UOL Notícias Internacional
 

25/08/2009

O triunfo de Usain Bolt, boa e má notícia

Le Monde
Mustapha Kessous
Bem-vindo ao universo maravilhoso de "Bolt-Disney". Usain Bolt, ou a incrível história de um menino que não queria correr os 100 metros e que, em um único ano, quebrou brincando duas vezes o recorde mundial, levando-o a 9"58. E esse gigante verde e amarelo também aproveitou para quebrar a marca dos 200 metros, passando-a para 19"19. Nos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, o jamaicano se tornou um corredor "sobre-humano"; no Mundial de Atletismo em Berlim, que acaba de terminar, foi elevado à condição de "deus" do sprint, ofuscando todos seus adversários... Assim, o jovem de 23 anos tem os pés de Aquiles sem a maldição do calcanhar, as coxas de Júpiter, é o novo... Zeus das pistas. Mas é provavelmente de Hermes que o jamaicano mais se aproxima. Seus feitos trazem tanto boas quanto más notícias para o atletismo.

Ao se tornar o homem mais rápido de todos os tempos, Usain Bolt coloca em questão as teorias de cientistas que haviam estabelecido um limite para os corredores dos 100 metros: em torno de 9"50. "O Relâmpago", seu apelido, se aproxima cada vez mais dele, com uma descontração e uma facilidade desconcertantes. Ele chega a falar em atingir os 9"40... Com seus 1,96 m e 86 kg, e sua margem de progressão, Usain Bolt destrói a eterna imagem do sprinter, de um pequeno corredor musculoso.

Hoje, o jamaicano levanta para esses cientistas uma questão de ordem filosófica: "O homem é finito ou infinito?", como observa Christophe Brissonneau, especialista em sociologia do esporte. Em um século, o ser humano atingiu 99% de suas capacidade física. Somente a tecnologia - assim como na natação - pode ajudar a estender ainda mais os limites das performances esportivas, explica Jean-François Toussaint, diretor do Instituto de Pesquisa Biomédica e de Epidemiologia do Esporte (Irmes). "Mas o homem não está congelado em um cálculo matemático: ele evolui, ele cresce", ressalta Brissonneau.

Essa "exceção" traz hoje um toque de humanidade a esse esporte que por muito tempo foi estragado por atletas frios. O jamaicano passa um bom tempo brincando com os espectadores... Um rapaz simples, com o qual o público adora se identificar, e que hoje encarna sozinho o atletismo. Era só reparar nas centenas de europeus usando as cores amarelo e verde nas arquibancadas do Olympiastadion de Berlim. "Se não temos um superstar, é difícil vender nosso esporte", reconheceu no "Le Monde" de 24 de agosto Lamine Diack, presidente da Federação Internacional de Atletismo (IAAF). Depois de Carl Lewis, a IAAF encontra um ícone e pode esperar voltar a ver os estádios lotados. Estava longe de ser o caso na Alemanha, mesmo na final dos 100 metros.

Bolt levanta uma outra questão, esportiva, desta vez: que rival? Segundo o Irmes, o tempo médio entre a final dos 100 metros em Pequim e em Berlim foi o mesmo: 9"96. Quando Bolt vai mais rápido, os outros recuam. O que eles podem tentar fazer para alcançar os dois únicos lugares que restam no pódio? Modificar as normas de treinamento, mudar de disciplina, ou ter a ajuda.. da farmacopeia.

O exemplo mais convincente diz respeito ao sucessor anunciado de Bolt, o jamaicano Yohan Blake, 19, que corre os 100 metros em 9"93. Em junho, ele recebeu resultado positivo para um estimulante - assim como quatro outros compatriotas - e não foi convocado para o revezamento 4 x 100 em Berlim. Está aí o efeito perverso do dominação de Usain Bolt: ela incita o doping, a procura por novas moléculas mais eficientes.

Mas os dirigentes do atletismo nem cogitam questionar os feitos de Usain Bolt, ainda que as suspeitas de doping pairem sobre sua ilha. "Não faz o gênero de Bolt", garante Bernard Amsalem, presidente da Federação Francesa de Atletismo. "Eu o vejo correr desde que ele tinha 14 anos, e ele já era fora do comum". Mesma explicação para Lamine Diack. O público quer acreditar que ele representa o atleta definitivo e limpo.

E se amanhã alguém conseguir resvalar em Usain Bolt, ou até mesmo vencê-lo? As dúvidas serão difíceis de dissipar. Na final dos 100 metros, o segundo colocado, Tyson Gay, terminou em 9"71, recorde dos Estados Unidos, ou seja, 13 centésimos atrás. Nos 200 metros, a diferença foi abissal, de 62 centésimos. No fim, Usain Bolt vai se tornar o "índice Bolt": quanto mais se aproximarem dele, mais o doping aparecerá.

"Se ele continuar a vencer com tanta diferença seus rivais por mais alguns anos, o que é possível, as pessoas poderão perder o interesse pelo esporte", observa o americano Michael Johnson, cujo recorde mundial de 200 metros, que parecia imbatível, foi pulverizado por Bolt em Berlim. A curto prazo, talvez não. O público vai continuar a segui-lo, a encorajá-lo a bater recordes mundiais, que somente ele é capaz de estabelecer. Mas Usain Bolt pode se entediar. Um dia ele deve ir atrás dos 400 metros.

A longo prazo, o atletismo pode perder a graça. Se as marcas de Bolt permanecerem ou se ele não as bater, quem vai querer continuar a seguir uma disciplina em que as performances terão desaparecido?

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -1,03
    3,146
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,09
    68.714,66
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host