonas de Rabat e Casablanca. Ainda que alguns muitas vezes tenham tendência a esquecer, o rei não esquece jamais. E as conclusões dessa pesquisa podem reforçá-lo em sua estatura e seu modo de governar. Para o grande desgosto, evidentemente, daqueles que denunciam suas falhas e sonham com um Marrocos moderno, realmente democrático.

Uma coisa é certa: os marroquinos não hesitam em falar de Mohammed 6º. Eles acreditam poder contar com o vento da liberdade que sopra, aparentemente, sobre o reino há dez anos. Teriam eles aceito responder aos entrevistadores se soubessem que as revistas seriam apreendidas e destruídas? Certamente não.

Entretanto, eles aprovam a ação de seu soberano. De fato, 91% das pessoas entrevistadas dizem ter sentido, ao longo da década que passou, pelo menos uma mudança notável em seu ambiente imediato. Eles citam, desordenadamente, as escolas e os hospitais, agora mais próximos e acessíveis, um maior número de estradas etc.

O rei é uma figura sagrada

Além disso, quase um em cada dois marroquinos acredita que a monarquia, da forma como é exercida, é "democrática". Será que o medo sob o governo de Hassan 2º foi tão grande, que bastou seu filho afrouxar um pouco o cerco, em matéria de liberdade de expressão, para que as pessoas o considerassem, ainda que apressadamente, como "democrata"?

Mais surpreendente ainda: a grande maioria dos marroquinos que consideram a monarquia "autoritária" emprega essa palavra não como uma crítica, mas como... um elogio! "É claro que nossa monarquia é autoritária, e melhor que seja assim!", eles declararam aos entrevistadores. "É melhor que o poder esteja nas mãos do rei, do que nas de políticos corruptos que só pensam em seus próprios interesses". Um julgamento cruel para a classe política e o governo, que não possuem, diga-se de passagem, a margem de manobra necessária para mostrar seu valor frente a uma monarquia absoluta e onipresente.

A pompa da qual o rei gosta de se cercar não incomoda muita gente. É uma das revelações surpreendentes dessa pesquisa: 51% dos marroquinos sentem que o pesado protocolo real está mais leve, então não é o caso. Todos os anos, no fim de julho, a tradicional cerimônia de lealdade, com o beijar de mãos e a atitude servil das elites convidadas, continua sendo digna dos califas de Bagdá. Mas a relação dos marroquinos com seu rei é de ordem sentimental, ou até de fusão. A população só se lembra de uma coisa: Mohammed 6º não hesita em se aproximar do povo. Além disso, o rei é uma figura sagrada para três quartos dos marroquinos, revela a pesquisa. Portanto, ele teria razão em manter sua posição.

O rei "empresário", e até principal operador econômico privado do reino por meio de suas diferentes holdings, também não choca. Segundo a revista "Forbes", Mohammed 6º é o sétimo monarca mais rico do mundo, e seus negócios equivalem a 6% do PIB do Marrocos. Sua influência sobre a economia nacional não é um problema? Claro que não! Somente 17% dos entrevistados se ofendem com isso. Os outros, inclusive aqueles com nível mais elevado de educação, acreditam que o rei "dessa forma incrementa a economia marroquina".

Uma das raras reservas suscitadas por Mohammed 6º tem a ver com a erradicação da pobreza. Somente um terço dos marroquinos acredita que a situação melhorou no reino, nos dez últimos anos. Um outro terço não é dessa opinião. Um quarto acredita que a pobreza até mesmo se agravou. Em matéria de segurança, o mesmo repúdio; 49% dos marroquinos se sentem ameaçados pelo terrorismo e a escalada da criminalidade.

Mas as críticas mais severas ao rei são a respeito da Mudawana, o novo código da família que, desde 2004, torna os marroquinos homens iguais, exceto em matéria de linhagem. Surpresa! Quase um em cada dois marroquinos acredita que o rei foi longe demais em sua vontade de dar liberdade às mulheres. Pois elas não precisam mais de um tutor para se casar; elas podem pedir o divórcio (uma prerrogativa até então reservada aos homens); e a poligamia se tornou impossível na realidade. E todas essas conquistas estão longe de causar entusiasmo. Somente 16% dos marroquinos acham que as mulheres deveriam ter ainda mais direitos.

O princípio da igualdade dos sexos ainda é muito pouco integrado no Marrocos, e isso vale tanto para as mulheres quanto para os homens. Por enquanto, o traço dominante dos marroquinos parece ser... o machismo, e o das marroquinas, a submissão ao machismo, independente da idade, região ou categoria sócio-econômica.

Em resumo, os marroquinos apóiam Mohammed 6º em tudo, exceto em sua política feminista. É certamente uma das lições mais inesperadas dessa pesquisa. E uma outra é lembrar os limites da "democratização" à moda marroquina, proclamada a todos pelos oficiais do reino nos dez últimos anos.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,54
    3,265
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,36
    64.085,41
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host