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24/08/2009

Aumentam os investimentos para que a África tenha acesso à Internet de alta velocidade

Le Monde
Philippe Bernard
Conectar-se à Internet na África é como telefonar na França dos anos 1960. Conexões aleatórias, velocidade de transmissão terrível, panes inesperadas, às vezes com cortes de eletricidade que tornam inúteis as horas de paciência. "Uma carroça puxada por mula sobre uma autoestrada", resume um internauta do Moçambique no site da BBC. No Quênia, uma propaganda de Internet rápida mostra um executivo furioso batendo a cabeça em seu computador.

Então é uma boa notícia para o continente: o primeiro cabo de fibra ótica que liga a costa leste à Europa e à Ásia acaba de ser inaugurado nas cidades portuárias de Mombasa (Quênia) e Dar es Salaam (Tanzânia). Ao longo de 17 mil quilômetros que atravessam o oceano Índico, essa nova artéria do planeta comunicante conecta África do Sul, Moçambique e Tanzânia a Marselha, Londres e Mumbai. Metade do investimento de 420 milhões de euros foi cedida por operadoras e investidores sul-africanos, e a outra metade por quenianos e americanos.

Abusando de frases grandiloquentes, os empreendedores desse cabo chamado "Seacom" anunciam uma redução de 90% do custo de acesso à Internet rápida para as operadoras e uma velocidade dez vezes maior. De fato, as novas capacidades oferecidas deverão melhorar o desempenho e os preços de uma Internet africana que muitas vezes depende de ligações por satélite, mais caras e menos eficientes.

Mas "o despertar de uma nova era para as comunicações", segundo seus discursos, não é um acontecimento singular.

Só no ano que vem, quatro outros cabos - dois na África Ocidental (GLO-1 e MaIN OnE), dois no leste do continente (TEAMs e EASSy) - serão ativados, e dois outros até 2012. O aceleramento é considerável: antes da Seacom, a África Oriental não tinha a fibra ótica, e a África Ocidental tinha um único cabo, SAT3, em serviço desde 2002. Diversas dessas instalações, cuja cabeça-de-ponte é a África do Sul, estarão prontas para a Copa do Mundo de futebol em 2010.

"A mudança foi radical: a Internet é agora considerada como um elemento estratégico pelos governantes africanos", constata Georges Krebs, diretor-geral adjunto das redes submarinas na Alcatel-Lucent, um dos principais fornecedores de cabos. "Um corte na Internet é sentido tão duramente quanto uma pane elétrica. Cortes acidentais no Sudão ou no Egito foram tratados como questões de Estado".

Educação, medicina, centrais de atendimento, turismo, informação: não faltam aplicações da Internet em um continente que, superando todas as expectativas, adotou de forma maciça e rápida o celular como um substituto à mediocridade das estradas e da rede telefônica fixa, adaptando seus usos à pobreza que prevalece. Além disso, os economistas consideram a Internet como um acelerador de crescimento. Um recente estudo do Banco Mundial avalia que um aumento de 10% dos pontos de acesso à Internet rápida gera 1,3 ponto de crescimento.

É verdade que na África, onde em média menos de 5% da população utiliza a Internet (0,5% no Congo-Kinshasa, mas 8% no Senegal), a margem de crescimento é enorme. Em termos de velocidade, visto que o imenso continente só dispõe, por enquanto, de um terço da capacidade de um Estado como a Índia, segundo a União Internacional das Telecomunicações. Mas também em termos de preço, uma vez que lá o custo de acesso é de 5 a 10 vezes mais alto que em países desenvolvidos. Em um ciber-café de Brazzaville, a hora de conexão (lenta) custa metade do equivalente à diária de um salário mínimo ideal.

"O grau de crescimento da demanda com poder aquisitivo - o índice é de dois dígitos em um ano - é tão alto que não há risco de capacidade excessiva dos novos equipamentos", garante Vivek Badrinath, diretor-executivo da France Telecom. Ele responde dessa forma aos observadores que destacam a propensão das "operadoras históricas", também coproprietárias do cabo existente, a trancar seu acesso para impedir seus concorrentes de poderem acessá-lo, causando a escassez. Em certos países, o uso do telefone pela Internet é proibido às empresas para proteger o mercado da telefonia fixa.

Localmente, os antigos monopólios sobre o telefone muitas vezes ficam nas mãos dos clãs no poder. A France Telecom Orange, bastante presente nas operadoras africanas, exibe "a democratização da Internet" como "uma prioridade estratégica". A Internet sem computador, ou seja, a difusão de terminais do tipo iPhone simplificados e fabricados na China ou na Europa, poderia ser seu vetor na África. Por falta de cabeamento terrestre suficiente, as redes de telefonia móvel parecem estar em melhor posição para popularizar o acesso à Internet.

Resta saber se as novas capacidades oferecidas encontrarão uma demanda com poder aquisitivo, e se a concorrência favorecerá tarifas mais acessíveis. Sem se comprometer com a redução dos preços, Badrinath acredita que a insuficiência do acesso ao cabo impediu até o momento moderar as tarifas.

De fato, a concorrência deverá se intensificar na África Ocidental, onde os principais empreendedores dos dois projetos de cabeamento concorrentes são a francesa Orange e operadoras sul-africanas, presentes nos países servidos.

Eric Bernard, autor de uma tese sobre a Internet na África Ocidental, duvida de uma verdadeira democratização. "Por que monopólios de fato, cujos clientes são fieis, abaixariam seus preços?", ele questiona. "Será difícil para eles encontrar um número suficiente de clientes com poder aquisitivo e munidos de computadores para compensar a diferença de lucro".

O futuro dirá se essa competição beneficiará também os países da África Central. Cercados, eles dependem ou do satélite - que tem a vantagem de servir uma zona inteira sem infraestrutura terrestre -, ou da boa vontade de seus vizinhos que têm uma orla marítima.

Pois os cabos não são simples canos de som e imagem. Sua cartografia reflete a realidade das relações econômicas. Dessa forma, a Nigéria e a África do Sul, potências dominantes do continente, são as principais empreendedoras africanas dos cabos. Os novos cabos costeiros permitirão ligar os países africanos que interessam ao mundo rico (destino de 90% do tráfego), mas também entre eles diretamente. Uma pequena revolução em relação à situação atual, onde 75% do tráfego interafricano transita (via satélites) por plataformas nos países do Norte, que recebem deles os benefícios.

Entretanto, a conquista pelos africanos de seu ciberespaço continuará limitada: pelo jogo das filiais das operadoras e das participações financeiras nos consórcios que administram as ligações em fibra ótica, europeus e americanos continuarão a manter a melhor parte.

Tradução: Lana Lim

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