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06/08/2009

Ahmadinejad, um presidente de poder limitado

Le Monde
Hélène Bekmezian

UM PRESIDENTE ULTRACONSERVADOR

  • Mahmoud Ahmadinejad, de 52 anos, é casado e pai de três filhos. Durante a Revolução Islâmica de 1979, fez parte do Guardiões da Revolução, o exército ideológico do regime. Assumiu seu primeiro cargo político como governador da província de Ardebil. Em 2003, tornou-se prefeito de Teerã, cargo que o levou à presidência do Irã em 2005. Tornou-se famoso ao afirmar que Israel deveria ser varrido do mapa e que o Holocausto era um "mito". Foi criticado por sua política de distribuição de petrodólares que gerou forte inflação (23,6%) sem, no entanto, reduzir o desemprego e a pobreza. Foi reeleito em 12 de junho deste ano para seu segundo mandato presidencial, com quase 63% dos votos.

Desde 12 de junho, o movimento de protestos não enfraquece no Irã. A multidão, conduzida pelo líder da oposição, Mir Hossein Mousavi, exige a anulação da eleição que levou Mahmoud Ahmadinejad de volta à presidência. Entretanto, após ter sido confirmado em suas funções na segunda-feira pelo líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, Ahmadinejad prestou juramento para um novo mandato de quatro anos na quarta-feira (5) pela manhã. De sua parte, Mousavi prometeu que a oposição não perderia força, apesar disso. Que direção segue agora essa crise iraniana, e existe alguma esperança de que ela se resolva? A pesquisadora Fariba Adelkhah, especialista em Irã e Ásia Menor no Centro de Estudos e de Pesquisas Internacionais, apresenta seu ponto de vista.

O Parlamento. "O Irã é uma República, o Parlamento tem um poder de oposição efetivo que ele pode utilizar, e que ele já utilizou no passado", explica Adelkhah. Ahmadinejad ainda tem pela frente duas semanas para apresentar os membros de seu novo governo aos deputados para obter um voto de confiança. 290 membros compõem o Parlamento, dos quais 80 vêm de grupos minoritários reformistas e independentes. "O Parlamento não pertence a Ahmadinejad. Se ele não aceita a composição do governo que o presidente lhe propõe, ele tem o poder de destituí-lo", explica Adelkhah. O Parlamento foi o primeiro a se opor à nomeação de Esfandiar Rahim Mashaie como vice-presidente. Ele acabou renunciando em 26 de julho.

Uma crise constitucional. Se o aiatolá Khamenei, líder da revolução, confirmou a eleição de Mahmoud Ahmadinejad, não foi porque os dois homens são particularmente próximos, explica Fariba Adelkhah. O aiatolá Khamenei exerceu, acima de tudo, seu papel de guardião da República, ao fazer valer as leis. "Questionar o resultado da eleição equivaleria a reconhecer que o sistema é defeituoso, que nenhuma outra eleição poderá ser organizada sem ser contestada, a menos que haja uma reforma profunda da Constituição". Além disso, "a República se apoia em um equilíbrio que é a parceria entre Ali Khamenei e Hashemi Rafsanjani [presidente do Conselho de Discernimento do Irã, um órgão muito poderoso]. Ora, esse equilíbrio não existe mais. Rafsandjani não assistiu ao juramento de Ahmadinejad e claramente se opôs ao aiatolá Khamenei. Realmente existe uma crise que, acredito, é inevitável", acredita Adelkhah.

Ahmadinejad toma posse em um Irã dividido e sob forte pressão popular e da oposição, diz especialista

Reeleito em 12 de junho depois de controvertidas eleições que motivaram protestos da oposição e acusações de fraudes, o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad tomou posse nesta quarta-feira (5) para um novo mandato. Durante o discurso de posse em parlamento com algumas cadeiras vazias, Ahmadinejad afirmou que o Irã continuará com sua resistência frente às "potências opressoras". "Resistiremos aos países opressores e vamos continuar atuando par mudar os mecanismos discriminatórios no mundo, em benefício de todas as nações", declarou. Ele também assinalou que não presta qualquer atenção ao fato de que os Estados Unidos não o tenham felicitado pela reeleição porque "ninguém no Irã espera uma mensagem de felicitações dos ocidentais"

Uma crise particular e paradoxal. Entretanto, em nenhum momento o regime do país foi questionado, e é isso que essa crise tem de singular. "Até hoje, a República sempre resistiu bem às crises que o país atravessou. Mas neste caso, as coisas se complicam pois os descontentes não têm nada contra a República. Pelo contrário; aqueles que protestam [Mousavi, Mohsen Rezai, Mehdi Karoubi] são figurões da República, são aqueles que contribuíram para sua evolução desde o primeiro dia, aqueles que estabeleceram o sistema e que agora querem reformá-lo".

Mahmoud Ahmadinejad e seus partidários vieram da nova geração. São "self-made men" e especialistas políticos pragmáticos, que não pertencem a clãs políticos, como é o caso dos jovens ex-alunos da Escola Nacional de Administração da França. "Aliás, é aí que está todo o paradoxo dessa crise", continua Adelkhah. "A juventude iraniana apoia os antigos figurões, no mesmo lugar há décadas, ao passo que o líder da revolução apoia os atores do renovamento da classe política". O que tenderia a mostrar que o povo milita menos por um projeto político do que por uma mudança de forma, para obter uma aura maior sobre o cenário internacional, com uma orientação mais ocidental.

Um presidente fraco. "Ahmadinejad esgotou seu crédito parlamentar, ao final de um mandato que não foi exatamente um sucesso", lembra Fariba Adelkhah. Com essa crise, ele também perdeu seu crédito popular e muitos apoios entre os conservadores, que não aprovaram a nomeação de Rahim Mashaie como vice-presidente. "É claramente uma vitória de Pirro. Mesmo que ele continue sendo presidente, Ahmadinejad será um político sem poder", ela conclui.

Tradução: Lana Lim

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