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12/08/2009

A Chechênia: "uma zona totalmente sem lei"

Le Monde
À Célia Héron
Françoise Petre é vice-presidente do Comitê Chechênia de Paris, uma associação de apoio às iniciativas humanitárias sobre o território checheno. No dia seguinte ao assassinato de Zarema Sadulaieva, diretora da ONG "Salvemos a geração", ela volta a discutir as dificuldades enfrentadas pelos trabalhadores humanitários na Chechênia.

Como a senhora descreveria a atual situação política na Chechênia?
Françoise Petre:
A Chechênia é uma zona totalmente sem lei. Uma tentativa de independência foi abortada, seguida de duas guerras, e no momento atual, as leis da Confederação da Rússia deveriam ser aplicadas. Mas o presidente checheno, Ramzan Kadyrov, levado ao poder por Moscou, não esconde sua vontade de aplicar suas próprias leis, e isso com o aval da Rússia. Desde o início da segunda guerra em 1999, o plano "Ação anti-terrorista" se aplicava ao território checheno e cobria todos os tipos de derrogações da lei. Ele foi retirado em abril de 2009, como um sinal de "que tudo melhorava na Chechênia, que a guerra havia terminado". Entretanto, desde então os atentados contra os defensores dos direitos humanos aumentaram.
  • Alexander Nemenov/AFP

    O plano "Ação anti-terrorista" terminou em abril
    de 2009 na Chechênia, mas os assassinatos
    de ativistas dos Direitos Humanos continuaram



Em que condições as ONGs trabalham no local?
Petre:
Elas são extremamente difíceis. A organização Memorial, uma das primeiras a serem implantadas em território checheno, decidiu suspender seu trabalho, sendo que esteve presente desde o início da guerra e permaneceu até em momentos muito críticos: o risco ficou grande demais hoje. Então há uma discrepância total entre as autoridades, que fingem que a guerra terminou, e as ONGs, que não podem nem trabalhar.

Qual é o impacto do assassinato de Zarema Sadulaieva sobre as ONGs atuantes?
Petre:
Esse assassinato é extremamente grave porque uma organização como a "Salvemos a geração" faz um trabalho puramente humanitário. Eles defendem os direitos e os interesses das crianças mutiladas pelas minas antipessoais. Em um país onde o serviço público é deficiente, onde o sistema é corrupto e onde tudo pode ser comprado, é fundamental que exista uma ONG que cuide das vítimas sem entrar nesse sistema de pagamento exorbitante.

Em sua opinião, por quais motivos Zarema Sadulaieva foi assassinada?
Petre:
O contexto econômico favorece a existência de uma máfia que gira em torno do poder. Qualquer organização que receba fundos do exterior pode ser visada por razões puramente financeiras. Outra razão possível é que o presidente Kadyrov, onipresente nas mídias, adora seu papel de "defensor das viúvas e dos órfãos": qualquer ajuda que possa vir às pessoas em dificuldades no território deve vir dele. É possível que ele considere que uma ONG humanitária que receba fundos estrangeiros sem passar por ele não pode existir. Além disso, por que uma ONG precisaria de fundos estrangeiros em um país em que a situação está "normalizada"? Talvez haja uma vontade de adaptar a realidade ao discurso oficial...

Como a população chechena pode se organizar para enfrentar essas ameaças e esses assassinatos?
Petre:
Agora reina na Chechênia um clima de terror, a população não ousa se mobilizar. Quando há memoriais ou comícios, as pessoas têm medo de aparecer em fotos, elas não querem mais dar entrevistas e acabam não vindo mais. Ocasionalmente há protestos na Internet, mas eles sempre permanecem anônimos. O assassinato de alguém como Zarema Sadulaieva, que nunca se envolveu com política, e o fato de que ela foi capturada às 14h00, em plena luz do dia em seu escritório, acentuam ainda mais esse clima.

Tradução: Lana Lim

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