UOL Notícias Internacional
 

30/08/2009

Acampamento vira "estacionamento" de imigrantes que desejam entrar no Reino Unido

Le Monde
Catherine Simon
Enviada especial a Norrent-Fontes (França)
À noite, as únicas luzes que se veem estão distantes - os faróis dos veículos que correm na rodovia, iluminando ao passar a massa escura do matagal. De dia é um pouco aborrecido - "Como na aldeia!", suspira Abrehet (os nomes estrangeiros foram modificados), com uma expressão de citadina.

Camiseta cor-de-rosa e jeans apertado, a jovem africana de 19 anos sonha com a cidade. Calais está a apenas duas horas de trem. Londres também, mas de caminhão. Londres! A capital do Reino Unido, ponto final dos migrantes da região de Calais! Para os exilados da Eritreia ou da Etiópia, a "selva" (acampamento) de Norrent-Fontes, na comuna de Pas-de-Calais, representa a reta final.

Abrehet pensa em seus dois irmãos que a esperam em Newcastle. Gebre Mariam, rapaz alto e taciturno, quer chegar a Manchester, onde tem amigos. Tekle, recrutado à força pelo exército, como todas as crianças da Eritreia, homens e mulheres, nunca fala dos ferimentos que sofreu na guerra e de sua perna metralhada. Na "selva" de Norrent-Fontes cada um tem seus segredos e seus planos para o futuro. É uma espécie de sala de espera. Como foi combinado com a prefeitura, os migrantes de passagem nunca são mais de 30.

Graças à intervenção da associação Terre d'Errance (terra de errância), que cuida desses habitantes efêmeros, aceitaram me receber. Não sem acordos prévios. O "estacionamento", isto é, o posto de combustível onde as carretas fazem escala, fica a 20 minutos a pé. É o tesouro de Norrent-Fontes. Os eritreus lutaram por seu controle. Um deles, Mansour Habib, morreu em uma noite de julho de 2008, assassinado exatamente no estacionamento, por um comando de sudaneses furiosos por terem sido expulsos. Ele foi enterrado em Lens.

No estacionamento, hoje nas mãos apenas dos eritreus, a ronda continua. Toda noite, exceto sábado (os caminhões não trafegam no domingo), no caminho de terra que beira a "selva", um pequeno bando se agita, as silhuetas empacotadas em roupas marchando em fila indiana, e logo desaparece no meio do milharal.





Quarta-feira, 12 de agosto, na barraca das mulheres.

São 23h30, os últimos preparativos antes do estacionamento. A barraca das mulheres é uma sólida construção de cerca de 20 m2, feita de tábuas, lona grossa e cobertura de plástico. As duas barracas vizinhas são reservadas para os homens. Abrehet tateia no escuro para encontrar suas roupas. Ela pede para iluminarmos com a lanterna. Freweyni, a mais velha do grupo, também se apressa. Sentada na beira da cama, ela calça o segundo par de meias.

A cama ocupa todo o espaço: tapumes servem como estrado; colchões são colocados por cima; as cobertas servem de colcha. As que dormem se enrolam em outras cobertas, que ao acordar são arrumadas junto às paredes. Há um espelho pendurado perto da entrada. Em uma das caixas de papelão que forram o solo, lê-se em grandes letras: "Lá fora, a crise!"

A duração da estada dos moradores da "selva" varia entre uma semana e três meses, calcularam os voluntários da Terre d'Errance. Isso depende dos controles de fronteira, do número de caminhões e também da sorte. Na pequena trouxa que carrega, Rahel coloca um grande livro preto. Não é um guia de Londres, não, ela ri. "É minha Bíblia, escrita em tigrinya", diz, mostrando as páginas. Abrehet também é sacerdotisa. Ela vestiu três calças, uma sobre a outra, e cinco camisetas de mangas compridas. As três mulheres acabam de se empacotar com velhos abrigos com capuz. Tudo isso é necessário para suportar a temperatura dos caminhões frigoríficos - os mais impermeáveis aos controles - a bordo dos quais elas esperam se esgueirar esta noite.

Quinta-feira, 13 de agosto, lebres e cães policiais.

Foi "Papa Claude", como o chamam os migrantes, Claude Prouvost na identidade, quem construiu a barraca das mulheres no outono de 2008. É ele quem traz os galões de água. Sem esquecer o pão e todas as provisões que os supermercados do lugar o deixam pegar. Esse aposentado, antigo representante do comércio, militou inicialmente nos Restos du Coeur (restaurantes do coração). Ele pertence, como sua mulher, Marie-Elisabeth, à associação católica Cristãos no Mundo Rural. "Não podemos deixar as pessoas na beira da estrada", ele diz. "Cada um tem sua consciência. Mas os que são hostis aos migrantes realmente me causam dor no coração!"

