UOL Notícias Internacional
 

23/08/2009

A internet e seu potencial democrático

Le Monde
Por Franck Louvrier*
Depois das eleições americanas, que demonstraram ao mundo o poder de mobilização das redes sociais (Facebook e MyBarackobama.com), foi a crise iraniana que sensibilizou o planeta em relação ao poder de informação dos sites de "microblogging", dos quais o Twitter.com é o primeiro a alcançar uma audiência internacional. Desde as ruas de Teerã, os testemunhos em tempo real inundaram o Twitter para saciar a sede de expressão dos jovens iranianos e satisfizeram o apetite de informação dos meios de comunicação tradicionais, impedidos de fazer seu trabalho no local.

Tanto nas eleições americanas como nas iranianas, ficou evidente a relação entre a internet e a democracia: a revolta dos cidadãos iranianos em 2009 correspondeu à febre mobilizadora dos americanos em 2008, para mostrar que o poder de construção e o poder de oposição são duas faces de uma mesma moeda.

Do ponto de vista da população, a mobilização cidadã nos sites de informação e de compartilhamento é uma medida de nossa vitalidade
democrática: é o eixo da democracia real sobre o qual o povo iraniano deu ao mundo uma lição de coragem e de maturidade. Do ponto de vista do Estado, inversamente, a pretensão de controlar a difusão de conteúdos na internet se torna uma medida da liberdade democrática: é o eixo da democracia institucional que alguns países são tentados a subjugar censurando sites para o grande público ou restringindo o acesso de seus cidadãos à internet.

O Twitter tem um poder multiplicador incrível. Uma mensagem pode ser lida e duplicada milhões de vezes para atender a uma audiência mundial em poucos minutos. É a virulência, o efeito de "buzz", como dizem os especialistas, que são conseqüência natural das inovações tecnológicas da Web 2.0. O que ameaça o poder de difusão é a filtragem das mensagens ou o bloqueio do acesso a um site legal pelo poder estabelecido. Essa ameaça não é nova: é simplesmente a versão moderna e tecnológica da censura.

Entretanto, essa ameaça parece perder terreno. Por um lado, a pressão da opinião pública internacional condena cada vez mais abertamente esses atentados à liberdade de expressão sobre as plataformas sem fronteiras (Google, YouTube). Um exemplo disso foi a atitude sem precedentes da secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton, que exigiu que o Twitter.com fizesse uma operação de manutenção em sua rede para permitir aos iranianos continuarem a se exprimir através do site. Por outro lado, a dinâmica da própria tecnologia hoje acaba permitindo contornar as filtragens e os bloqueios, o que faz com que a própria idéia de censura se torne praticamente obsoleta.

Muito mais decisivos a nosso ver são os riscos e ameaças que pesam sobre a outra grande qualidade do Twitter, que o torna tão indispensável hoje em dia: o caráter pessoal dos testemunhos na rede.

O Twitter não é nada além de uma plataforma neutra, que se inclina diante das individualidades que o enriquecem com suas mensagens e pontos de vista. Seu sucesso deriva do caráter autêntico de seus conteúdos, do fato que posso identificar a pessoa a quem estou lendo como um alterego.

No testemunho de um cidadão iraniano que me escreveu das ruas de Iapahan, reconheço o ponto de vista de um outro como eu, que não é o dirigente ou o jornalista, mais sim o cidadão que poderia ser eu mesmo em outras circunstâncias. É nessa ligação com o outro que se cria a ligação democrática, que é uma ligação de empatia e partilha. É nela - muito mais do que no efeito mecânico de "buzz" - que o Twitter faz mais sentido.

O que ameaça esse valor é algo muito mais dissimulado que a simples
censura: é a manipulação. Os falsos testemunhos (em texto, foto ou
vídeo) que vêm de uma fonte disfarçada, de uma fonte oficial e política que não revela seu nome para manipular melhor a emoção de seus efeitos. O que ameaça o Twitter não é tanto a censura, mas a imitação, a cópia, em suma, o falso.

Assim, face à emergência dessas novas ferramentas de comunicação, o desafio central para nossas democracias é de saber proteger a autenticidade dessa ligação numérica entre os cidadãos do mundo. O desafio é a verificação das fontes, portanto a responsabilidade cai sobre a vigilância realizada pelos profissionais da informação. Essa grande ameaça concerne a todos. E se por um lado foi graças aos acontecimentos nos Estados Unidos e no Irã que nos sensibilizamos para o potencial democrático dessas novas mídias, por outro, é a França que está na vanguarda. Mais do que todos os outros debates sobre o planeta, é o caso Hadopi [órgão francês que regulamenta a difusão de obras e proteção dos direitos autorais na internet] que levanta hoje as questões que nossas sociedades deverão responder amanhã sobre o terreno da democracia.

O paralelismo de dois debates revelou similaridades curiosas. Em relação ao poder multiplicador da internet, ele existe tanto na virulência dos conteúdos do Twitter quanto na circulação das obras
musicais: os mecanismos de censura são incompletos. Nenhuma solução tecnológica pode verdadeiramente por fim à cópia, e o conselho constitucional reconheceu definitivamente o acesso à internet como um direito fundamental dos franceses.

A questão da proteção das obras se desenrola portanto em outro campo, na necessidade de proteger o caráter pessoal das mensagens: a obra de arte tem algo em comum com os testemunhos do Twitter uma vez que ela exprime o ponto de vista de uma individualidade original sobre o mundo. Seu sentido e seu valor repousam sobre o caráter singular e inalienável de um testemunho pessoal colocado à disposição de todos.

Isso vale tanto para o estudante revoltado das ruas de Teerã como para o artista que registra sua música em Paris: o desafio é assegurar que a vasta difusão de sua mensagem jamais sufoque a ligação que tem com cada um de seus destinatários. Que o reconhecimento da fonte seja parte integrante da construção do sentido.

Nossa sociedade deve reconhecer a obrigação que todos temos em relação àqueles que têm a generosidade de partilhar conosco seu testemunho mais precioso - qualquer que seja seu suporte. Agir como se isso não existisse acabaria rompendo o sentido de partilha, que está no cerne da experiência artística e da vida democrática. Reconhecer o caráter inalienável de um testemunho pessoal, este é o sentido profundo da reflexão em curso no Hadopi, que se irradia desde a indústria fonográfica até o sentido de nossa vida em comum numa democracia.

* Franck Louvrier é conselheiro da Presidência da República francesa para a comunicação e a imprensa.

Tradução: Eloise De Vylder

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