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04/09/2009

A comunidade internacional legitima a eleição presidencial afegã

Le Monde
Quinze dias após a eleição presidencial afegã, a comunidade internacional se mobilizou, na quarta-feira (2), em Paris, para legitimar e apoiar um pleito cujo desenrolar e resultado são objeto de muitas reservas.

Os números fornecidos pelas autoridades afegãs sobre a participação parecem, de fato, contestados pelos elementos dos quais dispõem os serviços da ONU no território. A insegurança no sul e no leste do país interditou o acesso aos locais de votação para uma grande parte da população, inclusive os observadores internacionais.
  • Tyler Hicks/The New York Times

    Em coletiva de imprensa, o candidato Adbullah Abdullah acusou o governo de fraudar as eleições. Segurou um livro inteiro de cédulas e folheou as páginas para mostrar que todas elas estavam preenchidas, aparentemente antes do dia da eleição, com votos para o presidente Hamid Karzai. A comunidade internacional não deu ouvidos



Além disso, quase 2.500 queixas por fraudes foram recebidas pela Comissão de Queixas Eleitorais. O anúncio dos resultados definitivos, previsto para 17 de setembro, poderá ser adiado, segundo Grant Kippen, o presidente canadense dessa agência. Para ser eleito no primeiro turno, um candidato deve obter mais de 50% dos votos.

Na quarta-feira à noite, os resultados parciais referentes a 60% dos votos indicavam que o presidente atual, Hamid Karzai, estava à frente (com 47,3% dos votos, contra 32,6%) de seu principal adversário, o Dr. Adbullah Abdullah. Este último, que denuncia uma "fraude de Estado", pediu a seus partidários, na quarta-feira, para manterem a calma antes da proclamação dos resultados.

Os representantes especiais para o Afeganistão e o Paquistão de 27 países, por sua vez, reunidos em torno do ministro francês das Relações Exteriores, Bernard Kouchner, e do enviado especial da ONU para o Afeganistão, o norueguês Kai Eide, comemoraram a organização dessa votação.

"Foram necessários sete meses para conhecer o vencedor das eleições para o Senado em Minnesota, será bem mais rápido no Afeganistão", comentou Richard Holbrooke, representante especial americano. "Essa eleição é um sucesso", completou Kai Eide, antes que Kouchner viesse afirmar em moderação que "o importante é que o pleito aconteceu".

De fato, segundo Thierry Mariani, representante especial francês, os debates foram sobretudo em relação ao pós-eleição e "o novo contrato que a comunidade internacional deve propor às próximas autoridades afegãs eleitas". Assim, a ênfase foi colocada sobre o governo local. Os 27 países entraram em acordo para apoiar a aplicação de um plano de ajuda financeira maciça para reforçar a administração no nível das províncias e dos distritos. "Para bloquear o avanço do Taleban, é preciso uma resposta militar, mas também uma administração eficaz e honesta, sobretudo nas regiões", nota Mariani.

Além disso, o princípio da "reintegração" do Taleban, principais opositores do regime de Cabul, até hoje mencionada oficialmente somente pelos britânicos, para o sul do Afeganistão, foi endossado por todos os participantes. "Todo mundo admitiu sua urgência, e se disse pronto para colocar dinheiro na mesa, é a primeira vez que isso acontece", conta um diplomata presente nessa reunião.

Se os 27 representantes especiais parecem ter concordado em colocar um véu sobre o verdadeiro crédito a ser dado à eleição presidencial, eles garantem que não ficarão mudos diante do novo presidente. "Esperamos mudanças, precisamos de um governo competente, mas estamos aqui, vamos continuar", resume Kai Eide.

Se eles concordam quanto à validade da estratégia político-militar empregada no Afeganistão, os representantes especiais chegar a um acordo com opiniões públicas nacionais cada vez mais relutantes diante do custo humano dessa guerra e seu resultado incerto. "Não podemos iniciar os próximos cinco anos como se nada devesse mudar, é preciso ter certas garantias", acredita Mariani.

Kouchner sugeriu a criação de um posto de secretário-geral da presidência junto do futuro chefe de Estado afegão para melhorar a governança. Para garantir um verdadeiro acompanhamento, os 27 representantes se reunirão em Nova York, em 21 de setembro, em uma sessão da Assembleia das Nações Unidas. Eles também validaram o princípio da organização de uma conferência, em Cabul, ao mesmo tempo regional e internacional, tratando dos aspectos financeiros e políticos da questão afegã.

Entretanto, a margem de manobra da comunidade internacional no Afeganistão continua frágil. Holbrooke teve de desmentir, na quarta-feira, uma altercação com o presidente afegão Hamid Karzai após a votação de 20 de agosto. O representante especial americano fez, segundo fontes diplomáticas seguras, pressão sobre o presidente afegão para que houvesse, sem falta, um segundo turno para a eleição presidencial, para dar credibilidade ao processo eleitoral e mostrar um progresso em termos de democracia.

Holbrooke teve de oficialmente deixar a questão nas mãos da Comissão Eleitoral Independente, sob controle afegão, ordenando-lhe que levasse em conta o parecer da Comissão de Queixas Eleitorais, composta de dois afegãos e três estrangeiros. Discretamente, Eide contou na quarta-feira a diplomatas, durante o jantar final, que existia uma "possibilidade de que essa comissão declarasse o processo como não genuíno".

O relativo consenso que surgiu durante essa reunião não terá, afinal, mascarado totalmente os limites desse grupo de representantes especiais. O surgimento dessa ferramenta diplomática também levanta a questão da aplicação dessas decisões para as quais somente a ONU e os Estados Unidos dispõem de meios.

Tradução: Lana Lim

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