UOL Notícias Internacional
 

04/08/2009

Os palestinos com falta de representação e estratégia

Le Monde
Gilles Paris
Quem representa os palestinos? Sessenta anos após a criação clandestina do Fatah (acrônimo invertido de Movimento de Libertação da Palestina) no Kuait, a questão não é mais um argumento israelense utilizado para evitar a entrada em um processo de negociações julgado a priori custoso demais. O movimento nacional palestino, por muito tempo encarnado somente pelo Fatah, aparece hoje pelo que é: defeituoso, paralisado por divisões e fraturas. A ponto de ser pouco provável que seu congresso, previsto para terça-feira (4) em Belém após ter sido adiado durante duas décadas, baste para recolocar esse movimento em funcionamento.

Pode-se associar o início de suas falhas com o processo de paz de Oslo, lançado em 1993, e que prometia, entretanto, exprimir a aspiração nacional palestina no contexto da solução dos dois Estados, uma Palestina fundada na Cisjordânia e em Gaza. A volta triunfante da OLP e de seu líder, Yasser Arafat, à estreita faixa de terra em 1994, precipitou de fato um rompimento histórico com a diáspora espalhada pelos campos de refugiados criados a partir de 1948.

A criação do Fatah e a "repalestinização" de uma causa por muito tempo instrumentalizada pelos Estados árabes da periferia somente para seu proveito foram produtos dos campos e eram dirigidas contra uma elite palestina acusada de ter fracassado frente ao projeto sionista. Esse afastamento contribuiu para "congelar" a mobilização da diáspora. Os líderes do Fatah e da OLP perderam em poder, dando a impressão de privilegiar agora os palestinos do "interior".

O segundo rompimento coincidiu com o surgimento de uma oposição interna nos territórios palestinos colocados sob o controle fragmentário de uma Autoridade Palestina abençoada pelas urnas em janeiro de 1996. O Fatah, por muito tempo opressor no centro da OLP, sempre soube enfrentar a contestação, essa "frente da recusa" que rejeitou o acordo considerado injusto de Oslo.

Essa contestação era irrigada por um pan-arabismo e por um pós-marxismo que caíram em desuso a partir dos anos 1980. Com o nascimento do Movimento da Resistência Islâmica (Hamas), em dezembro de 1987, o mentor do nacionalismo palestino teve de contar com uma corrente profundamente implantada e nascida no coração dos territórios palestinos.

A invalidação pela história do postulado de Oslo e do Fatah (a criação inevitável de um Estado palestino no final de um período temporário de cinco anos) abriu um espaço no Hamas. Assim, estava em jogo a aceitação oficial de um Estado palestino em Gaza e na Cisjordânia, com a parte oriental de Jerusalém como capital, ainda que os islâmicos insistam sobre o "direito ao retorno", uma vez que a iniciativa árabe que constitui atualmente o ponto de equilíbrio dos padrinhos árabes dos palestinos se mantém fiel, mais modestamente, a uma solução justa e negociada (com Israel) respeitando as resoluções das Nações Unidas.

O surgimento dessa oposição é manifesto em duas etapas: a vitória dos islâmicos nas eleições legislativas de 2006, e depois sua tomada do controle militar na faixa de Gaza no fim de uma guerra civil encorajada por países ocidentais que recusam qualquer contato com o Hamas por ele não reconhecer Israel, e por não ter aberto mão da violência (que também é o caso do Hezbollah libanês, apesar de receber outro tratamento).

Desde então, o impasse é total, mantido pelos dois lados, irredutíveis. Mas essa ruptura geográfica tem um custo exorbitante, uma vez que se soma ao rompimento inicial entre palestinos "do interior" e os da diáspora, e que ela condena qualquer perspectiva de eleições gerais agora que os mandatos do presidente Mahmoud Abbas e do Conselho legislativo ou venceram ou estão para vencer.

Esse esfacelamento da representatividade palestina não para por aí. Originalmente uma simples cópia do Fatah, a Autoridade Palestina novamente sob controle dos doadores internacionais não teria se libertado dele, em parte? É a mensagem que os islâmicos do Hamas tentam passar, quando denigrem a "Autoridade Dayton", assim chamada por causa do general americano encarregado da reestruturação dos serviços de segurança palestinos cuja missão também é ser a principal cortina defensiva em favor de Israel.

O historiador Jean-François Legrain resume o impasse no qual o Fatah hoje se encontra: incapaz de mobilizar todas suas forças tanto sobre uma base nacionalista anti-israelense quanto sobre uma base anti-Hamas, em vista dos laços criados entre milicianos durante a segunda Intifada.

Primeiro dirigente americano a evocar publicamente a criação de um Estado palestino, George Bush havia associado essa perspectiva, em junho de 2002, ao surgimento de uma nova direção palestina para substituir um Yasser Arafat considerado fracassado.

Sete anos mais tarde, o Estado palestino se tornou um refrão em Washington, Londres ou Paris, mas nos territórios palestinos essa direção palestina, representativa, legítima e reunida, ainda não é encontrada.

Tradução: Lana Lim

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