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07/09/2009

Crise coloca em xeque a ciência e o status dos economistas

Le Monde
Frédéric Lemaître
Isso pode não agradar a nós, republicanos, mas é à rainha da Inglaterra que devemos a pergunta mais pertinente feita até agora sobre a crise financeira. "Como é possível que ninguém tenha a previsto?", ela perguntou, no fim de 2008, durante uma visita à influente London School of Economics. A questão teve o mérito de abrir no Reino Unido um debate público que na França infelizmente ainda não veio à tona.

Foram necessários mais de seis meses para que um grupo de eminentes economistas britânicos conseguisse enviar a resposta ao Palácio de Buckingham, mas desde julho a rainha sabe. Ela sabe que "a falha em prever a data, a importância e a gravidade da crise e em contê-la, ainda que houvesse diversas causas, foi sobretudo uma falha da imaginação coletiva de muitas pessoas brilhantes, neste país e no exterior, em entender os riscos do sistema, em sua totalidade". Outros foram menos diplomáticos. Para Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia em 2008, nos últimos trinta anos a macroeconomia "foi, na melhor das hipóteses, enormemente inútil, e na pior, simplesmente nociva", segundo comentários trazidos pelo "The Economist" (em 16 de julho).

É pena que tal debate seja reservado aos iniciados. Afinal, os economistas constituem sem dúvida a profissão que mais tem influência sobre os políticos e, portanto, sobre nossas vidas. Há dois séculos eles tentam nos convencer de que sua disciplina é tão séria quanto a física ou a química. E ainda que Alfred Nobel não tenha planejado lhe conferir um prêmio, o Banco da Suécia obteve em 1968 o direito de criar o "prêmio do Banco da Suécia em ciências econômicas em memória de Alfred Nobel", que logo se tornou o "Nobel da Economia". Para os interessados, nada de mais normal. A última obra de Pascal Salin, professor na Paris-Dauphine e liberal convicto, diz muito sobre o estado de espírito da profissão. Seu título? "A economia não mente" (2008). Seu fio condutor? "A economia é uma ciência; seu objetivo é distinguir entre as boas e as más políticas". Entre as dez verdades estabelecidas: "A criação de mercados financeiros complexos levou a verdadeiros progressos econômicos. Essa sofisticação financeira facilitou a distribuição mundial dos riscos, permitindo assim um maior número de riscos corridos, o que amplifica a inovação".

Você ri, mas até a crise, essa ideia era comumente partilhada. Da mesma forma, questionava-se muito pouco a sacrossanta eficiência dos mercados. Isso explica as teorias liberais aplicadas um pouco em cada lugar há cerca de trinta anos. E as ideias pré-concebidas, como a obrigação imposta pelo FMI e pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) aos países emergentes de liberalizar os mercados de capitais. Entretanto, como observa Francis Fukuyama na revista "The American Interest" de setembro, "o setor financeiro asiático é um dos menos liberalizados, mas isso não o impediu de atingir há trinta anos taxas de crescimento inéditas".

Logicamente, a crise deveria pelo menos colocar em questão a macroeconomia e a economia financeira. A primeira claramente acreditou demais na eficiência dos mercados e ficou obcecada pela inflação, sem ver a bolha de ativos financeiros. A segunda é acusada de ter ignorado a realidade. "Uma grande parte da literatura (econômica) contemporânea passou progressivamente para o controle de matemáticos puros, mais preocupados com teoremas do que com a análise do real", lamenta o economista Maurice Allais na revista "Economie politique" (verão de 2009), antes de lembrar que "é somente no caminho de um imenso esforço de síntese que as ciências sociais podem hoje realizar grandes progressos".

Mas os críticos vão além. Formados em sua maioria durante os "trinta anos gloriosos", os economistas ainda não analisaram a importância assumida pelas finanças nas economias desenvolvidas. Quando um banco realmente está "grande demais para morrer"? Quando ele realmente põe em risco o sistema financeiro como um todo? Qual é a remuneração mais adequada para um trader? Será lógico que, nos países ocidentais, quase metade dos lucros das grandes empresas mundiais sejam hoje realizados por instituições financeiras que não criam riquezas propriamente ditas? Podem os mercados se autorregular, ou eles são intrinsecamente instáveis (tese do economista francês André Orléan)?

A essas perguntas, os economistas oferecem poucas respostas convincentes. Por quê? Em sua publicação, Francis Fukuyama observa: "Muitos economistas e professores de finanças nas escolas de administração trabalham para bancos de investimentos e "hedge funds", ajudando-os a elaborar modelos complexos que, olhando em retrospecto, se revelaram inadequados para prever os riscos. Consequentemente, eles têm um interesse pessoal no sucesso do setor financeiro que não é compensado por nenhuma incitação a pensar que o setor, como um todo, destrói mais valor do que cria". Uma crítica que se aplica a muitos economistas franceses influentes, como mostra a composição do Conselho de Análise Econômica.

Talvez isso explique o silêncio da categoria.

Tradução: Lana Lim

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