Papa Claude é uma figura da "selva", assim como Lily Boillet, a jovem presidente da Terre d'Errance, ou de Monique Pouille, mãe de família de Norrent-Fontes, conhecida por ter dado queixa de difamação contra o ministro da Imigração, Eric Besson. Os eritreus a chamam simplesmente de "Mama Monica". É ela quem cuida de recarregar os telefones celulares. Entre os fiéis também se encontram dois ou três militantes de extrema-esquerda. E um grupo de boas almas, sem as quais a "selva" ficaria isolada do mundo: os migrantes raramente vão à aldeia, são os moradores que vêm a eles. Principalmente moradoras, quase todas aposentadas.

Uma era agricultora, a outra florista, a terceira professora... Esta votou em Nicolas Sarkozy para presidente. Aquela é militante da Anistia Internacional. Quando o tempo está bom, ficam do lado de fora sentados em cadeiras doadas, no espaço minúsculo que cerca a fileira de barracas coletivas reservadas para a cozinha e a louça. Conversam enquanto cortam cebolas. Às vezes um migrante músico pega o krar, instrumento de cordas fabricado por um antecessor anônimo.

Várias vezes derrubada, a "selva" de Norrent-Fontes deverá desaparecer mais uma vez - ao mesmo tempo que a de Calais, cuja destruição foi anunciada em abril pelo governo, mas também as de Steenvoord (perto de Hazebrouck), de Angres ou de Saint-Omer? "Se eles destruírem, nós reconstruímos!", exclamam, sem combinar, Claude Prouvost e Monique Pouille. Para o abade Michel Delannoy, membro fundador da Terre d'Errance, a "limpeza" ocorrerá sem dúvida em outubro ou novembro, "antes do frio forte".

Por volta das 16 horas chegam os últimos recusados da noite. Freweyni está entre eles. Ela explica que no quarto controle os cães farejadores da polícia britânica os localizaram. Voltaram para o lado francês. Depois da detenção em Calais, o pequeno grupo tomou o trem até Isbergues e fez os últimos seis quilômetros a pé. Freweyni vai se deitar. Ela só reaparece no início da noite, quando o céu, acima do trigo cortado, fica arroxeado.

Lebres saltam perto do milho. Dois jovens migrantes tentam se aproximar. Uma vez eles conseguiram apanhar uma, afirma Abrehet. Nessa noite não dá certo. No cardápio, molho de tomate quente, cozido com cebolas e pimentão, onde cada um mergulha seu pão.

Sexta-feira, 14 de agosto, dia de banho.

Véronique, funcionária de tabelião aposentada, e Papa Claude estacionam no caminho de terra. São 15 horas. Na terça-feira tomam banho em Ham-en-Artois; na sexta em Isbergues-La Roupie. As prefeituras concordaram em abrir as duchas das salas de esporte. Os migrantes são levados de carro e trazidos ao acampamento depois de passar pelo anexo da prefeitura de Norrent-Fontes, onde são deixados roupas limpas e sapatos, fruto de coletas. Não há micose em Norrent-Fontes, nem mesmo percevejos.

Vários se banham ao mesmo tempo. Há uma sala com chuveiros para homens e outra para mulheres, com três duchas por sala. Abrehet acaba sua toalete raspando as axilas com um aparelho Bic. "Você tem creme para o rosto?", pergunta Freweyni.

Sábado, 15 de agosto, uma missa e depois eles partem.

Uma faixa está pendurada diante da capela da aldeia de Ames: "Em nossa casa, seja rainha". Os fiéis, reunidos ao ar livre, escutam o abade Delannoy, que fala sobre a Virgem Maria. Uma dúzia de migrantes estão presentes de pé, atrás de todo mundo. No momento da coleta, Rahel coloca na cesta uma pequena chuva de moedas vermelhas e amarelas. A esmola dos migrantes.

A passagem para a Inglaterra custa € 400 por cabeça. Alguns pagam menos, ou nada. Em Norrent-Fontes, os passadores assim retribuídos não são mafiosos - estes últimos estão instalados em Londres ou Bruxelas, com os papéis em dia. Aqui os passadores são passantes. São chamados de "fechadores de porta": são eles que abrem e, principalmente, tornam a fechar as portas dos caminhões. Eles partirão mais tarde, quando formarem seus substitutos e ganharem um pouco de dinheiro: depois da longa viagem não têm mais um centavo no bolso. Nem todos os migrantes têm família no Reino Unido, para lhes enviar, em caso de problemas, uma remessa pela Western Union.

Domingo, 16 de agosto, nuvens.

Hagos aceita falar pela primeira vez. Desertor do exército, como Tekle, ele queria saber se um dia a França aceitará dar asilo aos eritreus. Ele gostaria muito. É pouco provável. Ao entrar na Itália, tiraram suas impressões digitais: Hagos corre o risco de a qualquer momento ser enviado de volta ao país de Dante e Berlusconi. É a regra. O jovem sorri. "No hope" (sem esperança), ele diz, olhando para as nuvens.

P.S.: Nos dias seguintes a esta reportagem, 13 migrantes de Norrent-Fontes entraram no Reino Unido. Freweyni está em Manchester. Abrehet telefonou de Newcastle.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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