UOL Notícias Internacional
 

11/09/2009

Cigarras e formigas norueguesas

Le Monde
Olivier Truc
Enviado especial a Aukra (Noruega)
Os habitantes de Aukra, pequena ilha situada no Atlântico entre Bergen e Trondheim, sempre se espantam quando são visitados. Em geral, eles aconselham aos visitantes que estendam a viagem até Ona, uma pequena ilha ainda mais distante, mas muito mais bela. Ona é uma pequena joia, composta de velhas casas dominadas por um velho farol. Sim, mas vejam, Ona se esvazia, torna-se um museu, ao passo que Aukra "ganhou na loteria", como diz Merete Mikkelsen, cabeleireira e diretora do sindicato patronal da ilha.

Neste ano, pela primeira vez após a construção do terminal de gás de Ormen Lange, o conselho municipal tirou a sorte grande: 130 milhões de coroas (cerca de R$ 40 milhões) de imposto comercial, duas vezes mais do que em 2007. Em 2003, o ano anterior à decisão do Parlamento de construir em Aukra o terminal de gás, o vilarejo havia recebido somente 1 milhão de coroas.

Uma sorte inacreditável para essa pequena comunidade de 3.174 habitantes. "Aukra está nadando em dinheiro", foi a manchete do "DN", o jornal de economia norueguês, observando que Aukra não sabia o que fazer com seu dinheiro, o que certamente é um exagero. Várias pequenas comunidades norueguesas, tomadas pela loucura de grandeza após terem obtido um terminal petroleiro, agora estão sob tutela administrativa do Estado. Mas em Aukra os habitantes querem evitar essa cilada, resistir à tentação de exagerar.

O ex-chefe dos bombeiros, Bernhard Riksfjord, é hoje prefeito social-democrata. É ele que dirige as sessões, com o martelo em mãos, no conselho municipal. Uma associação exige um subsídio para consertar o hangar do aeroclube local. 180 mil coroas (R$ 53 mil) são pedidos para o hangar e o asfalto. A discussão está intensa, uma outra parlamentar social-democrata se opõe, sozinha, ao subsídio. "É dinheiro fora de orçamento", concede Turid Nerbo. "É uma ameaça ao nosso vilarejo, se começarmos a distribuir dinheiro dessa forma". Por fim, o aeroclube consegue 120 mil coroas (cerca de R$ 35 mil). "Uma conciliação", diz o prefeito. "Temo que passe a ser cada vez mais dessa forma", se preocupa Turid Nerbo. "Fui a única a me opor".

Os parlamentares abordam então um projeto de hotel, incentivado pela Shell. A operadora de Ormen Lange gostaria de um estabelecimento digno desse nome para receber seus clientes em Aukra. "É preciso tomar uma decisão rápida", diz o prefeito, "senão os investidores vão embora". De acordo. Os aumentos de salário dos funcionários? De acordo também. Mais tarde, a ex-prefeita cristã-democrata brande o jornal regional do dia e ataca seu sucessor. "Que história é essa de ponte, que descobrimos no jornal? Não se falou disso no conselho municipal", ela se revolta. No "Romsdals Budstikke", o prefeito expôs seu projeto de ponte: Aukra seria ligada à terra firme, por meio da ilha vizinha de Midsund, em vez de depender da balsa que não funciona entre meia-noite e 6h.

Midsund, a ilha vizinha, está hoje na situação em que Aukra se encontrava antes de entrar na era do gás-rei. Passando a ponte por Midsund, Aukra estaria ajudando seu vizinho menos sortudo, permitindo que ele se desenvolva. Dagfinn Aasen, diretor administrativo do município de Aukra, entende um pouco do assunto: ele ocupou o mesmo posto entre seus vizinhos, "os pobres", como se diz agora em Aukra. "Aukra foi por muito tempo um município pobre e muito endividado", lembra Bernhard Riksfjord. "Mal conseguíamos garantir o serviço mínimo para a escola e o asilo".

Ao volante de seu carro, o prefeito faz as vezes de guia. Ele começa por um lado da ilha, a oeste, onde nasceu, quando ele precisava ir à escola de barco. Há uma fábrica de salmão criado em cativeiro, onde carregam de peixes caminhões com destino à França. Passamos para o norte, diante do imenso complexo de Ormen Lange, cuja infraestrutura metálica cintila ao sol. Ele está no local de uma antiga estação de caça à baleia.

A caça à baleia quase desapareceu sob pressão internacional. Entretanto, os noruegueses não desprezam os estrangeiros. O terminal de gás foi construído por 3.800 operários de 57 países. A maioria já foi embora. Permanecem as imensas instalações aonde o gás chega do mar do Norte e é tratado antes de ser enviado à Inglaterra por um gasoduto de 1.200 km.

