UOL Notícias Internacional
 

29/08/2009

O blues de Nova Orleans, quatro anos após o Katrina

Le Monde
Yann Plougastel Enviado especial aos Estados Unidos
O pequeno buda na esquina da Frenchman com a Saint-Charles parece feliz. Ele está lá há vinte anos, instalado no primeiro andar, no meio de uma jardineira florida, logo acima de uma livraria-bricabraque aberta dia e noite. Ele poderia contar histórias à maneira de William Faulkner, que morou a algumas centenas de metros de lá, perto da Jackson Square, para escrever um livro sobre o já decadente esgotamento de Nova Orleans. Ou então tagarelar com propriedade sobre a filosofia de um lugar que seus habitantes hoje chamam de Nola: "Dor no nascimento, celebração na morte". Melancolia em estado puro. Pois aqui, mon (maneira local de pronunciar "man"), preferem falar de blues. Mas desde a passagem do furacão Katrina há quatro anos, em 29 de agosto de 2005, todas essas belas reflexões parecem besteira. Se o pequeno buda fosse menos zen e não taciturno, ele teria simplesmente resmungado: "A vida aqui tem mais ou menos a mesma importância que a água que escorre de um saco de papel furado. Essa cidade está indo para o inferno, mon!"

Um jovem músico furioso
Nesse fim de tarde, as luzes dos neons da rua vieram aos poucos substituir a luz do dia, se estendendo pelo céu que escurece. O ar é perfumado pelo cheiro quente de cerveja e uísque em copos de papel. Acima, um vento grudento vem do lago Pontchartrain. Poderíamos estar em um romance policial de James Lee Burke. De repente surgiria o velho Dodge de Dave Robicheaux, o detetive perturbado. E tomaríamos um drink no Snug Harbor, ou no DBA, ou até mesmo no Spotted Cat, uma das casas noturnas da rua onde todas as noites os melhores músicos da cidade se encontram para travar incríveis desafios. Diante de um Dr. Pepper, o refrigerante local, Robicheaux ficaria olhando para nós, sorrindo, como alguém que se deixa levar pelos seus próprios ritmos e sussurraria: "Nova Orleans continua sendo um lugar maravilhoso, onde é bom estar em uma noite de agosto... Mas fazia muito tempo que você não voltava aqui. Os acordos tácitos de antigamente não valem mais. É uma cidade aberta, como Miami. Há somente uma maneira de operar em Big Easy (apelido de Nova Orleans) hoje. Você deve se certificar de que a oposição sabe o tempo todo que ela está sempre a ponto de virar mancha de gordura no cimento".
  • Dave Einsel/AFP - 30.08.2005

    Vista aérea de bairro de Nova Orleans alagado após a passagem do furacão Katrina


Na verdade, dane-se Robicheaux, é um jovem músico furioso que nos disse isso, sob o olhar misericordioso do pequeno buda. Shamarr Allen usa uma camiseta cinza que diz: "The trumpet is my weapon" ("O trompete é minha arma"). Ele não tem nem 30 anos. Dreadlocks amarrados em um rabo-de-cavalo lhe varrem as costas. Seu olhar hostil diz muito sobre sua determinação. Há pouco ele subiu no pequeno palco do Snug Harbor. Ele apontou seu trompete para o teto, inflou suas bochechas e, meu Deus, a música, em um sopro de uma potência seca, subiu para o céu até se fundir na luz suave que cobria toda a cidade, voando sobre as casas de madeira de janelas abertas, sacadas e corrimões de ferro forjado, ruas cheias de resedás do French Quarter, antes de girar em torno das torres da catedral Saint-Louis, e depois correr ao longo do grande lençol lodoso do Mississippi para desaparecer ao largo do golfo do México... Shamarr já tem dois álbuns em seu currículo: um é uma homenagem a Louis Armstrong e à tradição de Nova Orleans, e o outro casa de forma radical o funk, o rock e o hip-hop. Pertencente à geração que retomou o caminho aberto por Wynton e Brandford Marsalis ou Terence Blanchard, ele domina todo o espectro da música de Nova Orleans, do jazz ao rhythm'n'blues, passando pelo gospel, pelas fanfarras, pelos cantos dos negros vestidos de índios para o Mardi Gras e, é claro, o "bounce", variante da Louisiana para o rap. Ele toca tanto em uma brass band, um desses grupos com base de metais que acompanham enterros, quanto em um grupo de rock... Ele até substituiu Wynton Marsalis recentemente em uma turnê americana de Willie Nelson, uma das estrelas da country music.

