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28/08/2009

Pyongyang: uma cidade em transformação

Le Monde
Philippe Pons Enviado especial a Pyongyang (Coreia do Norte)
Gigantesca pirâmide de cimento, dominando a parte noroeste da cidade com seus 330 metros de altura, o Hotel Ryugyong cintila paredes de vidro sobre uma de suas três faces. As outras duas estão em obras. Com 105 andares, que podem ser vistos por toda Pyongyang, o Ryugyong, cuja construção foi iniciada em 1987 e interrompida quatro anos depois, tornou-se um estigma constrangedor dos fracassos da ditadura norte-coreana. Portanto, sua saída de um coma de quase 20 anos é símbolo do "lifting" da capital.

Para o centésimo aniversário, em 2012, do nascimento do presidente Kim Il-sung (falecido em 1994), Pyongyang está passando por uma transformação e, por enquanto, o regime parece indiferente às sanções internacionais impostas pelo Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) na sequência de seus tiros de mísseis e de seu segundo teste nuclear. "Nós sempre fomos ostracizados. Um pouco mais, ou um pouco menos, já estamos acostumados", é o discurso oficial.

Os braços dos guindastes cruzam o céu, e prédios crescem como bambu depois da chuva - 1.200 habitações foram erguidas em alguns meses no distrito de Potong-gang e mais 100 mil devem ser construídas até 2012. As fachadas estão sendo pintadas em cores pastel, e as calçadas das avenidas recebem canteiros de gramados e de flores. Construída em glória à revolução que instaurou o regime, Pyongyang, à beira do majestoso rio Taedong, é uma cidade arejada e muito arborizada: ela se pretende, mais do que nunca, a "cidade dos salgueiros".
  • Korea Pool/Reuters - 03.10.2007

    Norte-coreanos formam a imagem do ditador Kim Il-sung, pai de Kim Jong-il, em solenidade



A renovação da capital, vitrine do regime, tornou-se uma prioridade, como mostra uma recente exposição internacional de livros de arquitetura da qual uma pequena delegação francesa participou. "No passado, nos concentramos nos monumentos, agora nosso dirigente pretende enfatizar o bem-estar do povo", explica Choe Chung-hyun, membro do Comitê de relações exteriores. Na província, as imagens de satélite revelam igual número de novas construções.

A cada ano o surgimento de uma nova "riqueza", restrita a uma pequena elite, é perceptível na capital: aumento do número de restaurantes, modelos recentes de carros de marcas estrangeiras e agora de celulares: 60 mil em circulação desde que o grupo egípcio Orascom instalou, em dezembro de 2008, uma nova rede que deve ser estendida às oito maiores cidades do país até o fim do ano. Mas é impossível telefonar para o exterior. Assim como acontece com a internet, as únicas conexões possíveis são nacionais.

A abundância dos produtos (chineses, em sua maioria) nos mercados é outro sinal das mudanças em curso. No caótico mercado de Tongil - o único acessível a estrangeiros de passagem - , os clientes se acotovelam diante das barracas nas quais vendedoras de touca branca anunciam os produtos. Pilhas de frutas, legumes, carne, cosméticos estrangeiros, quinquilharias, aparelhos eletrônicos, roupas, sapatos...

O mercado nunca se esvazia, como os dos outros bairros de Pyongyang (cerca de vinte), segundo os residentes estrangeiros na capital. Os preços são fixados pelas autoridades, mas as pechinchas andam bem. Do lado de fora, sob pontes, nas ruas ou nos pátios dos prédios, comerciantes vendem rapidamente frutas, legumes, cigarros e doces até tarde da noite.

O dinheiro circula: maços de notas estrangeiras são depositados ou sacados todos os dias nos bancos, constatou um residente estrangeiro. Pyongyang passa uma impressão mais relaxada do que se poderia esperar em um país sob embargo internacional: "Uma imagem bem diferente daquela repetida no exterior", constata um especialista europeu que fez diversas viagens longas pela República Popular Democrática da Coreia.

Mas há um reverso da Pyongyang elegante, com suas passantes de sombrinha - que, a exemplo de todas as asiáticas, protegem a brancura de sua pele - ou sua última cerveja, Taedonggang - cara demais para muitos - , exaltada na televisão por suas propriedades "desestressantes".

O que um visitante pode entrever é um povo que sofre, enfrenta escassez e sacrifícios. As multidões de pedestres na cidade, as filas de espera sem fim para pegar os bondes ou os ônibus lotados, a pobreza de bairros periféricos, as ruas em mau estado, ou cidadezinhas de casas baixas entre os prédios mostram as duras condições de vida da maioria. O cansaço se mostra facilmente nos rostos.

Apesar das esperadas melhores colheitas, persiste um índice preocupante de desnutrição entre as categorias sociais vulneráveis (crianças, mulheres grávidas, idosos), avalia a ONU no local: uma em cada quatro crianças sofria de subalimentação em 2004 (última estimativa da Unicef).

O déficit alimentar neste ano será da ordem de 800 mil toneladas de grãos, para uma demanda de 5,4 milhões de toneladas. É difícil de estimar, pois os horticultores nas encostas, ilegais, mas tolerados, não são recenseados.

Poderia ser menos quantitativo do que qualitativo: falta de diversidade e de proteínas. Levando em conta que os preços dos artigos estão, por enquanto, bastante estáveis, especialistas agrícolas estrangeiros dizem que "a situação alimentar está menos dramática do que antes".

O que não é o caso no setor da saúde: a oferta de cuidados hospitalares, no papel bem melhor do que na China, não passa de uma patética casca vazia, onde falta tudo: medicamentos, anestésicos, instrumentos cirúrgicos... A assistência médica internacional foi reduzida e as sanções atrasam as entregas em razão das inspeções mais meticulosas da alfândega chinesa.

Focalizado no objetivo de 2012, "um país forte e próspero", o regime tenta energizar a população com campanhas de mobilização em massa - como a dos "150 dias" que terminará em 10 de outubro (aniversário da fundação do Partido do Trabalho) - destinadas a acelerar o ritmo e encorajar o sacrifício patriótico.

Desde seu segundo teste nuclear em abril, essa monarquia comunista mostra uma maior confiança em si, e a renovação de Pyongyang se pretende o reflexo de um país em progresso. Resta voltar a iniciar a produção. Ao longo dos seis primeiros meses, a extração de carvão teria aumentado, e segundo as estatísticas chinesas, as exportações de antracito (variedade de carvão) dobraram, atingindo 2,3 toneladas entre janeiro e junho.

Segundo Seul, a produção de aço também aumentaria, mas por falta de energia a indústria funciona a um terço de sua capacidade. Somente uma melhora de suas relações com a Coreia do Sul - e com o mundo exterior - poderá permitir que a Coreia do Norte saia desse padrão.

Tradução: Lana Lim

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