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06/09/2009

"Toda vez que encontro russos, sou insultado. Detesto ser negro"

Le Monde
Elise Barthet
Eles evitam os estádios, as estações de metrô, as casas noturnas e os parques. Em Moscou, onde eles seriam mais de 10 mil, muitos africanos vivem com medo. Segundo um relatório recente da Moscow Protestant Chaplaincy (MPC, capelania protestante) realizado junto a 209 pessoas, quase 60% delas foram alvo de agressões racistas em 2009. Um quarto diz ter sido atacada mais de uma vez.

Veja o relatório completo (em inglês)

Marcel L., 44, é um deles. Nascido em Duala, nos Camarões, ele vive em Moscou desde 1993, onde estudou Matemática durante nove anos na Universidade Russa da Amizade entre os Povos (antiga Universidade Patrice-Lumumba, criada para formar as elites das ex-colônias da África, da Ásia e da América Latina durante a guerra fria). "A primeira vez que fui agredido foi em 1995", ele explica. "Eu tinha ido visitar um amigo que morava na parte sudeste da cidade. Em uma faixa de pedestres, um jovem veio me pedir um cigarro. Eu lhe respondi que não fumava, ele me deu um soco, e então outras pessoas chegaram. Demorou um pouco, até que uma velha senhora começasse a gritar e a polícia chegasse. Nunca encontraram os caras que me espancaram".

"Não necessariamente obra de marginais"
Segundo o relatório da MPC, somente 23% dos africanos procuraram a polícia após terem sido agredidos. E com razão: na imensa maioria dos casos, as buscas não resultam em nada por falta de provas. Pior: segundo o estudo, alguns policiais chegam a se aproveitar dessas queixas para extorquir dinheiro das vítimas, ou para eles mesmos as agredirem.

Em tal contexto, os africanos não têm outro recurso além de procurar as raras associações de imigrantes instaladas na capital e nas igrejas protestantes. "Nossos paroquianos falam conosco com frequência. Começamos a investigar essas agressões em 2001, depois que muitos deles foram atacados ao saírem da missa de domingo", explica Alexandra Tyson, que coordenou o estudo da MPC.

Segundo ela, os autores dos ataques não são necessariamente hooligans ou jovens embriagados. "Ao contrário dos discursos mantidos pelas autoridades, os espancamentos são premeditados e não são necessariamente obra de marginais", ela diz. No segundo ano do relatório, vários testemunhos anônimos o confirmam: "Os ataques racistas são muito frequentes, eles podem acontecer a qualquer hora e em qualquer bairro", "cada vez que encontro russos, sou insultado. Detesto ser negro".

Muito ativo dentro da paróquia protestante onde ele ensina informática e faz algumas traduções, Marcel L. encontrou seu lugar na capital. Ele dá aulas particulares de matemática em Moscou e se expressa perfeitamente em russo. "Mas não foi fácil chegar lá", ele se lembra. Três anos depois de seu primeiro espancamento, Marcel foi atacado por um grupo de jovens de coturnos e jaquetas militares. "Eles gritavam 'negro sujo, que está fazendo em Moscou' e slogans nacionalistas como 'a Rússia para os russos'. Eles me quebraram quatro dentes antes que eu conseguisse escapar".

Na época, "antes da chegada de Putin", explica Marcel, os militantes nacionalistas perseguiam os imigrantes até dentro da universidade. "Era muito difícil para nós, assim como para os caucasianos e para as pessoas vindas da Ásia Central, os tadjiques, os quirguizes e os cazaques". Mas desde 2002, a situação parece ter se acertado um pouco. Os números coletados pela MPC mostram uma diminuição das agressões físicas - 66% das pessoas entrevistadas diziam ter sido agredidas em 2002 - e uma nítida melhora na percepção do relacionamento com a polícia. "É animador, observa Alexandra Tyson, mas a sociedade russa continua sendo extremamente racista".

Tradução: Lana Lim

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