UOL Notícias Internacional
 

25/08/2009

No Afeganistão, suspeitas de fraude criam clima político tenso

Le Monde
Frédéric Bobin
Enviado especial a Cabul (Afeganistão)
Um cenário à iraniana? O temor de uma derrapagem pós-eleitoral, muitas vezes citado durante a campanha, pesa fortemente sobre o clima político no Afeganistão depois da eleição presidencial de 20 de agosto, marcada, segundo a oposição e a maioria dos observadores internacionais, por diversas fraudes.

  • Emilio Morenatti/AP

    Hamid Karzai, 51, etnicamente Pashtun, tem formação em Ciência Política na Índia. Ele chegou a apoiar o Taleban, mas rompeu com eles a partir dos sinais de que o grupo estava caindo sob a influência de extremistas estrangeiros, como Al Qaeda. Em 2001, foi apontado como presidente interino do Afeganistão, após o ataque liderado pelos EUA, e em seguida ganhou as eleições presidenciais de 2004. Corrupção no governo, desenvolvimento vagaroso e morte de civis em ataques estrangeiros provocaram uma queda em sua popularidade. Karzai diz que negociação de paz com Taleban é prioridade se for reeleito

  • AFP

    Abdullah Abdullah, 48, é médico. Em 1986, se juntou à resistência contra os soviéticos. Foi figura de destaque na Aliança Norte, que ajudou os EUA a derrubar o Taleban. Foi nomeado chanceler no governo interino de Karzai, posto que ocupou até 2006. Seu pai era Pahtun e sua mãe era Tajik, e Abdullah é visto como favorito entre os Tajiks. Com promessas de combater a corrupção, pode obrigar Karzai a disputar um segundo turno

Abdulah Abdulah, o principal rival do atual presidente, Hamid Karzai, fala até em "fraudes maciças". "Pedimos a nossos partidários calma e senso de responsabilidade", ele declarou ao "Monde" no dia da eleição, enquanto o período pré-eleitoral já havia sido marcado por diversas irregularidades, sobretudo durante a elaboração das listas de eleitores.

Mas diante da amplidão das fraudes citadas por fontes concordantes depois da eleição, a questão da atitude do lado de Abdulah se a comissão eleitoral tivesse de proclamar a vitória de Karzai desde o primeiro turno continua a mesma.

"Estou muito preocupado, Karzai vai fazer de tudo para se manter no poder", comenta Fahim Dasthy, redator-chefe do semanário "Kabul Weekly", próximo da oposição. "Mesmo que Abdulah faça pedidos de calma, as pessoas sairão à rua no caso de uma reeleição de Karzai. Ninguém poderá controlá-las."

EUA tentam neutralizar a crise
O enviado especial americano para o Afeganistão e o Paquistão ("Afpak"), Richard Holbrooke, está atualmente em Cabul para tentar neutralizar a crise política que se configura. Um descarrilamento do processo eleitoral teria um efeito desastroso para a nova estratégia que o governo do presidente Barack Obama se esforça por conduzir no Afeganistão, em um momento em que a situação militar se degrada diante de uma insurreição cada vez mais agressiva.

As acusações dos partidários de Abdulah foram confirmadas por grupos de observadores independentes enviados ao país. Se a missão de observadores europeus conduzida pelo general francês aposentado Philippe Morillon continua muito prudente nesta fase, preferindo denunciar "o terror" exercido pelos taleban, a rede de observadores afegãos da Free and Fair Election Foundation of Afghanistan (Fefa) tem menos escrúpulos diplomáticos, divulgando em detalhe as irregularidades atribuídas ao governo Karzai.

A comissão de queixas eleitorais confirmou ter recebido no domingo, 23 de agosto, 225 reclamações, algumas das quais poderiam afetar o resultado final. A principal queixa se refere ao "enchimento das urnas" nos escritórios de votação das regiões leste e sul do Afeganistão, zonas pashtun mais desestabilizadas pela rebelião dos taleban, mas onde Karzai - ele mesmo um pashtun - teria historicamente sua base de apoio.

Segundo observações colhidas por diplomatas europeus, a participação real foi muito fraca em 20 de agosto nesse "cinturão pashtun". Ela é, por exemplo, da ordem de 10% nas províncias de Nimroz e Kandahar e de 10 a 20% na de Helmand.

Se a ameaça dos taleban certamente exerceu um papel, a decepção popular em relação ao desempenho medíocre do governo Karzai também pesou nessa abstenção maciça. Os primeiros números oficiais de participação que começam a vazar estão em total defasagem com as constatações físicas reunidas pelos observadores independentes. Em uma seção eleitoral da província de Laghman, no leste, o índice de participação anunciado de 74% parece no mínimo uma fantasia, dada a medida de enchimento das urnas. Em outro distrito eleitoral da mesma província, o número de votos é superior ao de inscritos.

Desde o início pairou uma grande dúvida sobre a operação de inscrição dos afegãos nas listas eleitorais, sob a supervisão de uma comissão eleitoral supostamente "independente", mas na verdade dirigida por um partidário de Karzai. Segundo as estatísticas oficiais, o Afeganistão tem cerca de 12 milhões de pessoas com mais de 18 anos. Depois da campanha de inscrições, foram contados 17 milhões de eleitores afegãos. "Essa diferença de 5 milhões de pessoas são as inscrições múltiplas", analisa um diplomata europeu.

O mesmo eleitor estaria de posse de vários títulos. Oficialmente, havia sido encontrado um artifício para evitar esse "voto múltiplo": uma tinta supostamente indelével. Cada eleitor teve de mergulhar o dedo indicador em um tinteiro no momento do voto, o que impediria que repetisse a operação. Mas a experiência provou que detergentes encontrados no mercado bastavam para apagar a marca preta, assim abrindo caminho para manipulações.



Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h58

    -0,53
    3,128
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    -0,28
    75.389,75
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host