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15/08/2009

Crise econômica abala novamente o modelo cubano

Le Monde
Três anos após a doença que o afastou do poder, Fidel Castro comemorou seus 83 anos, na quinta-feira (13), de mau humor: Cuba passa pela pior crise econômica desde o "período especial" que se seguiu à queda da União Soviética, seu ex-apoio comunista. Em seu discurso de encerramento da sessão parlamentar no início de agosto, Raúl Castro, que assumiu oficialmente o cargo de seu irmão mais velho em fevereiro de 2008, indicou que seu país, com falta de divisas, teve de reprogramar suas dívidas junto a seus credores estrangeiros.

Distante da vida pública, Fidel completa
83 anos como a musa inspiradora de Cuba

  • Reuters

    Fidel Castro completa 83 anos nesta quinta-feira (13) como uma espécie de "musa inspiradora" que influencia Cuba e repercute suas ideias no continente americano, mesmo três anos após ter deixado a presidência da ilha e ter se afastado da vida pública devido a uma doença intestinal

As autoridades apontam duas grandes causas para a crise atual. Em 2008, três furacões devastaram a ilha, provocando danos avaliados pelo governo em US$ 10 bilhões (R$ 18,5 bilhões), ou seja, 20% do produto interno bruto (PIB). Em razão das destruições sofridas pelas colheitas, Cuba teve quase de dobrar suas importações de alimentos (pagas em divisas/moeda estrangeira), principalmente dos Estados Unidos, desde que Washington excluiu esse tipo de produto do embargo imposto à ilha desde 1960.

Além disso, Cuba foi atingida pela recessão mundial. O preço do níquel, seu principal produto de exportação, caiu, e os turistas passam cada vez menos tempo lá e gastando menos, ainda que neste ano seu número deva se aproximar do recorde de 2008 (2,35 milhões de pessoas).

Sinal da gravidade da crise, Raúl Castro avisou, em seu discurso, que o Estado colocaria fim "aos benefícios excessivos", para que "as despesas sociais fossem proporcionais às nossas possibilidades reais". Com a educação e o sistema de saúde (gratuito para todos), o social é uma das conquistas da revolução de 1959, no qual o Líder Máximo nunca havia mexido.

O anúncio desses próximos golpes orçamentários chega após uma série de restrições ainda mais dolorosas uma vez que os cubanos vivem com um salário médio equivalente a US$ 20 (R$ 37) por mês e vêm sofrendo com o racionamento há uma eternidade, além do fato de que voltam a faltar produtos básicos como o óleo. Após ter aumentado em 5 anos a idade para a aposentadoria (65 anos para homens, 60 anos para as mulheres), o governo impôs, no início de junho,medidas para economizar energia: os edifícios públicos foram privados de ar condicionado, muitas fábricas param a produção durante os picos de consumo de eletricidade e os agricultores são convidados a "preferir os bois aos tratores" para cultivar a terra. A ilha cobria 47% de seu consumo de petróleo com sua própria produção, mas esta diminuiu no último trimestre, com a Venezuela de Hugo Chávez completando parcialmente, a uma tarifa preferencial, o resto das necessidades.

"A terra está lá e espera seu suor!", exclamou Raúl Castro. Para reduzir a dependência alimentar de seu país, ele impôs tardiamente a primeira das "mudanças estruturais" que havia anunciado em 2007: a distribuição de terras do Estado a pequenos produtores. Até 2008, metade das terras aráveis do Estado estavam ociosas e 60% dos alimentos produzidos em Cuba eram cultivados por agricultores "privados", explorando 35% das terras. Iniciada em 2008, essa distribuição permitiu que 80 mil candidatos recebessem lotes de terras. Como o grosso da demanda não foi atendido em razão da lentidão da administração, Raúl Castro acaba de pedir por uma aceleração desse programa, elevado à categoria de "prioridade nacional".

Àqueles que ficariam tentados a ver nessa "descoletivização" uma inflexão capitalista, Raúl Castro respondeu que ele não foi indicado à presidência "para restaurar o capitalismo em Cuba", mas para "defender, manter e aperfeiçoar o socialismo". "O sistema cubano não é negociável", ele acrescentou, se dirigindo em especial a Hillary Clinton, chefe da diplomacia americana, e à União Europeia (UE), acusadas de "pedir por gestos unilaterais para desmantelar o regime social e político" de seu país.

Em julho, Hillary Clinton havia pedido por "eleições livres" e pela libertação dos prisioneiros políticos cubanos (208, segundo os últimos cálculos da Comissão Cubana de Direitos Humanos e Reconciliação Nacional, ilegal mas tolerada). De sua parte, na esperança de encorajar Cuba a realizar progressos em matéria de democracia e direitos humanos, a União Europeia retirou em outubro de 2008 as sanções que havia imposto em 2003, quando 75 dissidentes foram detentos e condenados.

Fato raríssimo, o jornal oficial "Granma" mencionou em sua primeira página do dia 5 de agosto as manifestações espontâneas e os conflitos que estouraram em Havana em 1994, na pior fase das restrições do "período especial". Fidel Castro chegou rapidamente de jipe e conseguiu acalmar os manifestantes dialogando com eles. "Foi uma grande vitória e um aviso àqueles que tentam se levantar contra a revolução", concluiu "Granma". Será que o poder, que acaba de retirar as restrições aos salários e de reduzir os preços de 24 produtos básicos, teme que as mesmas causas produzam os mesmos efeitos? Se tais ataques de fúria se repetirem, Fidel Castro, cujo estado de saúde é segredo de Estado, não estaria mais em condições de reeditar o feito de 1994.

Tradução: Lana Lim

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