UOL Notícias Internacional
 

20/08/2009

A nova geopolítica do Afeganistão

Le Monde
Frédéric Bobin
O Afeganistão se prepara para entrar em uma nova fase de turbulências pela eleição presidencial de 20 de agosto. Quase oito anos após a queda do regime do Taleban, no fim de 2001, e o início de uma difícil "reconstrução", a incerteza sobre o futuro do país é maior do que nunca. Ainda mais porque o ambiente externo - assim como a frente interna - está se recompondo.

O fato proeminente é a erosão da preponderância que os Estados Unidos exerceram sobre ele após sua intervenção militar precipitada pelos atentados do 11 de setembro de 2001. Essa hegemonia é coisa do passado. Ao longo dos anos, ela ofendeu um nacionalismo afegão sensível - herdeiro de um "reino da insolência" que nunca foi propriamente colonizado - a ponto de as elites de Cabul, que supostamente seriam marionetes do exterior, acabarem endurecendo.

Raio-X do Afeganistão

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    Área: 652.230 km² (sem saída para o mar)

    População: 33 milhões

    Urbanização: 24% da população é urbana

    Taxa de fertilidade: 6,5 crianças nascidas por mulher (4º maior do mundo)

    Mortalidade infantil: 151 mortes por 1000 nascimentos (3º maior do mundo)

    Expectativa de vida ao nascer: 44,5 anos

    Grupos étnicos: pashtun (42%), tajik (27%), hazara (9%), usbeque (9%) e outros

    Religião: sunitas (80%), xiitas (19%), outros

    Alfabetização: homens, 43%; mulheres, 12%

    Taxa de desemprego: 40%

    Fonte: CIA World Factbook 2009



A evolução do presidente Hamid Karzai é sintomática, nesse sentido. O "homem dos americanos" iniciou a partir de 2008 uma virada nacionalista, buscando opor contrapesos à influência de Washington e, também à de Londres, cujas interferências mais sutis - pelo passado colonial - também acabaram causando irritações. Três potências regionais aproveitaram esse espaço aberto: a Rússia, o Irã e a China. A geopolítica afegã se "multipolarizou".

Que ironia da História esse retorno de Moscou! Entretanto, não é de se espantar. Pois ao contrário dos Estados Unidos, potência distante, a Rússia é um Estado da Ásia Central de ambições regionais consideradas legítimas. O "grande jogo" de outrora, que durante o século 19 opôs a Rússia e a Inglaterra, não foi em vão. Essa investida russa em direção ao Sul, portanto para o Afeganistão, foi constante, insidiosa, até culminar em uma brutal invasão militar (1979-1989) que terminou em desastre.

Aprenderam a lição. O perfil discreto é considerado mais eficaz. Hoje, Karzai quer comprar material militar russo. E os próprios americanos - outra ironia da História! - imploram junto a Putin e Medvedev pela autorização para transitar as provisões da Otan pela fronteira norte do Afeganistão, quintal da Rússia.

As mesmas leis da geografia esclarecem a recuperação de influência do Irã, o vizinho ao oeste. Até aí, nenhuma grande novidade. Antes da rivalidade anglo-russa, o Afeganistão havia sido o palco de um outro "grande jogo", que no século 17 opôs a Pérsia ao império mogol indiano. Após um eclipse muito longo, Teerã retoma hoje suas marcas sobre o teatro afegão, explorando - como em seu recente avanço no Iraque - a carta da comunidade xiita (minoritária). O objetivo evidente é minar uma presença militar americana considerada ameaçadora. Não é mais hora de o Irã se rebelar contra o Taleban, esses sunitas ultraortodoxos que perseguem os xiitas. Seu jogo se tornou mais refinado. Entre o perigo sunita do Taleban e o perigo americano, a prioridade é conter este último.

Quanto à China, sua ambição de penetrar no acordo afegão faz parte da sua política geral em relação à Ásia Central. Duas necessidades a motivam: controlar os centros islâmicos que possam desestabilizar sua região ocidental de Xinjiang, habitada por uigures muçulmanos, e se abastecer de matérias-primas. Sua ofensiva de charme junto a Cabul acaba de render frutos. Ao obter a exploração da mina de Aynak, que conteria a segunda maior reserva mundial de cobre, Pequim realiza um grande avanço no Afeganistão.

Mas esse novo mapa geopolítico está longe de ser rígido. Ele poderá mudar novamente em favor da "saída da crise" que os americanos tentam iniciar e, por trás deles, a Otan e a ONU. Se o diálogo com a insurreição, ou certas facções desta, for essencial (como todos pensam), o Paquistão e a Arábia Saudita poderão recuperar um crédito que eles perderam desde a queda do regime do Taleban.

Apesar de seus protestos oficiais, o Paquistão permanece muito ligado ao Taleban que combate no Afeganistão. Essa conexão é vital para as estratégias de Islamabad, que sempre buscaram instalar em Cabul um regime aliado para afrouxar a pressão da Índia rival. Como a influência de Nova Déli no Afeganistão cresceu desde 2001, os paquistaneses continuam a usar o Taleban como "ativo estratégico", cuja missão é expulsar as redes indianas. Essa proximidade torna inevitável o recurso aos serviços secretos de Islamabad quando chegar a hora das negociações.

Entretanto, o caso é delicado para todo o governo de Cabul. Pois o nacionalismo afegão é muito hostil ao Paquistão, acusado de interferência permanente. Portanto é preciso um escudo, um terceiro ator. É aí que intervém a Arábia Saudita, que possui todos os trunfos - próxima dos paquistaneses, apoio histórico do ex-regime do Taleban e ponto importante do islamismo - para se impor como mediadora. Já foram feitos contatos em 2008 em Meca. Eles devem ser renovados. A geopolítica afegã torna-se mais complexa do que nunca.

Tradução: Lana Lim

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