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19/08/2009

A Índia enfrenta uma seca histórica

Le Monde
Julien Bouissou
Em Nova Déli (Índia)
O primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, convocou na segunda-feira (17) os chefes de governo regionais para uma reunião emergencial sobre a seca que atinge o país. O departamento meteorológico indiano indicou, em 13 de agosto, que as precipitações estavam 29% abaixo da média. Dos 626 distritos da Índia, 177 foram atingidos por uma seca, que poderá ser a maior dos 20 últimos anos caso as precipitações não aumentem nas próximas semanas. O país recebe 90% de suas chuvas durante as monções, que se estendem de junho a setembro.

Manmohan Singh

  • B Mathur/Reuters

A rede de televisão CNN-IBN relata que, no Estado de Bihar, camponeses armados de fuzis protegem suas fontes de irrigação e vigiam os canais para impedir que seus cursos não sejam desviados para outras plantações. No distrito de Bundelkhand, um dos mais pobres do país, situado em Uttar Pradesh, famílias inteiras de camponeses começaram a deixar suas terras com destino a Nova Déli.

Com canais quase secos, os agricultores recorrem em massa às águas dos lençóis freáticos. Mas o uso das bombas de água, reservado aos mais ricos, se revela caro demais em alguns casos, a venda de magras colheitas não permite cobrir os gastos com querosene ou diesel. O ministro indiano da Agricultura, Sharad Pawar, deu a entender que o governo subsidiaria as tarifas dos combustíveis, para "salvar as plantações existentes".

Nove Estados foram afetados pela seca. Bihar, entre os mais atingidos, pediu um auxílio de 3,3 bilhões de euros (R$ 8,6 bilhões) para enfrentar a situação. Foi constituído um comitê nacional de gestão de crise, dirigido pelo ministro da Economia Pranab Mukherjee e composto por dez de seus colegas.

O primeiro-ministro prometeu conceder um prazo extra aos agricultores, que devem pagar empréstimos contraídos junto a estabelecimentos públicos e parte dos juros de suas dívidas. Mas ainda são muitos os camponeses que fazem empréstimos junto a agiotas inescrupulosos e a falta de colheita pode levar a tragédias. Vários casos de suicídios de camponeses arruinados e endividados já foram registrados em Andhra Pradesh, no sul do país, desde o início da seca.

Ainda que as medidas de emergência sejam necessárias, inúmeros analistas pedem pela implantação de reformas estruturais. Pois os agricultores só se beneficiarão de parte dos bilhões de rúpias gastas em ajuda a eles. Em um livro de título sugestivo ("Todo mundo gosta de uma boa seca"), publicado em 1996, o jornalista Palagummi Sainath mostrou como os programas de ajuda às vítimas da seca são minados pela corrupção.

"O comitê de Gestão de Crise deve resolver os problemas imediatos, mas também conceber um plano a longo prazo que permita enfrentar os desafios impostos pela seca", explica Monkombu Sambasivan Swaminathan, diretor da Comissão Nacional dos Fazendeiros. Esse engenheiro agrônomo preconiza a cultura de batata-doce ou de variedades de milho que consumam menos água, bem como a construção de bacias em cada vilarejo, para recolher uma água de chuva ainda mais preciosa agora que os lençóis freáticos, superexplorados, estão ameaçados de esgotamento.

A seca aumenta as dificuldades de um setor agrícola já em crise. Seu crescimento - de 4,9% durante o ano fiscal de 2007-2008 - caiu para 1,6% em 2008-2009. Ainda que ele só contribua com 17% para o produto nacional bruto indiano, contra 55% em 1950, esse setor continua a sustentar 60% da população.

O ministro da Agricultura pediu aos Estados que iniciem imediatamente obras de infraestrutura, como a construção de reservas de água ou de redes de irrigação, para dar trabalho aos operários agrícolas. O plano de garantia do emprego rural, financiado pelo governo, garante um mínimo de cem dias de trabalho aos habitantes dos campos.

Com 51 milhões de toneladas de reservas de trigo e de arroz, as autoridades indianas não temem escassez alimentar. O governo considera, entretanto, proibir as exportações de trigo e de arroz que não seja do tipo basmati. O sistema de distribuição pública já oferece artigos alimentícios básicos, a preços reduzidos, para habitantes que vivem abaixo da linha de pobreza. Mas o programa, corroído pela corrupção, não garante uma alimentação suficiente àqueles que mais precisam. Os produtos são revendidos no mercado negro, e centenas de indianos continuam a morrer de fome todos os anos.

A situação poderá se agravar se os preços dos artigos alimentícios continuarem a subir, após um aumento de mais de 10% registrado desde junho de 2008. Os preços da batata, da lentilha e do açúcar chegaram a aumentar mais de 30% desde junho de 2009. "Todos os esforços serão feitos para controlar o aumento dos preços dos cereais, dos legumes e de outros produtos de consumo habitual", garantiu o primeiro-ministro.

Tradução: Lana Lim

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