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03/09/2009

As síndromes que acometem os turistas estrangeiros

Le Monde
Martine Laronche
As viagens podem fazer alguém perder a cabeça? A caneca arremessada sobre a Mona Lisa por uma visitante de origem russa, dia 2 de agosto, traz a questão à tona. Protegido por um vidro blindado, o quadro não foi danificado. A jovem, que segundo a polícia de Paris "não gozava plenamente de suas faculdades mentais", foi transferida para um hospital psiquiátrico. A imprensa mencionou a síndrome de Stendhal, que atinge turistas emocionados pela beleza das obras de arte. Mas, nesse caso específico, a visitante já morava há vários anos na França.
  • EFE

    Imagem de arquivo mostra como a Mona Lisa é exposta no Louvre, protegida por um vidro


A síndrome de Stendhal foi descrita, em 1990, em uma obra homônima por uma psiquiatra italiana, Dra. Graziella Magherini, que trabalhou no hospital Santa Maria Nuova, em Florença. Ela recebia turistas chocados após visitarem a Galleria degli Uffizi, e formalizou um diagnóstico sob o nome de síndrome de Stendhal. Os sintomas, que atacariam mais mulheres solteiras, com menos de 40 anos, que viajavam sozinhas, se manifestam sob forma de vertigem, perda do sentido de identidade, falta de ar, taquicardia, e até alucinações. Em geral, os pacientes se recuperam ao deixar a cidade.

Esse conjunto de sintomas foi batizado com o nome do famoso escritor francês que descreveu um estado de intensa emoção em "Roma, Nápoles e Florença" (publicado em 1826), que sentiu quando saía da basílica de Santa Croce, em Florença. "Cheguei a esse estado de emoção onde se encontram sensações celestes, proporcionadas pelas belas-artes e pelos sentimentos apaixonados. Ao sair da Santa Croce, meu coração batia rápido, senti-me esvair, eu andava com medo de cair", ele escreve. O fenômeno permaneceu limitado e contido na cidade florentina. Graziella Magherini registrou uma centena de casos em Florença, entre 1980 e 1990.

Diretora do Centro Psiquiátrico de Orientação e Acolhimento (CPOA) do hospital Sainte-Anne, em Paris, a Dra. Marie-Jeanne Guedj apresentou uma vez esse diagnóstico. Tratava-se do caso de uma estudante que fez uma viagem com sua turma de escola para Florença. "Ela tinha medo de não estar à altura das obras de arte", ela lembra. "Ela desencadeou um estado de excitação. Ficou superexcitada, não conseguia dormir". Quando voltou para Paris, sua crise terminou.

Junto com a síndrome de Stendhal, foram descritos outros estados de crise, depressão ou delírio ligados a viagens: a síndrome de Jerusalém atinge os turistas em peregrinação religiosa à Cidade Santa. Ansiedade, stress, desejo de isolamento, obsessão por purificar o corpo, são suas principais manifestações.

A síndrome de Paris acomete japoneses que vão morar na capital e não conseguem se adaptar a seu novo contexto, deprimidos por uma cidade que não é como eles haviam idealizado. "Encontrei diversos pacientes nesse caso", conta a Dra. Guedj. "É uma síndrome que demora para se estabelecer. As pessoas se isolam, se fecham em seu quarto de hotel ou em seu apartamento".

A síndrome da Índia atinge os ocidentais. Nesse país mítico, o choque cultural é tamanho que alguns perdem a cabeça. Muito angustiados, eles podem ser tomados de delírio paranoico de perseguição. Régis Airault, psiquiatra, trabalhou no consulado de Mumbai durante alguns anos. Por diversas vezes ele repatriou franceses atingidos por esse delírio. Em seu livro "Fous de l'Inde" ("Loucos pela Índia", 2000), ele menciona uma série de casos, como o da jovem que corria pelas ruas para abraçar as vacas sagradas durante uma viagem de dez dias com uma associação humanitária; ou o da mulher que foi recarregar as energias por alguns meses na Índia, e quase se afogou enquanto tentava ir para a França a nado, para reencontrar seus pais. "A viagem, como uma separação, uma mudança, pode causar um colapso nervoso nas pessoas", considera Régis Airault. "Essa desconexão física parece se produzir com mais facilidade em certos lugares carregados de sentido pela história e pela cultura de origem da pessoa". Seria o eixo oriental - Florença, Jerusalém, Índia - para os ocidentais, Paris para os japoneses, Meca para os muçulmanos.

Poderiam as pessoas estar apresentando sinais premonitórios? Estariam elas predispostas a desenvolver uma patologia mental? O assunto continua sendo controverso. "Não necessariamente", garante o psiquiatra. "A viagem pode ser, em si, patogênica. Além disso, na maior parte do tempo, assim que as pessoas voltam para seu ambiente de origem, os problemas passam".

Essas síndromes são diferentes da viagem patológica. "Distinguimos as viagens organizadas por motivos razoáveis, nas quais acaba se desencadeando uma patologia mental como a síndrome de Stendhal ou de Paris, de viagens patológicas onde a viagem é impulsiva, não preparada ou faz parte do delírio do paciente", comenta a Dra. Guedj.

Youcef Mahmoudia, psiquiatra do hospital Hôtel-Dieu em Paris, recebe todos os anos cerca de 50 pessoas - estrangeiros ou pessoas do interior - atingidas por esses problemas. Como o italiano que viajou a Paris para fugir da Máfia e se refugiou na delegacia de polícia; ou o belga perseguido pela KGB; ou ainda a japonesa que ouvia, de Tóquio, a voz da Virgem Maria, lhe ordenando que fosse à Catedral de Notre-Dame.

Mahmoudia não acredita que as viagens possam, sozinhas, desencadear episódios de delírio: "As pessoas pareciam normais, mas na verdade elas estavam em um processo de pré-delírio. Durante as consultas, encontramos uma sensação de excentricidade, de estranheza em relação ao mundo exterior, uma tristeza, um prévio sono perturbado e que são atribuídas a excesso de trabalho, ao fim de um relacionamento, a um luto ou à perda de um emprego".

Em todo caso, não se foge dos seus próprios demônios e é melhor viajar no melhor de sua forma do que acreditar que as viagens serão a solução para nosso mal-estar.

Tradução: Lana Lim

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