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19/08/2009

"Agora que eles estão ganhando terreno, o Taleban provavelmente não vai querer negociar"

Le Monde
Gaïdz Minassian
Em uma entrevista ao Le Monde, Luis Peral, pesquisador do Instituto de Estudos de Segurança da União Europeia e especialista em Afeganistão, fala sobre as questões das eleições de 20 de agosto, uma vez que a situação no local continua muito tensa.

Raio-X do Afeganistão

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    Área: 652.230 km² (sem saída para o mar)

    População: 33 milhões

    Urbanização: 24% da população é urbana

    Taxa de fertilidade: 6,5 crianças nascidas por mulher (4º maior do mundo)

    Mortalidade infantil: 151 mortes por 1000 nascimentos (3º maior do mundo)

    Expectativa de vida ao nascer: 44,5 anos

    Grupos étnicos: pashtun (42%), tajik (27%), hazara (9%), usbeque (9%) e outros

    Religião: sunitas (80%), xiitas (19%), outros

    Alfabetização: homens, 43%; mulheres, 12%

    Taxa de desemprego: 40%

    Fonte: CIA World Factbook 2009


Le Monde: Podem os afegãos acreditar na democracia, em um país corroído pela guerra, pela corrupção e pela insegurança há décadas?
Luis Peral:
A democracia não é nem uma questão de crenças, nem uma questão que diga respeito somente às eleições. Existem instituições tradicionais no Afeganistão, ainda que os valores tradicionais e as práticas estejam longe do princípio internacional de direitos humanos. A distância entre os valores e as práticas também caracterizou o cerne da operação militar internacional no Afeganistão. A comunidade internacional não fez muita coisa para que os afegãos abraçassem os valores dos direitos humanos. Foi somente em julho de 2009 que a Isaf [Força Internacional de Assistência à Segurança] decidiu focar a campanha militar não em matar o "inimigo" apesar do número de vítimas civis, mas sim em proteger a população. A Isaf finalmente entendeu que sete anos de estratégia militar na verdade alimentaram a insegurança. O alto índice de corrupção no Afeganistão é necessariamente ligado às atividades dos empresários internacionais. É claro, entretanto , que o contexto atual afegão se encontra em grande parte fora da democracia política - sem partidos políticos, para começar.

Le Monde: O que uma eleição pode realmente trazer para um país onde o presidente não controla quase nada?
Peral:
As próximas eleições são mais um teste para o governo afegão e para a comunidade internacional sobre sua capacidade de controlar a situação no território. Portanto, o desafio é enorme. Elas poderiam mostrar que a influência dos insurgentes está aumentando - o que confirma que a abordagem internacional fracassou, inclusive ajudando o governo a controlar todo o território do Afeganistão, como o Conselho de Segurança havia pedido. Por outro lado, a fragilidade do governo afegão não significa que o presidente não tem nenhum poder. Hamid Karzai chegou a conseguir forjar alianças nacionais e manter uma estabilidade "política".

Le Monde: Em sua opinião, a mobilização dos afegãos será forte ou não? As ameaças do Taleban de atingir os postos de votação causam medo nos eleitores?
Peral: A situação é muito incerta e instável. Não está nada claro se existe uma estratégia nacional unificada dos insurgentes. Sua presença e sua força não são iguais em todo o país. Certamente haverá lugares e províncias em que as ameaças de ataque aos postos de votação farão com que os eleitores fiquem em casa. Mas também parece evidente que os afegãos estão perdendo confiança no governo e na comunidade internacional. Esses dois fatores não favorecem o otimismo em termos de mobilização para as eleições.

Pobreza, corrupção e pólvora dominam cenário no Afeganistão

O problema essencial do Afeganistão é de mentalidade. Levará gerações para modificá-la. A burqa seria a metáfora exata: hoje o Ocidente exige sua supressão e esquece as causas culturais e tradicionais que a tornam possível. "Foram perdidos oito anos", diz uma fonte que exige anonimato. "Agora os afegãos têm menos ilusão... e os estrangeiros, menos credibilidade. É uma situação que não pode ser modificada; o primeiro impulso se perdeu."

