UOL Notícias Internacional
 

08/09/2009

As negociações sobre o Rafale ilustram a corrida armamentista na América Latina

Le Monde
Antonin Sabot
Ao anunciar, na segunda-feira (7), sua intenção de comprar equipamentos militares da França, o Brasil tenta reforçar sua posição estratégica dentro da região e se opor à influência americana sobre o continente sul-americano

Em viagem ao Brasil, Nicolas Sarkozy conseguiu progressos no caso da fabricante Dassault para aquilo que poderá se tornar a primeira venda de aviões de combate Rafale para o exterior. A fabricante tem agora terreno livre para negociar as condições e a possível transferência de tecnologia. Mas Nicolas Sarkozy também finalizará em Brasília uma venda de armamentos fechada em dezembro. Com um montante estimado em 8,5 bilhões de euros, relativos à compra de helicópteros de combate, à construção de quatro submarinos convencionais além da construção de um submarino nuclear, trata-se do maior contrato militar já assinado pelo Brasil.

  • Ricardo Stuckert/Presidência da República

    Presidente Lula e Nicolas Sarkozy durante o desfile em comemoração ao dia 7 de Setembro


"O fato de o Brasil estar procurando parceiros fora da América Latina, em busca de know-how tecnológico, pode provocar uma corrida armamentista no continente, e pode ser um entrave para uma maior colaboração com os países vizinhos no setor de defesa", acredita Daniel Flemes, um especialista em política de segurança do Instituto Alemão de Estudos Mundiais e Regionais, citado pelo site lusófono alemão "DW-World".

Entre 2003 e 2008, os orçamentos militares sul-americanos aumentaram em 91%. Um aumento que parece relativamente normal para o jornal espanhol "El País", visto o estado de decadência de muitos exércitos do subcontinente. O jornal questiona, entretanto, a "justificativa que o Chile daria para o fato de possuir centenas de tanques Leopard 2" uma vez que, ao contrário do México ou da Colômbia, o país não conduz guerra no plano interno contra os traficantes de drogas.

Golpe de Estado em Honduras
A corrida armamentista na América Latina encontra uma exemplificação na assinatura recente de um acordo de cooperação militar entre os Estados Unidos e a Colômbia. Ainda que os detalhes sejam mantidos em segredo, ele deverá permitir a implantação de bases militares americanas na Colômbia. Um anúncio que foi muito mal recebido pelos países latino-americanos, como conta o "Global Post".

A Venezuela respondeu que estaria pronta para receber bases russas em seu solo. E mesmo que Moscou tenha oficialmente declinado a oferta, esses anúncios conjuntos aceleraram a compra de armamentos pela Argentina, Peru, Equador e Bolívia.

A tensão cresceu nos últimos meses, com o golpe de Estado em Honduras, que lembrou aos países latino-americanos que as armas ainda podiam falar no continente.

Parece claro que o Brasil está procurando reforçar sua posição dominante que ele já exerce no continente. Citado pelo jornal argentino "Clarín", o assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, declarou que a capacidade do país de produzir em parte seu armamento "tem uma grande importância no quadro de defesa sul-americana". O outro objetivo dessas compras "está submerso", observa o jornal argentino "Página 12". Segundo ele, trata-se de proteger as reservas de petróleo ao longo da costa do Brasil, e de se libertar um pouco mais da influência americana.

Para o analista brasileiro Thiago de Aragão, que recentemente denunciou a corrida armamentista na América Latina, o Brasil demonstra uma certa hipocrisia. Desejando obter uma soberania em matéria de armamentos, na verdade ele somente se oferece às construtoras francesas. A França se tornará assim a principal fornecedora de armas do Brasil, quando a Colômbia é abastecida pelos Estados Unidos e a Venezuela pela Rússia. O Brasil "deveria dar o exemplo, não contribuindo para a criação no continente de um possível palco de confrontos geopolíticos entre grandes potências estrangeiras", ressalta.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,31
    3,266
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    1,60
    62.662,48
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host