Nós também falamos de Bob Dylan, com quem ele compartilhou o palco fugazmente durante uma apresentação com o pianista Leon Russell. Que pensava ele sobre o que esse homem de "Like a rolling stone" escreveu sobre Nova Orleans no volume I de suas "Chroniques", quando ele gravou "Oh Mercy" com Daniel Lanois? "Essa cidade é um longo poema. Jardins repletos de amores-perfeitos, petúnias rosas, papoulas. Capelas floridas, murtas brancas, buganvílias e oleandros despertam os sentidos, enchem você de frescor e clareza. Tudo aqui é uma boa ideia (...). Uma melancolia crônica se pendura nas árvores. E não se cansa disso. Até você começar a achar que é um fantasma desenterrado, em um museu de cera sob as nuvens vermelhas". Ele se engasgou de rir. Claramente sua Nova Orleans não tinha muito a ver com todas essas imagens para um branco amante de música que sonha com Storyville, o bairro da prostituição do início do século 20, e fantasia com o Jelly Roll Morton em terno de seda, apoiado no batente da porta de um bordel chamado House of the Rising Sun.

No dia seguinte, no início da tarde, entramos em seu carro vermelho. Rap tocando no fundo. Adeus ao French Quarter, às suas casas de tijolos, suas altas janelas, seus bares de esquina, seus jardins floridos de plantas subtropicais. Vamos para a parte baixa do 9º Distrito. Lá onde em 29 de agosto de 2005 os diques malcuidados ao longo do Industrial Canal cederam ao ataque das ondas desencadeadas pelo Katrina...

"Fugir desse ninho de vespas"
Antes, era um bairro popular, ruidoso e animado, habitado basicamente por negros, com pequenas casas enfileiradas, não exatamente incríveis, mas cujos jardins serviam como hortas. A maior parte dos habitantes tinha casa própria. Havia crianças por toda parte. A música vibrava em todas as ruas, gospel nas igrejas, soul nas varandas, blues nos bares, rap nos carros dos marginais. Hoje, quatro anos depois, há somente o silêncio na brancura superaquecida do dia. Da casa onde Shamarr cresceu ao lado de seus pais, só restam os degraus de uma entrada que não leva a lugar nenhum... Aqui, 3 mil casas desapareceram e 10 mil famílias ficaram desabrigadas. Fora três prédios ultramodernos em palafitas, meio ridículos, construídos graças à ajuda do ator Brad Pitt, não há mais nada. Mais adiante, as casas resistiram. Elas estão de pé, mas amassadas, fendidas ou ligeiramente inclinadas. E vazias. Com suas portas de estranhos hieróglifos, mistura de cruzes, traços, números, que indicam se o lugar foi vasculhado, o número de cadáveres que foram encontrados e o perigo que se esconde ali (gás, deterioração, desabamento). Alguns moradores continuam apegados a esse bairro-fantasma, em trailers apoiados em suas antigas moradias. Reconstruir? Impossível. Se eles são locatários, não têm direito aos auxílios. Se eles são proprietários, a maioria não tinha seguro e não recebeu nenhum tipo de reembolso... Na verdade, desde o dia em que as águas foram embora, nada mudou neste bairro.

Um pouco de história

Nova Orleans foi fundada em 1718 pelos franceses, entre o rio Mississippi e o lago Pontchartrain, sobre uma elevação no meio do pântano. Os diques logo se tornaram essenciais para sua existência. Cedida à Espanha em 1762, a Louisiana integrou os Estados Unidos em 1803. Cidade portuária próspera, especialmente graças ao comércio de escravos, Nova Orleans foi por muito tempo a cidade mais rica do sul e a mais povoada, de negros, livres ou não, e de brancos, falando francês, espanhol e inglês. A abolição da escravatura e a revolução industrial levaram ao seu lento declínio econômico - mas não cultural -, no início do século 20. O furacão Katrina, em 2005, parece ter terminado o trabalho.



A maioria dos músicos negros de Nova Orleans morava lá. O lendário Fats Domino, por exemplo, um gigante que fez o mundo inteiro dançar nos anos 1950-1960 com músicas como "Ain't That a Shame", "Blueberry Hill" ou "Let the Four Winds Blow". Ele morava em uma casa ampla no número 1208 da Caffen Street, onde à noite ele podia ser visto tomando um ar fresco em sua varanda. Depois da inundação, os jornais anunciaram sua morte. Na verdade, ele tinha se refugiado no sótão... A casa continua lá. Deserta. Somente com uma faixa da Tipitina's Foundation, uma associação de ajuda aos músicos, proclamando: Proudly helping Fats Domino [Orgulhosamente ajudando Fats Domino]. O Fat Man não voltou. Assim como muitos outros músicos que se instalaram em Dallas, Houston, Memphis, Austin, Baton Rouge ou Los Angeles, onde lhes ofereciam trabalho, uma vez que não havia mais nada em Nova Orleans...

