UOL Notícias Internacional
 

10/09/2009

O "socialismo" de Obama

Le Monde
Corine Lesnes
Esta é mais uma manifestação do intolerável bolchevismo que se apoderou dos EUA com Barack Obama! Não contente em pensar em oferecer cobertura médica universal a seus compatriotas, o presidente dos EUA quis se dirigir aos estudantes no dia da volta às aulas. Assim que soube do projeto, o povinho republicano, em armas há meses contra o socialismo e o controle governamental da economia, o acusou de "doutrinação" e culto à personalidade.

"Já tínhamos o Obama fabricante de carros, o Obama banqueiro e logo teremos o Obama médico. Não precisamos do Obama bedel", declarou Jim Greer, chefe do Partido Republicano na Flórida. É verdade que o Departamento de Educação não só havia projetado que o discurso fosse transmitido para as escolas na hora do almoço, como poderia ser seguido por uma sessão de trabalhos práticos, na qual os jovens redigiriam uma carta expressando "o que eles podem fazer para ajudar o presidente".
  • Doug Mills/The New York Times

    Obama bolchevique: Não contente em pensar
    em oferecer cobertura médica universal a seus compatriotas, o presidente dos EUA quis
    se dirigir aos estudantes no dia da volta às aulas



A inconveniência foi reparada rapidamente. Descartou-se o projeto de carta ao presidente (depois se descobriu que foi inspirado em uma iniciativa semelhante do presidente George H. Bush em 1991, mas isso não importou). E a Casa Branca publicou o texto do discurso com 24 horas de antecipação, para que os pais pudessem avaliar os riscos que sua prole correria. Depois de lê-lo, Greer autorizou seus quatro filhos (embora esperando que o presidente não deixasse de lhes aconselhar a lavar as mãos e fazer suas tarefas). A ex-primeira-dama Laura Bush deu seu aval. Os republicanos moderados viveram o sufoco, mais uma vez, de ver os exageros de seus correligionários extremistas. "Não é que Obama vá ler o Manifesto do Partido Comunista", suspirou o comentarista conservador David Brooks.

Apesar de tudo, diversos pais se mantiveram em guarda. Nos condados (municípios) do sul, especialmente aqueles que deram maioria a John McCain nas eleições presidenciais, muitos diretores de escolas preferiram não transmitir o discurso. "Já há bastantes divisões", declarou um diretor escolar da Carolina do Norte, que se fechou para rezar antes de tomar uma decisão que provavelmente só lhe atrairia inimigos. Em Wakefield High, a escola de Arlington escolhida para o discurso, alguns pais chegaram a se manifestar com cartazes: "Nossos filhos servem a Deus, e não a Obama".

Diante de cerca de mil colegiais, dois terços dos quais formados por negros e latinos, o presidente pronunciou a mensagem prevista, transmitida pela Internet e pela rede parlamentar para os estabelecimentos interessados. "Eu trabalho muito para que consertem suas escolas e para lhes dar os livros e os computadores de que vocês precisam, mas vocês também devem fazer sua parte. Este ano espero que vocês estudem a sério e não nos decepcionem."

Como é seu costume, Barack Obama deu seu próprio exemplo. No segundo ano ele era "bastante relaxado", mas isso não o impediu de ser presidente. "Não se deixem definir por seus fracassos. Se vocês fracassam não é porque sejam maus, é porque não se esforçaram."

À margem do discurso, o presidente também respondeu às perguntas de um pequeno grupo de alunos de terceiro ano, instalados na biblioteca. Uma garota chamada Lilly lhe perguntou com que personagem vivo ou morto gostaria de jantar. "Com Gandhi", respondeu Obama, para depois comentar: "Provavelmente seria um jantar muito leve". Por que Gandhi? Porque ele mudou o mundo não por meio da violência nem por meio do dinheiro, mas por meio da força moral.

Outro colegial disse ao presidente que gostaria de ter seu cargo e lhe pediu conselhos. "Prestem atenção no que vocês põem no Facebook", respondeu Obama. Ele não escondeu que até a universidade seu objetivo era ser jogador de basquete de alto nível e passar bem. Também acariciou a ideia de ser arquiteto e juiz, até o dia em que percebeu que "escrevia bem" e fazia "boas análises" de política internacional e economia.

Brandon, filho de pais divorciados, perguntou ao presidente se teria tido a mesma carreira se seu pai tivesse continuado em casa. Obama respondeu que ele teve de crescer mais depressa devido a essa ausência, mas não expressou lamento. Disse que seu pai foi um homem "muito brilhante, mas arrogante e muito dominante". Sua mãe, felizmente, nunca falou mal dele. "Escutar coisas positivas sobre meu pai provavelmente me ajudou a ter mais confiança em mim mesmo."

Na última hora se roçou na política e na "doutrinação", quando o jovem Sean quis saber por que os EUA não tinham cobertura médica universal, se ela existe em outros 36 países, entre os quais, afirmou, "Iraque e Afeganistão, onde é financiada pelos EUA". "Essa é a pergunta que eu fiz ao Congresso", respondeu o presidente. "Creio que podemos consegui-la." Mas preferiu não se estender em um tema tão perigoso. Em todo caso, os jovens interessados puderam escutar o discurso que ele pronunciou nesta quarta-feira no Congresso. Socialismo garantido.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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