UOL Notícias Internacional
 

21/08/2009

Recuperação já começou, mas os perigos persistem

Le Monde
Alain Faujas
"Já começou a recuperação", segundo faz pensar o início de um artigo de Olivier Blanchard, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, que será publicado na edição de setembro da revista do organismo, "Finance & Development".

Mas o restante do artigo, intitulado "Apoiar o crescimento mundial", contradiz o otimismo que essa primeira frase poderia provocar no leitor.

Com efeito, Blanchard salienta que "o mundo não vive uma recessão comum". A economia mundial não vai recuperar tão cedo seus índices de crescimento anteriores, pois a oferta e a demanda continuarão afetadas pelos traumas destes dois últimos anos.

Vejamos o caso da demanda. "As previsões anunciam agora que, inclusive nas economias avançadas, o crescimento será positivo nos próximos trimestres", afirma o autor. "Mas há alguns fatores que se opõem a isso: o crescimento não terá a força necessária para reduzir o desemprego, que alcançará seu ponto máximo durante o próximo ano."

"Essas previsões de crescimento se baseiam na combinação de uma reativação orçamentária e de um reabastecimento das empresas, mais que em um forte consumo privado e em gastos de investimento fixo", acrescenta. "Cedo ou tarde será preciso suspender o estímulo orçamentário e se acabará o reabastecimento."

Portanto, Blanchard acredita que é hora de reequilibrar os comportamentos macroeconômicos dos atores mundiais. Por um lado, o gasto público deve ceder lugar à demanda privada, pois seu aumento faria o índice de endividamento dos países do Grupo dos 20 passar para mais de 100% de seu Produto Interno Bruto. Por outro lado, é preciso fomentar o ressurgimento atual do índice de poupança nos EUA (atualmente 5%, à diferença de 0% em 2007) - implica uma redução do consumo das famílias americanas (3 pontos a menos na relação consumo-PIB) -, a fim de aumentar suas exportações.

Simetricamente, a China deve aumentar seu consumo interno, oferecendo a sua população uma proteção social que lhe dê garantias e a faça abandonar seu excepcional índice de poupança por precaução. Esse duplo fenômeno reduziria os colossais excedentes chineses e o não menos formidável déficit americano.

Dito de outro modo, os EUA devem poupar e exportar muito mais que hoje. O resto do mundo, especialmente a Ásia e, é claro, Japão, Europa, com Alemanha na cabeça, devem frear suas exportações. Isso representa uma reavaliação das moedas asiáticas em relação ao dólar.

O autor não tem muitas ilusões. "Essas reformas estruturais são politicamente difíceis", reconhece. "Seus efeitos não se farão sentir rapidamente. Com toda probabilidade, o processo será longo; em todo caso, longo demais para consolidar a recuperação antes de vários anos."

O que aconteceria se essas medidas terapêuticas não fossem aplicadas? "Podemos imaginar vários cenários", responde Blanchard. "A reativação orçamentária poderia se deter e a recuperação dos EUA seria muito frágil. Ou o déficit poderia ser excessivamente prolongado e desembocar em uma dívida insustentável, provocando dúvidas sobre as obrigações do Tesouro dos EUA e o dólar e causando uma importante fuga de capitais dos EUA."

Sua conclusão tem tons de advertência. "Poderia ocorrer uma depreciação do dólar, mas de maneira descontrolada, que levaria a uma nova fase de instabilidade e de grande incerteza, o que por sua vez faria a recuperação abortar." Para informação dos que tentam adivinhar o futuro.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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