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02/09/2009

Irã continua aumentando sua capacidade nuclear

Le Monde
Natalie Nougayrède
Enviada especial a Viena (Áustria)
O prazo que o governo americano deu ao Irã para que responda a seus gestos de abertura termina no final de setembro, mas o relatório sobre as atividades nucleares da república islâmica, apresentado na semana passada pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), não dá motivos para otimismo.

Hoje com 8.308 centrífugas em sua usina de Natanz (das 7.221 que havia em maio), o Irã continuou aumentando em ritmo constante sua capacidade de obter em curto prazo material de fissão para uma arma atômica; pelo menos se algum dia tomar a decisão de dar esse passo.

As centrífugas permitem o enriquecimento do urânio, processo que pode ter fins civis ou militares, dependendo de sua intensidade. Até agora o Irã produz um urânio com baixo grau de enriquecimento, mas ao aumentar seu parque de centrífugas está se dotando da possibilidade de passar para um grau militar.

Nesta quarta-feira deverão se reunir em Frankfurt, Alemanha, representantes das grandes potências para discutir o caminho a seguir diante dos trabalhos nucleares iranianos. EUA, Grã-Bretanha e França pensam em sanções internacionais severas para tentar conter essas atividades e convidar o Irã para um diálogo. Esses países não deixarão de se apoiar nas observações críticas da AIEA. Rússia e China vacilam e sem dúvida darão ênfase aos pontos mais positivos do relatório. A posição de alguns países emergentes do sul, como a Índia, importante fornecedor de produtos refinados de petróleo para o Irã, poderia ser determinante no debate anunciado sobre as sanções.

A AIEA salienta em seu relatório que em 12 de agosto o Irã alimentava cerca de 400 centrífugas a menos que em 31 de maio. É um gesto político que o Irã deseja fazer, ou simplesmente encontrou dificuldades técnicas? Em todo caso, um alto funcionário da ONU advertiu nesta sexta-feira que não se deve dar uma interpretação excessiva para essa estatística. Com efeito, o relatório não diz que as atividades de enriquecimento tenham sido freadas.

Atualmente o Irã conta com 1.508 quilos de urânio de baixo grau de enriquecimento, e nos três últimos meses avançou na mesma velocidade que antes. Mas é verdade que pela primeira vez desde que apresenta esses relatórios a AIEA constatou pontualmente um retrocesso na alimentação das centrífugas.

No relatório aparece sem equívocos que em agosto o Irã tentou fazer vários gestos para a comunidade internacional, mas não deixou de obstruir as questões essenciais da investigação da agência: as que se referem à "possível dimensão militar" dos trabalhos nucleares, como a chama a AIEA.

Por exemplo, os inspetores foram subitamente autorizados a visitar o local nuclear de Arak (onde se constrói um reator de água pesada), de onde tinham sido afastados há mais de um ano. Mas o Irã continua negando à AIEA o acesso a pessoas, documentos e locais capazes de esclarecer os pontos mais delicados, como os supostos estudos sobre ogivas nucleares.

Esses pontos foram objeto, em fevereiro de 2008, de uma estridente exposição interna do número 2 da AIEA, Olli Heinonen, que considerou que só um programa nuclear militar poderia explicar que o Irã se dedicasse a tais trabalhos e procurasse esses documentos.

A AIEA critica a persistência de importantes zonas de sombra nas atividades iranianas, salientando as manobras dilatórias de Teerã. O Irã "não respondeu de maneira adequada" às perguntas, limitando-se a "respostas limitadas ou simples desmentidos", indica o relatório.

O que está claro é que o Irã tenta ganhar tempo. Primeiro Teerã refutou a autenticidade de todos os documentos delicados obtidos pela agência, para depois recuar parcialmente, como demonstra o relatório entregue na semana passada. Depois do trauma da manipulação dos serviços secretos americanos em 2003 sobre o Iraque, a AIEA parece fazer o possível para estabelecer a confiabilidade dos dados que utiliza.

Uma das perguntas que se fazem os especialistas e os diplomatas refere-se ao cenário que os iranianos escolherão para demonstrar algum dia sua elevação ao grau de potência nuclear ou, pelo menos, de país dotado da tecnologia necessária para chegar a isso. Segundo alguns observadores, o acúmulo de centrífugas visa preparar a passagem repentina do Irã para o enriquecimento de urânio com grau militar.

Essa etapa poderia ser franqueada em Natanz, sob o olhar dos inspetores da AIEA? Isso seria uma grave crise, com a possível retirada do tratado de não-proliferação de armas nucleares, como fez a Coreia do Norte. É pouco provável, como julgam fontes próximas ao caso, que o Irã tenha recorrido para isso a instalações clandestinas de enriquecimento de urânio, de cuja existência os ocidentais suspeitam há tempo.

Na última sexta-feira o Departamento de Estado americano censurou o Irã por "continuar sem cooperar plenamente". "Estamos muito preocupados pelo fato de eles não responderem às preocupações da comunidade internacional", comentou um porta-voz.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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