UOL Notícias Internacional
 

03/09/2009

O reino universal dos trapaceiros de Deus

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
Um diploma. Um belo diploma dourado que leva a assinatura do "Senhor Jesus Cristo". É tudo que resta a Edson Luiz de Melo, após treze anos como membro da Igreja Universal do Reino de Deus, a mais poderosa igreja evangélica do Brasil.
  • Washington Alves/Light Press/AE

A citação que decora o pergaminho começa com um versículo bíblico, criteriosamente escolhido, do Livro de Malaquias: "Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida".

Abençoado Edson foi, com abundância, pelos pastores da Universal. Mas ele nunca viu as janelas do céu lhe sendo abertas. E quantos dízimos ele trouxe para o tesouro de Deus! Sem parar, cada vez mais, e sob todas as formas: a maior parte de seu salário, até o 13º, cheques pré-datados, tíquete-restaurante, vale-transporte, o dinheiro da venda de um terreno.

Essa louca profusão não foi suficiente para que a Igreja, como ela havia prometido, o curasse da depressão que o corroia há tanto tempo. Hoje jovem aposentado - aos 45 anos - , Edson se encontra "com (sua) angústia e (sua) tristeza" e "muitas dívidas". Mas ele tem um motivo de satisfação: um tribunal de Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais, onde vive com sua mãe, condenou a Igreja a indenizá-lo parcialmente.

Teria a proteção divina finalmente abandonado os pastores mascates da Universal, que enriquecem há muito tempo à custa dos milhões de fieis de alma crédula, muitas vezes pobres e de pouca instrução, doentes e vulneráveis, que têm a fraqueza de tomá-los por fazedores de milagres? Pois pela primeira vez a fúria da justiça dos homens acaba de atingir os chefes desse culto excessivamente próspero.

Em 11 de agosto, a promotoria do Estado de São Paulo acusou o fundador e líder da Igreja, o "bispo" Edir Macedo, 64, e nove outros dirigentes, entre os quais três "bispos". Eles são acusados de formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. No sul do país, Macedo deverá responder por diversos outros crimes: falsidade ideológica, uso de documentos falsos e de "laranjas".

Os chefes da Universal instauraram um mecanismo bem simples. As doações de seus fiéis eram enviadas para contas de empresas de fachada com sede em paraísos fiscais. De lá, o dinheiro voltava lavado para o Brasil, sob forma de empréstimos feitos a amigos de Edir Macedo. Essa mina de ouro não deixava as mãos da Igreja, ao mesmo tempo em que escapava do fisco.

A Constituição brasileira, que protege muito a liberdade de religião, isenta as Igrejas de qualquer imposto, contanto que o dinheiro recebido financie atividades não-lucrativas: manutenção e construção de locais de culto, despesas de funcionamento, propagação de obras sociais. A Universal age em uma escala totalmente diferente. Explorando com cinismo, e até crueldade, o fervor ingênuo dos fiéis, seus organizadores construíram um verdadeiro império da fé presente em 172 países.

Antes de fundar sua Igreja, em 1977, autoconsagrando-se "bispo", Edir Macedo trabalhava na loteria do Estado do Rio de Janeiro. Hoje, esse estatístico de formação tem ares de banqueiro: calvo, de óculos austeros e grandes abotoaduras. Seu talento de pregador, seu senso de organização e seu dom, desonesto mas inegável, para as finanças, o ajudaram a construir essa multinacional do culto.

Em uma foto de 1995 ele aparece, com um ar feliz, segurando um punhado de dólares, após uma cerimônia no Madison Square Garden de Nova York. Coisa do passado. O fisco avalia sua fortuna em US$ 2 bilhões (cerca de R$ 3,8 bilhões). Ele possui, perto de São Paulo, uma mansão em estilo chalé alpino - 18 suítes em 4 mil m2 - e dois luxuosos apartamentos em Miami. Ele detém 90% do capital da rede de televisão Record, bastião dos oradores evangélicos, e sua mulher os 10% restantes.

Os bens de sua Igreja compõem uma lista interminável: 24 emissoras de televisão, 42 estações de rádio, 2 jornais, 2 editoras, uma agência de turismo, uma imobiliária, uma seguradora, uma empresa de táxi aéreo e mais de 600 veículos de todos os tipos. A Universal dispõe de 4.748 templos no Brasil, onde rezam 8 milhões de fiéis. São locais de culto confortáveis e modernos, muitas vezes gigantescos, que às vezes ostentam fachadas neogóticas.

Edir Macedo refuta as acusações da justiça. Em um texto distribuído a seus fiéis, ele os exorta a "formar uma frente dos aflitos" para "rezar, jejuar e merecer as promessas de Deus". Em um dos maiores templos de São Paulo, algumas semanas atrás, o "bispo" Wagner Negrão pedia aos fiéis que resistissem ao "diabo que nos persegue gritando, desesperado, porque pisamos na sua cabeça" exprimindo, "com fúria", sua generosidade, "em nome de Jesus". No fim do serviço, naquele dia, a coleta foi especialmente proveitosa.

Tradução: Lana Lim

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