"No início, eram poucos os que queriam voltar para Crescent City (outro apelido da cidade, devido ao seu formato de meia-lua que acompanha o Mississippi). Há anos os músicos de minha idade falavam de fugir desse ninho de vespas. Assim que a natureza os empurrou para fora, quase todos queriam recomeçar do zero. Além disso, as condições de vida nas outras cidades eram melhores, com boas escolas, moradias sadias, menos corrupção ou racismo...", se lembra Shamarr. Ele viveu por muito tempo com sua mulher e filho pequeno em San Antonio, no Texas, produzindo artistas de rap. Logo pessoas como Terence Blanchard, o trompetista que compõe as músicas dos filmes de Spike Lee (entre os quais "When the Levees Broke", impressionante documentário sobre o Katrina), entenderam a importância que a cultura - e mais especificamente a música - tinha na reconstrução da cidade. Por exemplo, ele convenceu Herbie Hancock, diretor do Monk Institute, a melhor escola de jazz dos Estados Unidos, a se instalar em Nova Orleans... Músicos menos conhecidos, como o poeta Chuck Perkins, tiveram a mesma reação: "Decidi que não posso mais desertar. A lógica era simples: sem os músicos, a cidade não existia mais. Mas se quiserem que os músicos voltem, é preciso que eles possam tocar. Então nossa associação, Sweet Home New Orleans, implementou um pagamento sistemático para aqueles que aceitassem voltar. Eles foram convidados, alguns por uma quantia módica, e mesmo que houvesse só cinco pessoas na noite do show, eles seriam pagos. Como resultado, por volta do verão de 2006, realmente recomeçaram a tocar um pouco em cada lugar. Encontrávamos brass bands em todos as esquinas, até em lugares onde eles não andavam antes".

Outros, como a New Orleans Musicians Relief Fund, cuidaram de fornecer novos instrumentos, equipamentos de som destruídos com a enchente... A Habitat for Humanity, criada pelo ex-presidente Jimmy Carter, lançou com o apoio ativo do cantor Harry Connick Jr. a operação Musicians' Village, destinada a construir 24 casas na parte alta do 9º Distrito para os músicos que tiveram de deixá-lo. Há alguns meses Shamarr Allen está morando lá. Agora ele é proprietário (em leasing: US$ 500 por mês, além do compromisso de dar 350 horas de seu tempo à construção do Village) de uma elegante casa de madeira de quatro cômodos. É essa rede de associações que permitiu o renascimento de boa parte da vida musical de Big Easy. Daí o grito de raiva de Chuck Perkins: "Não será mais preciso virem nos pedir o que quer que seja para esse país! Nós mesmos reconstruímos essa cidade, graças à boa vontade de milhares de pessoas dos Estados Unidos e do mundo inteiro, mas de forma alguma graças às autoridades políticas".

Voltamos ao carro de Shamarr para ir à Congo Square, coração da cidade, onde antigamente os escravos tinham o direito de tocar tambores e onde continua a pulsar o ritmo da cidade, o famoso "Triggerman" que lança todas as síncopes de uma música moldada por influências africanas, europeias, latinas, eslavas. Atravessando o 7º Distrito onde, antes de 2005, o bounce escorria na rua por todas as janelas dos apartamentos, bares, lojas, casas noturnas e casas de strip das mais decadentes, somente o chiado do ar-condicionado acompanhava os últimos rubores do dia. Através dos vidros, tivemos a impressão de um lugar soberbo e magnífico onde era bom de se viver. Mas ninguém mais morava lá. Havia empreendimentos imobiliários em andamento. Para os brancos. De cidade-chocolate, Nova Orleans se transforma em cidade-baunilha... Antes do Katrina, 60% da população era negra e 40% branca. Agora, a proporção se inverteu. Por causa da disparada do preços dos aluguéis, da ausência de reconstrução de setores inteiros, da pouca pressa da administração em facilitar o retorno das famílias negras desalojadas e da chegada de milhares de mexicanos aos quais foram dados todos os empregos subalternos até então reservados aos negros... Por isso a surda exacerbação, o pesado rancor. Consequentemente, em Nova Orleans quase não se ouve mais rap, e bounce menos ainda. O que não a impede de ser a cidade mais violenta dos Estados Unidos, com uma taxa de homicídios oito vezes mais alta do que a de Nova York... Em dezembro de 2006, Dinerral Shaver, um baterista, amigo de infância de Shamarr, foi morto por uma bala perdida. Em Big Sleazy (a Grande Sórdida, trocadilho com Big Easy), a guerra não conhece cessar-fogo.

