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27/08/2009

O sabor dos palácios indianos

Le Monde
Julien Bouissou Enviado especial a Hasta Shilpa (Índia)
Cercado por seus 26 palácios, um velho de olhar azul desbotado, camisa branca e ar aristocrático, passa seus dias sozinho no meio de um reino desabitado. A sala do chefe de guerra do reino de Vijayanagar, derrotado pelo sultanato do Decão no século 17, é preenchida somente por um melancólico raga da noite, uma melodia clássica indiana. Um pouco mais adiante, a sala de audiências de um rei marata, cercada de retratos reais amarelados pelo tempo, oferece um trono vazio, sob um teto incrustado de marfim.

No vilarejo histórico de Hasta Shilpa, em Manipal (Estado de Karnataka, sudoeste da Índia), somente alguns metros separam séculos de história. No entanto, todos os monumentos acabam de ser construídos. Ou melhor, reconstruídos, pedra por pedra, longe de seu local de origem, em um terreno vago cercado por conjuntos de imóveis em construção. Manipal, cidade universitária em plena expansão, atrai estudantes de medicina do país inteiro. Aos 76 anos, Vijaynath Shenoy prefere cuidar das velhas pedras. Aquelas que sobrevivem aos homens e conservam suas memórias. "Uma casa velha é um arquivo vivo", acredita o proprietário dos lugares. Ele sacrificou por elas grande parte de sua vida. Para salvar esses palácios da destruição, ele teve de percorrer milhares de quilômetros. "E pensar que todo mundo me achava maluco", diverte-se Vijaynath Shenoy.

Tudo começou trinta anos atrás. O homem dos 26 palácios era, na época, somente um funcionário de banco. "Assisti por acaso à destruição de uma casa velha enquanto andava de bicicleta, e comecei a chorar como quando minha mãe morreu", ele conta enquanto anda pelas ruas do vilarejo, curvado sobre sua bengala. Após a reforma agrária, votada em 1975, os grandes latifundiários perderam suas terras, e com elas suas fortunas. As famílias abandonaram suas moradias para irem trabalhar nas cidades ou no exterior.

Todos os fins de semana Vijaynath Shenoy percorre os vilarejos, a pé ou de ônibus, para consertar essas casas abandonadas e evitar a qualquer custo sua demolição. "Teve vezes em que cheguei a intervir fisicamente", ele lembra. Depois ele decidiu comprar o que podia ser salvo: portas, vigas, alpendres e janelas. Tudo exceto as propriedades: "Aqui a terra é como uma mãe da qual a gente não se separa nunca. As famílias queriam construir ali pequenas casas modernas". Para convencer os reticentes, ele utiliza o mesmo argumento: "Seu patrimônio pertence a todo mundo, e me empenho em preservá-lo para as gerações futuras".

Então Vijaynath Shenoy resolveu fazer essa aposta maluca: reconstruir de forma idêntica os velhos monumentos sobre um mesmo pedaço de terra. A prefeitura de Manipal lhe deu sete hectares, apesar da oposição de um yogi convencido de que o terreno lhe pertencera em uma vida anterior. A embaixada da Noruega o sustenta financeiramente, assim como alguns banqueiros e ricos industriais indianos. Da França, ele recebe somente duas estrelas em um guia de viagens. "Vale a visita!", ele diz com um riso amargo.

O ex-funcionário de banco confessa não saber nada de arquitetura. "Senão, eu construiria imóveis como aqueles ali", ele diz apontando para os conjuntos de prédios em construção. O autodidata aprendeu a construir desconstruindo. Seis meses para enumerar e desenhar as plantas de sua primeira residência, uma casa da alta casta dos brâmanes.

Dentro, uma clarabóia aberta para o céu perfura a escuridão do lugar. "Os elementos da natureza entravam na casa: o Sol, a chuva, o vento", se empolga Vijaynath Shenoy. Ele arrasta para sua aventura artesãos que haviam perdido todo o conhecimento tradicional para empilhar blocos de cimento. Eles reaprenderam a restaurar a madeira de jaqueira e a cobrir paredes com matérias vegetais. Até os arquitetos se inspiram agora no vilarejo de Hasta Shilpa. "Resgato elementos de arquitetura antiga em minhas construções, e só utilizo sistemas de ventilação tradicional para evitar o ar condicionado", explica Rajesh Pai, um arquiteto de Bangalore.

Sentado em seu restaurante preferido, decorado com pôsteres de Bob Marley e repleto de estudantes de jaleco branco, Vijaynath Shenoy conta histórias de reis caídos, enquanto relata suas aquisições. Cada salvamento se tornou uma lenda, como a de Deccani Nawab Mahal, uma residência cujo amplo hall é cercado, em sua parte superior, por quartos fechados com cortinas, reservados para as mulheres do nababo, um príncipe muçulmano. "Vendaram meus olhos e me levaram de moto durante três horas, sob um sol escaldante. A família se preocupava com sua reputação, e não queria que ninguém soubesse que ela estava se separando de sua casa".

Uma vez concluída a venda, "apareceram mulheres belas como anjos. Elas pareciam estar emergindo pela primeira vez em suas vidas", conta Vijaynath Shenoy, com os olhos ainda arregalados. No palácio de Mudhol, ele conta ter passado semanas para organizar o transporte do teto de 14 metros de comprimento da sala de audiências, em comboio especial, durante a noite. Ao longo de suas aquisições, ele formou uma coleção impressionante de esculturas, pinturas antigas, baralhos pintados a mão, ou ainda pentes de marfim.

Vijaynath Shenoy também caçou velhas esculturas, fazendo pouco das crenças religiosas. Um sacerdote hindu se recusou a lhe vender uma estatueta do deus Ganesha, sob pretexto de que ela deveria terminar sua vida no oceano. Alguns dias mais tarde, eis que ele se encontra à espreita na procissão religiosa, às margens do mar da Arábia, com mergulhadores prontos para se jogar no fundo do oceano, para recuperar a antiguidade. Sem saber, ele acumulou um tesouro. Ele percebeu isso no dia em que um colecionador lhe ofereceu 50 mil euros por uma pintura de Tanjore. Centenas de miniaturas similares estão guardadas em suas casas. "Aceitei, com a condição de que ele a deixasse onde ela estava, e gravaríamos em uma plaquinha de cobre o montante de sua doação", explica Vijaynath Shenoy, que se recusa a ceder qualquer uma de suas aquisições.

Às vezes, visitantes aparecem de surpresa no vilarejo de Hasta Shilpa. Ao verem pendurados os retratos de Gandhi na casa de seus ancestrais, alguns descobrem que seus avós lutaram pela independência. Vijaynath Shenoy inevitavelmente também se tornou o guardião das memórias. "Tenho orgulho por minha casa estar repousando aqui em paz", conta uma jovem estudante vinda de Mumbai. Em alguns anos, o criador do vilarejo de Hasta Shilpa sabe que suas velhas pedras deverão viver sem ele: "Meu filho tem interesse, mas ele trabalha em Bangalore para uma empresa de semi-condutores. Ele não terá tempo para cuidar do vilarejo".

Sua filha de 30 anos descobriu há pouco tempo a obra de seu pai. "Sua paixão consumiu sua vida. Tenho medo de que as velhas pedras voltem a se calar, quando meu pai não estiver mais aqui", ela conta, com a voz tomada por soluços. Alguns metros mais adiante, seu pai está de costas, com o nariz enfiado no "Manushyalaya Chandrika", um tratado de arquitetura do século 17.

Tradução: Lana Lim

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