Le Monde: Qual é a sociologia eleitoral afegã?
Peral:
Não creio que o Afeganistão seja muito diferente de muitos países considerados como democráticos, inclusive os países ocidentais. O contexto descrito acima não é propício à melhora. Em termos práticos, os poderes paralelos controlam em grande medida os votos nos vilarejos e eles querem estender sua influência para as cidades. Não vamos esquecer que no Afeganistão, é o homem que registra as mulheres de sua casa como eleitoras (e não é necessário fornecer provas de seu número) e isso pode então lhes permitir controlar mais facilmente seu direito de voto.

Le Monde: Qual é o papel exercido pelos chefes do narcotráfico nesta eleição?
Peral:
A produção e o tráfico de drogas não têm um papel significativo no contexto nacional afegão. Isso diz respeito às altas esferas nacionais e internacionais da corrupção, mas permite aos agricultores que ganhem a vida. A mais recente abordagem da comunidade internacional é não fazer pressão sobre os camponeses, levando em conta também que não é uma fonte de renda para os insurgentes. Não acredito que a insurreição, que frequentemente é um fenômeno local como eu disse, esteja conectada a esse fluxo. Por outro lado, o fato de que a comunidade internacional mudou radicalmente sua estratégia em diversas ocasiões e nunca fala com uma única voz mostra que ainda é uma questão muito politizada.

Le Monde: Em sua opinião, o que significaria um segundo turno nas eleições presidenciais?
Peral:
Por um lado, isso representaria um desafio ainda maior, uma vez que a insegurança poderia se agravar. Por outro, isso mostraria que a renovação democrática da administração central é possível no Afeganistão. As chances de um segundo turno são mínimas, levando em conta a fragmentação do espectro político: mais de 40 candidatos não tiveram condições de criar alianças, mesmo na ausência de partidos políticos.

Le Monde: Caso Hamid Karzai seja reeleito, ele endurecerá sua política contra o Taleban ou buscará negociar?
Peral:
Meu sentimento geral é de que os insurgentes no Afeganistão são ligados geograficamente a suas comunidades tradicionais. Ainda que a negociação seja uma das palavras-chave, a fragmentação dos grupos rebeldes complicará o processo, mas é um processo necessário que certamente não deveria ser limitado ao Taleban. Caso um quadro nacional seja adotado, o processo só pode acontecer em nível provincial. O aumento da tensão no Afeganistão, ao mesmo tempo territorial - entre os dirigentes locais - e étnica, contribui também para a força da insurreição. No que diz respeito ao Taleban, não é certeza que eles estejam dispostos a negociar agora que eles acreditam estar ganhando terreno, e é muito pouco provável que aconteçam possíveis negociações.

Le Monde: Por que o Taleban está ganhando terreno tão rapidamente? Hoje eles estão presentes em quase todas as regiões...
Peral:
Muito se falou sobre uma estratégia militar desordenada demais, de uma falta de confiança crescente da parte dos afegãos. A insurreição é essencialmente local. Os insurgentes estão somente a cerca de 20 km de seus vilarejos de origem. Eles estão poderosos exatamente por terem sido tão frágeis e fragmentados. A dimensão e o dispositivo militar da operação internacional são, portanto, contraprodutivos na medida em que a Isaf se isolou da população local.

O Taleban não fornece alimentos ou produtos básicos para a população local, mas aplica um bom funcionamento do sistema de justiça enraizado na tradição afegã. Entretanto, eu não diria que o Taleban retomou rapidamente a iniciativa no Afeganistão porque a comunidade internacional não conseguiu reconstruir um verdadeiro sistema judiciário durante os últimos sete anos.



Tradução: Lana Lim

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