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08/08/2009

Um ano depois: uma Geórgia de pé e livre

Le Monde
Mikhail Saakashvili
Na noite de 7 de agosto de 2008, o 58º exército russo atravessou as fronteiras internacionalmente reconhecidas da Geórgia. E assim começava uma invasão preparada de longa data, visando derrubar meu governo e reforçar o controle de Moscou sobre uma região que lhe escapava cada vez mais.

Mikhail Saakashvili, presidente da República da Geórgia

  • AFP

Um ano depois, deve-se admitir que essa invasão não teve os resultados esperados pelo Kremlin.O balanço desses dias de guerra foi pesado: 410 georgianos mortos, a maioria civis, mais de 1.700 feridos e cerca de 170 mil pessoas obrigadas a deixar suas casas, entre as quais dezenas de milhares que fugiam da faxina étnica que atingia os vilarejos da Ossétia do Sul e de Abkházia. O custo econômico da invasão chegou a vários bilhões de euros.

Violando o acordo de paz assinado pelo presidente Medvedev, os militares russos não se retiraram para as linhas que eles ocupavam antes do conflito, e mais de 10 mil deles permanecem nesses dois territórios georgianos ocupados. Hoje, sua reforçada presença é ainda mais ameaçadora, uma vez que a Rússia acaba de vetar a renovação das missões de observação da ONU (Organização das Nações Unidas) e da OSCE (Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa), encarregadas de proteger os direitos humanos e de vigiar os movimentos das tropas.

Entretanto, a Geórgia está se reerguendo. Nossa democracia se fortalece, os investidores estrangeiros estão voltando, e o mundo agora reconhece que as manobras russas de agosto de 2008 representam uma ameaça não somente para a Geórgia, mas também para todos os países que amam a liberdade e a independência na região.

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As aspirações da Geórgia são ao mesmo tempo simples e audaciosas. Desde nossa "Revolução Rosa" em 2003, trabalhamos incessantemente para transformar um Estado decadente, profundamente corrompido e avassalado, em algo de profundamente novo em nossa região: um Estado moderno, responsável, aliado ao Ocidente, dentro dos padrões europeus e firmemente comprometido com a democracia e a economia de mercado.

Vinte anos após a queda do muro de Berlim, essas aspirações deveriam estar estabelecidas. Até a Rússia deveria estar feliz de ter um vizinho estável, dinâmico e próspero. Em vez disso, Moscou se sente ultrajada por nosso plano coletivo. Como se o advento no Cáucaso de uma nova geração de líderes voltados para a Europa representasse uma ameaça existencial para o Estado russo. Tal percepção herdada da guerra fria explica em grande parte os acontecimentos de agosto de 2008. Foi difícil, mas sobrevivemos à guerra. Quando ela chegou ao fim, nós nos vimos diante de uma escolha fundamental.

A maioria dos países que enfrentam perigos tão graves assim tende a retroceder. Nós, pelo contrário, decidimos ir ainda mais fundo no caminho das liberdades e valores que compartilhamos com o Ocidente. Sabemos que esses valores serão afinal nossa maior proteção, a garantia de que não voltaremos nunca mais aos tempos sombrios da opressão soviética. Durante as manifestações de abril, por exemplo, ainda que os tanques russos estivessem - e ainda estão - a 32 quilômetros de nossa capital, optamos por uma política de abertura e de reserva. A polícia não saiu às ruas, e permitiu que os manifestantes bloqueassem ilegalmente durante três meses a principal avenida de Tbilissi.

Recusando-me a usar a ocupação russa como pretexto para limitar a expressão das contradições e dos antagonismos que atravessam a sociedade georgiana, certifiquei-me pessoalmente de que as forças de ordem protegeriam os acampamentos da oposição. Além disso, convidamos os chefes da oposição a abrir um diálogo para reformar a fundo nossa Constituição, o sistema eleitoral, as mídias e a justiça.

No mês de julho, esse diálogo se acelerou, uma vez que iniciei uma série de reformas seguindo um cronograma preciso: a eleição direta para prefeitos em maio de 2010; um novo código eleitoral e a eleição por consenso do presidente de nossa Comissão eleitoral central; menos poder para o presidente, mais para o Parlamento; sanções mais rígidas contra os representantes do Estado que tentarem influenciar juízes; um Conselho de telecomunicações composto por partes iguais de membros da oposição e da maioria.

Nós redobramos os esforços para abrir nosso país. A comunidade internacional reconhece isso, e somos gratos. Mais de 4 bilhões de euros nos foram prometidos para ajudar a reparar os danos causados pela guerra e para cuidar das pessoas desalojadas. Os investimentos estrangeiros estão voltando. A comunidade internacional condenou as diversas violações pela Rússia do acordo de cessar-fogo. No mês de julho, em Moscou, o presidente Obama defendeu firmemente nossa integridade territorial e nossas aspirações a entrar para a Otan.

Hoje a Geórgia enfrenta uma situação nova, que entretanto parece algo já visto. Assim como o muro de Berlim um dia separou o mundo livre do espaço comunista, uma fronteira de arame farpado nos separa hoje de nossos dois territórios ocupados. Nesses territórios, os observadores internacionais foram expulsos, as mídias amordaçadas, e os cidadãos georgianos impedidos de voltar para seus lares. Enquanto isso, a Rússia continua a construir ali novas bases militares.

Não é uma ameaça que diz respeito somente a nós. É um perigo para todas as nações livres que subscrevem ao princípio segundo o qual as fronteiras internacionais não podem ser modificadas pela força. Se nós não nos opusermos a essas práticas, quer sejam agressões transfronteiriças, "conflitos congelados" para desestabilizar Estados soberanos, ou cortes enérgicos com fins políticos, nenhum de nós estará em segurança. É por isso que, junto com nossos amigos ocidentais, decidimos aplicar os métodos que permitiram pôr fim de forma pacífica à guerra fria.

Nós fizemos um apelo para que todos os Estados respeitem a integridade territorial da Geórgia e que não reconheçam os territórios ocupados. Estamos felizes de constatar que essa abordagem foi adotada por quase toda a comunidade internacional. Somos determinados, mas pacientes. Não procuramos retomar esses territórios pela força - mas também não nos esquecemos dos direitos dos georgianos deslocados. Acima de tudo, nós continuaremos a construir uma democracia e uma economia abertas. Como o vice-presidente dos EUA Joe Biden declarou para nós em julho, durante sua visita a Tbilissi: "Todas as nações progressistas do mundo têm interesse no seu sucesso, especialmente as nações desta região".

Vinte anos atrás, o magnetismo que o Ocidente livre e próspero exercia derrubou o muro de Berlim. Temos certeza de que o exemplo de uma Geórgia livre e próspera acabará restaurando nossa soberania e consertando os males causados pela invasão russa de agosto de 2008. Com a ajuda de nossos amigos nos Estados Unidos e na União Europeia -à qual seremos eternamente gratos por seu papel em 2008 e depois - , a Geórgia continuará a se reerguer e seguirá seu caminho em direção à grande família das democracias europeias.

Tradução: Lana Lim

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