"Produzir energia a partir do gás é polêmico", conta o prefeito, "sobretudo em um país como a Noruega, que se pretende muito ecologista. Mas há muita dupla moral lá dentro, pois enviar para a Inglaterra ou para a França não nos causa problemas". O prefeito continua a rodar entre as colinas e os campos. Ele para um instante à beira da pequena pista do aeroclube. Foi um aeroporto alemão durante a Segunda Guerra Mundial, construído por 4.000 prisioneiros russos. O silêncio domina, perturbado no máximo pelo grito das gaivotas. O prefeito reserva o melhor para o final: a escola, que será completamente restaurada por 250 milhões de coroas (cerca de R$ 71 milhões).

"Sempre há discussões para que sejamos mais prudentes, mas no momento de decidir, eles sempre assinam o cheque", observa Dagfinn Aasen, falando dos parlamentares. "Eles deveriam ser mais responsáveis", acredita Anne Thorsrud, encarregada das finanças do município. "Não podemos nos comportar como novos-ricos russos. No fundo, somos somente pescadores", continua Dagfinn Aasen. Escutando seus dois mais altos funcionários, o prefeito não abandona seu sorriso. Ele fervilha com ideias. Ele se diz seguro de suas escolhas, diante dos desastres políticos causados pela política da espera em nível nacional.

No entanto, esse temor do exagero é onipresente. Merete Mikkelsen também é dessa opinião, lembrando o destino desses ricos municípios colocados sob tutela do Estado: "Eles tinham o dinheiro do petróleo. O que mostra que os políticos devem tomar cuidado, mas é muito difícil quando você tem o FrP que está crescendo muito".

O FrP é o Partido do Progresso, o partido de direita populista que é o segundo maior da Noruega, atrás dos social-democratas. Diferentemente de todos os outros partidos políticos que defendem a moderação com o dinheiro do petróleo e sustentam a ideia de colocar a maioria das receitas dos hidrocarbonetos nos mercados financeiros internacionais para as gerações futuras, o FrP quer abrir hoje as torneiras do dinheiro do petróleo.

Em Aukra, ele já está presente há alguns anos. Hakon Sporsheim é seu representante. Ele é engenheiro na construtora naval STX Europe, uma das maiores empregadoras de Aukra. Colocar dinheiro no exterior? "É por isso que os noruegueses votam no FrP", explica Hakon Sporsheim.

É nessa tecla que o partido populista voltará a bater durante as eleições legislativas de 14 de setembro, com o campo livre, como constata Thomas Hylland Eriksen, um antropólogo da Universidade de Oslo que refletiu muito sobre a influência da riqueza petroleira sobre a sociedade norueguesa. "Acho estranho que haja tão pouco debate público e controvérsia sobre as prioridades governamentais. Eles decidiram investir nos mercados financeiros, em vez de melhorar a infraestrutura. É quase como se o dinheiro do petróleo não fosse real". E muitos dos noruegueses estão fartos disso. "É prudente poupar, mas deve-se poupar tanto assim?", se pergunta Werner Solberg, um agricultor de Midsund, "a ilha pobre".

Em todo o país há queixas de escolas ou de estradas em mau estado, filas de espera nos hospitais. O reino carece de engenheiros, os jovens noruegueses desprezam as carreiras científicas. Entretanto, a Noruega, terceira maior exportadora mundial de gás e de petróleo, foi considerada durante anos o país mais agradável de se viver no mundo, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).

Seria Aukra representativa da Noruega? Sim, por essa impensável riqueza que cai sobre ela. A Noruega descobriu petróleo em Ekofisk em 1969, e só começou a realmente poupar dinheiro em 1996. O Fundo do Petróleo no qual está colocado o excedente dos recursos em hidrocarbonetos atingia 264 bilhões de euros no fim de junho de 2009. Aukra decidiu investir seus recursos em infraestrutura. No inverno passado, o premiê social-democrata disse que ele tomaria um pouco mais do dinheiro do petróleo para compensar os efeitos da crise. Mas de forma relutante. E neste outono, o FrP tentará de tudo para derrubar o primeiro-ministro e entrar no governo.

Em Aukra, o prefeito social-democrata trabalha com a bênção do FrP. Investir uma fortuna na reforma da escola que tem mais de meio século não é visto como um luxo. No dia seguinte ao conselho municipal, no velho Aukra Hotell, há a noite de cabaré. Cantam um sucesso local, "Tanga vaen", sobre uma estrada do sul da ilha, famosa por ser intransitável. A canção diz que pegar essa estrada é correr o risco de chegar atrasado e perder seu emprego. E "Bernhard" (o nome do prefeito) chegou "no calor", "o asfalto em Tanga"... "contanto que isso continue". Um belo refrão entoado em coro por toda a assembleia.

Tradução: Lana Lim

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