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07/08/2009

A Irlanda e a Islândia, essas europeias singulares

Le Monde
Marion Van Renterghem
Assim que se sai da pequena e moderna capital Reykjavik pela estrada que atravessa as estepes lunares, as crateras fumegantes, o cuspir dos gêiseres e o vento perfumado de tubarão podre, especialidade culinária local, o sentimento de se encontrar na Europa não é a primeira coisa que vem à mente na Islândia. Os islandeses também achavam isso até que, diante de um colapso de seu sistema bancário e sob subsídio do FMI desde o outono de 2008, seu Parlamento decidiu votar sua candidatura à União Europeia (UE). Os ministros das Relações Exteriores acabam de comunicá-la à Comissão.

Um pouco mais ao sul, uma outra ilha atlântica de natureza aparentemente mais europeia, a Irlanda, tem em suas mãos uma parte do destino da primeira. Se levarmos em conta o caráter imprevisível dos poetas do país celta, os islandeses viverão em suspense até 2 de outubro. Nesse dia, os irlandeses se pronunciarão uma segunda vez por referendo sobre o Tratado de Lisboa, munidos de garantias sobre questões delicadas que teriam motivado seu "não" em junho de 2008. Esse tratado, além de ser mais democrático e mais eficaz, permite que a União se estenda a outros países.
  • Peter Muhly/AFP

    Cartaz no centro de Dublin, na Irlanda, prega voto no "não" no referendo de sobre o Tratado de Lisboa. Em junho de 2008, o país rejeitou o acordo. Agora, fará um novo referendo em outubro


O Tratado de Nice em vigor não permite acolher um 28º Estado-membro, a menos que haja modificações substanciais. Sem o Tratado de Lisboa, não há ampliação à Islândia, à Croácia, à Turquia e aos outros candidatos. A razão é jurídica e política, pois a França e a Alemanha a apresentaram como princípio: "Não haverá ampliação enquanto o Tratado de Lisboa não estiver em vigor", repetiu em Bruxelas Pierre Lellouche, secretário de Estado para Assuntos Europeus, em 27 de julho.

No dia seguinte, o ministro realizou uma viagem conjugada às duas ilhas do Atlântico. Duas europeias singulares cujo patriotismo insular e o laço com os Estados Unidos não são os únicos pontos em comum. Ambas passaram em um tempo recorde da miséria à riqueza até o estouro repentino, com a crise econômica e financeira mundial, das bolhas que elas haviam formado pelos créditos imobiliários e as especulações financeiras.

A Irlanda, com 4,4 milhões de habitantes, outrora o país mais pobre da Europa, tornou-se o Tigre Celta no fim dos anos 1980, segundo país mais rico da UE depois de Luxemburgo. Ela deve esse salto à sua entrada na Comunidade Europeia em 1973. Com uma economia baseada em investimentos estrangeiros (favorecidos pelo sistema fiscal) e no boom imobiliário, o Tigre foi atingido em cheio pelos efeitos da crise mundial. A Irlanda foi o primeiro país da UE a entrar em recessão.

A Islândia, com 320 mil habitantes, competia com a Irlanda pelo recorde de pobreza na Europa, antes de ir parar, em meados dos anos 1990, entre os países mais ricos do mundo, graças a suas indústrias de ponta, à pesca e aos investimentos bancários: 5º lugar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), 1º no índice de desenvolvimento humano (IDH). No outono de 2008, a crise expôs a loucura dos investidores islandeses: o total dos ativos chegou a onze vezes o PIB da ilha. A Islândia foi o único país industrializado a ter seu sistema bancário falido, o primeiro na crise a pedir por ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI). A raiva popular beirou a revolução.

A dois meses do referendo irlandês, as duas ilhas divergem. A Islândia, que já aplica grande parte do acervo comunitário [base comum de direitos e obrigações], é pressionada a entrar para a UE. A Irlanda, que já obteve desta muitos benefícios (60 bilhões de euros), disse "não" para o Tratado de Lisboa em 2008, no momento em que passava de "beneficiário líquido" a "contribuinte líquido", e desconfia da ampliação. Para a segunda votação, em 2 de outubro, as pesquisas públicas apontam o "sim" como vencedor. Outras, organizadas pelos partidos políticos, indicam o inverso.

Em Dublin, Lellouche evitou interferir na campanha. Os irlandeses não gostaram quando os dirigentes europeus se intrometeram em suas questões em 2008. Sua viagem dupla visou lembrar os irlandeses daquilo que os islandeses se conscientizaram: a força da União para resistir à crise. Ele voltou cético: "Agora que os irlandeses não são mais um Tigre, será que eles acharão mais sábio apostar na aventura europeia, ou a rejeitarão por raiva contra seu governo? Uma coisa é certa: é a última vez que se fala em tratado institucional na Europa. Se o Tratado de Lisboa não for ratificado, o de Nice será, e isso será lamentável. Qualquer que seja o resultado, já é hora de virar a página. De parar de debater questões institucionais, para abordar as verdadeiras questões da Europa, a regulação financeira, o clima, as relações com a Rússia, a ajuda aos países pobres, a inovação..."

No dia 2 de outubro, cerca de 3 milhões de eleitores irlandeses determinarão o destino de 500 milhões de europeus. Se eles disserem não, os islandeses não serão os únicos a sofrer com isso. Eles poderão ver ali uma vingança tardia contra seus ancestrais vikings, que foram buscar seus escravos... na Irlanda.

Tradução: Lana Lim

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