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13/08/2009

Frágil esperança, após 25 anos de conflito entre turcos e o PKK

Le Monde
Guillaume Perrier Enviado especial a Semdinli (Turquia)
No enésimo ponto de controle militar que bloqueia a estrada íngreme que leva à pequena cidade de Semdinli, um soldado inspeciona de forma automática os veículos. "O que vai fazer lá?", interroga o oficial em tom inquiridor. "Não há turismo em Semdinli, você não vai ver o mar". O Bósforo está a 2 mil quilômetros dessa zona situada nas fronteiras orientais da Turquia, na região curda junto às fronteiras iraniana e iraquiana.

  • Reuters

    Bandeira da Turquia junto a estátua de Mustafa Kemal Ataturk, fundador da moderna Turquia

Mas Semdinli, cercada por montanhas e controlada pelas forças de segurança, está mergulhada há 25 anos no conflito entre o exército turco e a guerrilha do PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão). Foi nesse domínio do movimento nacionalista curdo que o PKK cometeu sua primeira proeza, ao tomar de assalto, em 15 de agosto de 1984, o posto da polícia militar situado no alto da rua principal, dando início à luta armada contra o Estado. Desde então, a guerra fez mais de 45 mil mortos.

Um quarto de século mais tarde, a Turquia prevê o fim do conflito: o líder aprisionado do PKK, Abdullah Ocalan, deve divulgar em 15 de agosto seu "plano de ação" a partir de sua cela na prisão-ilha de Imrali. E o governo turco, por sua vez, acelera as negociações para tentar encontrar uma saída para seu "problema curdo".

Na penumbra do fundo de uma loja em Semdinli, a cem metros da delegacia, uma ex-combatente do PKK quer dar sua opinião a respeito dessas mensagens de abertura de Ancara: "Nós não confiamos no Estado turco", clama essa mulher cuja aparência e linguagem permanecem marcadas pelos anos passados na montanha.

"Nossos deputados do DTP (Partido para uma Sociedade Democrática) não podem exercer seus direitos. É preciso que o Estado considere as propostas de Abdullah Ocalan", acrescenta a jovem.

O vilarejo de 15 mil habitantes viveu violências demais para sentir entusiasmo. Do outro lado da rua, o proprietário da Livraria da Esperança, Seferi Yilmaz, um bigodudo jovial, já esteve dos dois lados do fuzil, com vinte anos de intervalo entre um e outro. No dia do famoso ataque de 1984, ele fazia parte do comando do PKK que invadiu Semdinli. "Éramos em 21, eu havia feito esboços dos lugares e bloqueamos as ruas", ele conta em meio a suas estantes de livros. "O primeiro grupo se colocou diante do quartel para impedir os soldados de saírem. Três soldados foram mortos, mas nosso objetivo era a propaganda". Enquanto os militares eram mantidos sob mira, pequenos grupos entravam nos cafés e faziam discursos raivosos para os habitantes assustados. "Falamos sobre o golpe de Estado fascista de 1980, dos prisioneiros políticos e das ideias do PKK. Era preciso usar a comunicação oral, pois muitos não sabiam ler", ele recorda com uma ponta de nostalgia. "Depois, nos dispersamos pela montanha em direção ao Iraque". E assim propagava, de vila em vila, a notícia do ataque. Seis meses depois, Seferi Yilmaz foi detido em Semdinli e preso durante 15 anos.

"Bons rapazes"

O plano de Abdullah Ocalan, que havia decidido efetuar ataques simultaneamente em Semdinli e em Eruh, mais ao oeste, deu mais certo do que o esperado. Essa ação de impacto instalou de forma duradoura o PKK na posição do defensor da causa curda frente ao Estado turco, e a guerrilha marxista leninista reacendeu a chama das rebeliões passadas, como a de Xeque Said, enforcado nos anos 1920.

"Eles certamente queriam reavivar essa memória", acredita o jornalista Emin Sari. "Eles também escolheram o 15 de agosto, pois é o dia em que se celebra a fênix, muito importante em nossa mitologia. Esse ataque foi como um símbolo da ressurreição da sociedade curda".

Ao sair da prisão, Seferi Yilmaz comprou sua lojinha e se refugiou em seus livros - políticos, de preferência. Trotski, Frantz Fanon, Balzac e... Ocalan, seu "autor" preferido.

Em 2005, a segunda crise em Semdinli estourou na livraria. Na hora do almoço, um homem apareceu e lançou duas granadas, matando um cliente. Yilmaz era o alvo e escapou da morte. O agressor foi pego quando corria para um carro onde dois cúmplices o esperavam. Os habitantes detiveram os suspeitos: militares à paisana. No porta-malas do carro, foram encontradas armas e plantas da loja.

O caso logo se tornou um escândalo nacional e chamou atenção para os métodos empregados pelo exército em sua luta contra a guerrilha: torturas, sequestros, golpes baixos. A repressão fez milhares de vítimas entre os civis ou os supostos apoiadores da rebelião. "Em três meses houve 16 atentados como o de Semdinli", conta Seferi Yilmaz.

Os autores do ataque da livraria, "bons rapazes", segundo o chefe das Forças Armadas na época, Yasar Büyükanit, escaparam de julgamento e o promotor público que ousou abrir uma investigação foi transferido. Seferi Yilmaz voltou por um tempo para a prisão. Hoje, sua loja parece um museu. As crateras abertas pelas granadas e os fragmentos de metal incrustados no teto: tudo estava como ele deixou.

No escritório local do DTP, o Partido Curdo Legal, os retratos dos "mártires" do PKK em traje de guerrilha cobrem as paredes. A última vitima até o momento, Ali Kaçar, um membro do partido, foi morto em meados de abril em combates com o exército, quase diários nas montanhas dos arredores. Atrás de sua mesa de secretário-geral da seção local do partido, Emrullah Oztürk acredita que o ataque de 15 de agosto foi "o primeiro grito da resistência curda". "O Estado dizia que a palavra curda vinha do ruído dos passos na neve", ele lembra. "Nós vivemos anos de arbitrariedade e de tortura. Não podíamos nem usar nossos trajes tradicionais. Ainda hoje há mortos, ainda que o PKK tenha decretado um cessar-fogo até setembro".

Forte defensora da causa, Semdinli pagou um preço alto em 25 anos de guerra, e a radicalização da população é perceptível. "Independentemente do que digam, apoiaremos Abdullah Ocalan em suas propostas. Ele disse que depois de 15 de agosto, se o Estado não tomar as medidas necessárias, ele não se responsabilizará por mais nada", avisa o militante.

Tradução: Lana Lim

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