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18/08/2009

No Afeganistão, a violência coloca o pleito em risco

Le Monde
Frédéric Bobin
Enviado especial a Cabul (Afeganistão)
É o momento decisivo da campanha. Ao reivindicar o atentado do sábado (15) diante da sede da Força Internacional de Assistência à Segurança do Afeganistão (Isaf), no centro de Cabul, que fez 7 mortos e 91 feridos, o Taleban acaba de provar que é capaz de atingir uma das zonas mais protegidas da capital e não somente áreas remotas. Essa ação-surpresa aumenta um pessimismo já pesado sobre a eleição presidencial de 20 de agosto, quando o atual presidente Hamid Karzai tenta se reeleger.

Em uma mensagem à imprensa, um porta-voz do Taleban explicou que o carro-bomba (um 4 x 4 blindado com vidros escuros) visava inicialmente a embaixada americana situada nas proximidades, mas que o motorista teve de mudar o alvo no último momento ao constatar a impossibilidade de se aproximar dela. Por fim ele o explodiu diante de uma mureta de concreto armado colocado a cerca de dez metros da entrada da Isaf, o braço da Otan no Afeganistão.

Situado no bairro ultraprotegido de Wazir Akbar Khan, o equivalente em Cabul à "zona verde" de Bagdá, no Iraque, esse quartel-general das forças internacionais cerca um eixo que liga a embaixada dos Estados Unidos ao palácio presidencial.

A maior parte das vítimas do atentado-suicídio é de civis afegãos, que iam ao trabalho quando os escritórios estavam abrindo. Entre os feridos havia soldados da Isaf, de guarda diante do portão de entrada, mas seus números e identidades não foram revelados oficialmente. Os macedônios estavam de guarda aquele dia.

Esse ataque foi o primeiro a visar a capital desde a série de operações-comandos iniciada em 11 de fevereiro contra diversas administrações, entre as quais o ministério da Justiça. Em seguida, Cabul viveu seis meses de tranquilidade.

À medida que a eleição presidencial se aproximava, as autoridades esperavam por um ataque-surpresa na capital, caixa de ressonância midiática que permite ao Taleban atingir o máximo impacto psicológico. "Eles vão tentar uma ação espetacular em Cabul", disse ao "Le Monde", em meados de julho, um assessor do presidente para a Segurança.

O alto funcionário explicou que os serviços de segurança afegãos haviam, na época, "desmantelado quatro ou cinco células terroristas nos arredores de Cabul". "Eles fabricavam bombas, dispunham de mapas de Cabul", ele dizia, antes de explicar: "Todos eles vêm do Waziristão paquistanês".

Essas redes foram desmanteladas graças a informantes infiltrados, mas a penetração é recíproca, o que é o grande desafio da luta anti-terrorista no Afeganistão. O Taleban também dispõe de agentes dentro de um aparelho de Estado gangrenado pela corrupção. "Na minha unidade, há pessoas que os informam", diz um policial encarregado da segurança da capital, se manifestando sob anonimato.

Britânicos em apuros

A barreira dos 200 mortos
Três soldados britânicos foram mortos, no domingo (16), durante um ataque ao seu comboio por insurgentes na província afegã de Helmand. Essas novas vítimas elevam para 204 o número de britânicos mortos no Afeganistão desde a queda do regime taleban, no fim de 2001

Julho
Vinte e dois soldados foram mortos só nesse mês. Os britânicos têm 9 mil homens no Afeganistão, ou seja, o maior contingente estrangeiro depois dos americanos, que têm 62 mil soldados

Operação "Garra de Pantera"
Os britânicos iniciaram, em 23 de junho, uma ampla operação no centro de Helmand, na fronteira do Paquistão, chamada de Panchai Palang ("Garra de Pantera"). Ela mobiliza 3.600 homens, com o apoio de 600 soldados e policiais afegãos

Como um sinal que anunciava o atentado de sábado, foram lançados foguetes sobre a capital na terça (4) e sexta-feira (14) a partir da depressão das montanhas que cercam a bacia de Cabul.

Os estragos foram mínimos, mas de qualquer forma o efeito buscado era psicológico: disseminar o medo entre a população para torpedear uma eleição presidencial apresentada pelo Taleban como "uma farsa orquestrada pelos americanos". Os insurgentes, que mantinham seus planos em silêncio, anunciaram pela primeira vez, no domingo, sua intenção de atacar os postos eleitorais no dia da votação. "Qualquer um que seja ferido nos postos de votação e arredores será responsável por isso, pois já havia sido avisado com antecedência", declarou um porta-voz do Taleban à agência France-Presse.

As autoridades pretendem abrir cerca de 6 mil postos de votação por todo o país, um número 10% menor em relação às previsões iniciais. 17 milhões de afegãos estão inscritos nas listas eleitorais. Mas o maior ceticismo prevalece sobre a possibilidade prática de organizar a votação nas zonas atingidas pela rebelião, o leste e o sul do país.

Além da pressão exercida sobre Cabul, o Taleban intensificou nos últimos dias sua campanha de intimidação nas zonas rurais, ameaçando com represálias qualquer pessoa cujo dedo esteja manchado de tinta (sinal de que ela teria votado). "Os inimigos do Afeganistão tentam criar um sentimento de medo com a chegada das eleições", disse no domingo o presidente Karzai. "Mas eles devem saber que os afegãos (...) não terão medo de suas ameaças e irão às urnas". A realidade pode ser um pouco diferente.

Tradução: Lana Lim

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