A tragédia do Katrina

O furacão Katrina causou estragos em construções, derrubou árvores, linhas de energia e causou alagamentos no sul dos Estados Unidos, em agosto de 2005. A tempestade chegou a ser classificada com a categoria cinco - a mais alta na escala usada para medir a força dos furacões. Os Estados de Louisiana, Alabama e Mississippi foram os mais afetados. Mesmo sem ter sido diretamente atingida pelo furacão, a cidade de Nova Orleans foi a grande tragédia deixada pelo furacão. Devido às fortes chuvas provocadas pelo Katrina, o sistema de diques que protegia a cidade, que é atravessada pelo rio Mississippi e rodeada de lagos e pântanos, se rompeu. Cerca de 80% da cidade, que fica abaixo do nível do mar, foi coberta de água em questão de minutos. O viaduto da principal estrada que ligava Nova Orleans ao resto do Estado foi totalmente destruído, deixando a cidade ilhada.



Parque de diversões
Perto da Congo Square, no píer à beira do Mississippi, encontramos Zachary Richard, um dos últimos cantores francófonos da Louisiana. Ele divide sua vida entre sua fazenda perto de Lafayette e Montréal, mas também com o French Quarter, onde ele tem um pequeno apartamento. Com Francis Cabrel, ele organizou concertos na França para ajudar os refugiados do Katrina: as doações permitiram ajudar mais de dez músicos durante alguns meses. Nesta noite, ao pôr-do-sol, ele deve cantar enquanto imensos cargueiros descem o rio para ganhar o golfo do México. Ele também não mede suas palavras. Ele é contra todas essas conversas em que pessoas decentes e respeitosas lhe explicaram que, afinal, o Katrina não tinha sido um flagelo tão terrível assim; com a reconstrução, a economia decolaria novamente, e finalmente poderiam recomeçar do zero, com uma criminalidade reduzida, já que os bandidos haviam deixado a cidade... Após o fracasso da Exposição Universal de 1984, a cidade se encontrou em falência. A atividade portuária e as companhias petroleiras se deslocaram para a costa. Só restava o turismo. Aos poucos o French Quarter foi se transformando em uma espécie de parque de diversões para turistas embriagados. A população passou de 1,2 milhão de habitantes para 600 mil. Quando veio o Katrina, Nova Orleans era uma das cidades mais pobres dos Estados Unidos. A destruição de uma parte de seus bairros e o exílio de centenas de milhares de pessoas permitiram transformá-la em uma espécie de "tesouro nacional", vestígio de um passado romântico, onde o "let the good times roll" reinava, à base de culinária cajun, coros gospel, jazz tradicional e blues melancólico. Uma das primeiras medidas tomadas pelo governo federal foi aumentar todas as taxas sobre o uso da cidade como locação em filmes. Nova Orleans não passava de um grande cenário. E tudo que ultrapassasse esse quadro não era mais admitido.

Alguns dias mais tarde, à luz amarela de um fim de manhã, de terno claro e lenço combinando com a gravata, um príncipe de cabelos grisalhos entrou no hall do hotel. Allen Toussaint é a última lenda viva da música de Nova Orleans. Pianista muito influenciado pelo Professor Longhair ("o Bach do rock", ele brinca), é sobretudo o compositor, nos anos 1960-1970, de vários sucessos de grupos de funk como os Meters ou os Neville Brothers. "O ciclone não poupou nem minha casa nem meu estúdio, talvez seja uma vingança! Mas isso me permitiu recomeçar uma outra vida... Comecei a tocar no mundo inteiro". Em seu álbum mais recente, "The Bright Mississippi", cercado por vários jovens músicos (Nicholas Payton, Marc Ribot...), ele volta com uma grande sensibilidade para o jazz mais sofisticado dos seus primórdios. "Sabe que, aqui, nós respeitamos todos os estilos. Talvez porque não saibamos realmente quem somos. Nova Orleans não tem sua música, mas suas músicas de influências diversas, sejam espanholas, francesas, alemãs ou africanas". Qual é o segredo dos músicos da cidade? "Aqui, há décadas os meninos aprendem a ler música como se lê um livro... Tocar piano ou trompete é estar na corrida, uma das únicas formas de se sair bem". E em seguida ele desapareceu no calor sufocante da rua.

Na esquina da Frenchman com a Saint-Charles, sob o pequeno buda feliz, o homem que poderia ser Dave Robicheaux acrescentou: "A música é um grande clube. É como fazer parte de uma Igreja. O cômodo em que você se encontra não tem importância, contanto que você esteja dentro do prédio. Está me entendendo?"

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,13
    3,270
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h21

    -0,51
    63.760,94
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host