UOL Notícias Internacional
 

21/08/2009

ONGs viram alvo da repressão na Tchetchênia

Le Monde
Marie Jégo
Em Moscou (Rússia)
Oficialmente pacificada pelo vassalo do Kremlin, Ramzan Kadyrov, a tchetchênia está mergulhada em terror e morte. O perigo não vem mais das bombas, como foi o caso durante as duas guerras russo-tchetchenas (1994-1996 e 1999-2004), mas do aniquilamento sistemático de uma sociedade extenuada onde homens sequestram e matam totalmente impunes uma vez que a "omertà" [pacto de silêncio entre criminosos] se tornou a regra.

Ativistas assassinadas

  • AP

    Quarta-feira (15). A representante da ONG russa Memorial na Tchetchênia, Natalia Estemirova (foto), foi sequestrada no ponto de ônibus perto de sua casa em Grozny. Seu corpo crivado de balas foi encontrado nove horas mais tarde em um campo na Inguchétia, região vizinha da Tchetchênia. Seus raptores não tiveram nenhuma dificuldade em passar pelos vários postos de controle no trajeto

  • EFE

    Terça-feira (11). Zarema Sadulaieva (foto) e seu marido, Alik Djabrailov, que dirigiam uma associação para a reinserção de crianças inválidas, foram encontrados assassinados no porta-malas de seu carro em Grozny. Na véspera, eles haviam sido levados à delegacia de Leninski por dois civis e três homens de uniforme. Quinze minutos depois de sua prisão, os homens uniformizados voltaram para o escritório da associação para levar os celulares e o veículo do casal

Desde o anúncio por Moscou sobre o fim da "operação antiterrorista" em abril de 2009, Ramzan Kadyrov recebeu carta branca do Kremlin para administrar seu território contando com capangas e centros de tortura que ele controla pessoalmente.

Os raptos aumentam. Sequestradores de uniforme capturam suas vítimas em plena luz do dia. As pessoas raptadas raramente são vistas vivas novamente e os culpados nunca se preocupam. Em 15 de julho, Natalia Estemirova, a representante da Memorial, associação russa de defesa dos direitos humanos, foi morta a tiros após ter sido sequestrada perto de sua casa em Grozny, às 7h30 da manhã, sob o olhar de seus vizinhos.

Estes evitaram contatar seus colegas ou sua filha. Eles esperaram para que os colaboradores da Memorial viessem procurá-los para contar o que haviam visto, e dar o número da placa do carro dos agressores.

Logo após o assassinato, a Memorial decidiu suspender suas atividades na Tchetchênia. Desde então, as coisas só têm piorado. Na segunda-feira (17), a associação teve de retirar um de seus colaboradores, Akhmed Guissaev, que trabalhava junto com Natalia Estemirova. Perseguido, ele estava sendo ameaçado de morte.

Testemunha na investigação sobre o assassinato de Natalia, Akhmed Guissaev também era testemunha-chave de outro caso, o do desaparecimento de um jovem tchetcheno, Apti Zainalov. Sequestrado por homens de uniforme em julho, Apti Zainalov havia desaparecido, até o dia em que Akhmed Guissaev o encontrou em um hospital local com vestígios de tortura pelo corpo.

Enquanto Natalia Estemirova fazia de tudo para que fosse aberta uma investigação, Akhmed Guissaev assistiu ao sequestro do jovem, levado inconsciente pela polícia para fora do hospital. Então a família de Apti procurou a Corte Europeia de Estrasburgo.

Os problemas de Akhmed começaram no dia seguinte à morte de Natalia. Sob vigilância, ele foi inspecionado e revistado.

Ele não é o único. Em uma carta enviada à promotoria russa, em 17 de agosto, a ONG Human Rights Watch (HRW) explica que três colaboradores da Memorial estão sendo perseguidos. "Reforçar a segurança dessas pessoas com homens armados não faz sentido. Esses guardas sairiam necessariamente do Ministério do Interior (MVD) tchetcheno. Há razões para pensar que o MVD está envolvido no assassinato de Natalia. O MVD também está presente no sequestro de Apti Zainalov", explica Tania Lokchina da HRW, em Moscou.

Para Katia Sokirianskaia, especialista em Cáucaso da Memorial, "trata-se de uma grande faxina dos militantes dos direitos humanos, uma espécie de esmagamento final". Ela reclama da indiferença do poder federal: "Ninguém pode nos proteger. Quando Guissaev constatou que estava sendo seguido, ele apontou para o juiz de instrução, que não mexeu um dedo". Ela lamenta que na mídia tchetchena "os comentários são muito negativos em relação à Memorial". O poder os encoraja. Adam Delimkhanov, braço-direito de Ramzan Kadyrov, declarou recentemente que os militantes da sociedade civil eram comparáveis a "combatentes" e deveriam ser eliminados.

Procurado pela Interpol por ter comandado o assassinato de um antigo aliado de Kadyrov, em Dubai, Delimkhanov é apresentado pela imprensa russa como aquele que teria matado, em novembro de 2006 em Moscou, um outro chefe de guerra tchetcheno que caiu em desgraça junto do número um tchetcheno.

Em um ambiente desses, o medo domina. Duas testemunhas do sequestro de Natalia Estemirova acabam de recuar. E os parentes e amigos da jovem, que pretendiam lhe prestar uma homenagem pública no 40º dia de seu desaparecimento, abandonaram o plano. "Seria suicídio", eles dizem.

A Memorial quer acreditar que o presidente russo, Dmitri Medvedev, pedirá explicações ao "khan" [soberano] tchetcheno. Em vão. Na quarta-feira (19), Vladimir Ustinov, o representante do presidente russo para as regiões do Sul, em visita a Grozny, se desfez em elogios públicos: "Eu não diria que o presidente tchetcheno é o mais democrático entre os das regiões da Federação, mas ele está no caminho da democracia. Por natureza, esse homem tem uma grande moralidade, uma alta espiritualidade (...)", ele disse.

Tradução: Lana Lim

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