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26/08/2009

Angela Merkel, a única vencedora de uma não-campanha eleitoral

Le Monde
Marie de Vergès Em Berlim (Alemanha)
Eleições alemãs, uma monotonia. Os cidadãos da República Federal serão convocados às urnas em 27 de setembro para renovar seu Parlamento. Apesar de as eleições estarem se aproximando, esse grande encontro da vida política alemã suscita bem pouca comoção: sem grandes debates de ideias, nem mesmo algumas brigas entre os principais candidatos, poucas vezes se viu uma batalha eleitoral tão apagada como essa. "Estamos em período de campanha e ninguém quer participar", suspirava, recentemente, a influente revista "Der Spiegel".
  • Christof Stache/AP

    Merkel domina soberana o cenário eleitoral alemão



Essa estranha competição sem duelos se deve muito à composição do cenário político atual. Há quatro anos a Alemanha é governada em conjunto pelos dois irmãos inimigos: as Uniões Cristãs CDU/CSU de Angela Merkel e o Partido Social-Democrata (SPD) dividem de forma justa o poder na grande coalizão. Uma coabitação forçada desde as eleições legislativas de 2005, que não conseguiram se decidir por nenhum dos dois grandes "Volkspartei" (partidos populares). Então como criticar hoje seu parceiro de ontem? Nesse jogo, é grande o risco de perder crédito aos olhos dos eleitores.

Pedra no sapato do SPD, somente Angela Merkel parece ganhar com o balanço da grande coalizão. Nas últimas semanas, as pesquisas de opinião contam todas mais ou menos a mesma história: a da derrota anunciada do rival da chanceler, o chefe da diplomacia Frank-Walter Steinmeier. Com 21% a 23% das intenções de voto, seu partido está quase 15 pontos atrás dos conservadores. Merkel domina soberana. Nada parece abalar a inoxidável popularidade desta que a revista "Forbes" acaba de consagrar a mulher mais poderosa do mundo pela quarta vez: nas eleições diretas, dois terços dos alemães votariam nela.

A dirigente é uma das grandes responsáveis pela monotonia desta campanha. Com a eleição praticamente ganha, Merkel faz um esforço mínimo, o que lhe convém totalmente. Filha de pastor, sem grande carisma ou talento para a oratória, ela percorre as estradas eleitorais só porque é necessário. Com sua voz uniforme, ela não faz discursos inflamados e nem provoca. Pelo contrário. Relaxada, e até afável, ela se dá o luxo de considerar com benevolência as propostas de seus adversários: a chanceler não criticou nenhuma vez o programa econômico apresentado em julho por Steinmeier, que visava criar 4 milhões de empregos nas novas tecnologias, na saúde e na cultura. "Todos os grandes partidos são a favor do objetivo do pleno emprego", ela comentou em uma entrevista ao "Frankfurter Allgemeine Zeitung" de 21 de agosto. É melhor não criticar seus parceiros em caso de renovação da grande coalizão, se ela não conseguir uma maioria com os liberais do FDP.

Por enquanto, ela mesma abriu mão do conteúdo. Claro, o CDU prometeu diminuições de impostos, sem que soubéssemos exatamente quando elas viriam, e nem com que dinheiro. Mas com exceção desse anúncio, o que domina é a indefinição. Desde que voltou de férias no início de agosto, Merkel evita as grandes declarações políticas. Ela se atém às generalidades, ou até ao registro de trivialidades. "Costumo almoçar um prato de cenouras", ela contou recentemente à revista "Myself". Ela também contou à publicação semanal "Bild am Sonntag" o quanto ela gostava do trinado dos pássaros" e do "ruído das florestas" em sua região de origem, Uckermark. Confissões no mínimo incomuns por parte de uma política que costuma ser reservada a respeito de sua vida particular.

Tudo leva a pensar que Angela Merkel aprendeu bem a lição das eleições de 2005. Sua campanha de tom bastante liberal - sobre os sistemas de impostos, de saúde, e direitos trabalhistas - assustou os eleitores. Afinal, os conservadores não conseguiram obter a maioria absoluta com o FDP. Desde então a chefe da CDU se recusa a adotar uma linha polarizada demais: ela se pretende somente a "chanceler de todos os alemães".

Desconcertados, os social-democratas não sabem mais que estratégia adotar. Falta-lhes um ângulo de ataque. Seu presidente, Franz Müntefering, até tentou passar à ofensiva: ele acusou Merkel de, no fundo, "estar se lixando" para o desemprego, e de estar unicamente preocupada em "continuar sendo chanceler". A principal interessada lhe respondeu com um silêncio obstinado.

O SPD lembra que a situação não era agradável quatro anos atrás. No último momento, o partido se recuperou e quase venceu. Mas essa formidável ascensão foi antes de tudo o resultado da campanha personalizada e combativa do chanceler na época, Gerhard Schröder. Frank-Walter Steinmeier não é bom de briga nem de oratória. Sério e ponderado, ele tem dificuldades para se mobilizar.

Para enganar o tédio, os alemães agora se empolgam com um candidato fictício. Em um filme que acaba de estrear, Horst Schlämmer, interpretado pelo ator Hans-Peter Kerkeling, é um cômico grotesco que pretende conquistar a chancelaria com um programa dos mais bizarros. Segundo uma recente pesquisa de opinião do respeitado instituto Forsa, 18% dos eleitores estariam dispostos a votar nele...

Tradução: Lana Lim

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