UOL Notícias Internacional
 

12/09/2009

Em Honduras, a campanha eleitoral começa em clima de ódio

Le Monde
Jean-Michel Caroit
Enviado especial a Tegucigalpa (Honduras)
Cobertos de grafite, os muros de Tegucigalpa mostram a profunda divisão da sociedade hondurenha desde o golpe de Estado de 28 de junho. As inscrições favoráveis ao presidente deposto, Manuel Zelaya, ou "Mel", aumentam - como que para contrabalançar a mídia, em sua maioria nas mãos de empresários que apóiam o governo dos golpistas.

Os elementos da crise

  • Desde que foi eleito, em 2005, Manuel Zelaya se aproximou cada vez mais dos governos de esquerda da América Latina, promovendo políticas sociais no país. Ao mesmo tempo, seus críticos argumentam que Zelaya teria se tornado um fantoche do líder venezuelano Hugo Chávez e acabou sendo deposto porque estava promovendo uma tentativa ilegal de reformar a constituição



"Eles abriram uma caixa de Pandora. Nunca houve tanto ódio entre ricos e pobres em Honduras", se preocupa Edmundo Orellana. Jurista respeitado, ele resignou de seu posto de ministro da Defesa dois dias antes do golpe de Estado, em desacordo com o presidente Zelaya. "A imprensa me tratou como herói durante 24 horas, até que eu condenasse o golpe", ele conta.

A cada etapa de seu exílio itinerante, Zelaya repete sua disposição de assinar o Acordo de San José, negociado pelo presidente da Costa Rica, Óscar Arias, com o firme apoio de Washington, e que deveria pôr um fim à crise política. Mas o presidente interino, Roberto Micheletti, recusa um dos pontos-chave do texto, que prevê o retorno condicionado de Zelaya ao palácio presidencial até o fim de seu mandato em janeiro de 2010.

"Para os hondurenhos, a volta de Zelaya é inaceitável, pois significaria vinte anos de ditadura ao estilo [Hugo] Chávez", diz Marianne Cadario, em referência ao presidente da Venezuela, que - como seu aliado Manuel Zelaya pretendia fazer - modificou a Constituição para poder ser reeleito.

Marianne Cadario, uma francesa instalada há trinta anos em Honduras, se diz "hiperchocada pela reação da comunidade internacional", que condenou o golpe. Mesma indignação por parte de Jacques Casanova, um franco-hondurenho que possui uma empresa de exportação-importação. "Os manifestantes pró-Zelaya não passam de alguns milhares, financiados por Chávez", ele diz. Segundo uma pesquisa de opinião confidencial encomendada pelos meios empresariais, 35% dos hondurenhos seriam favoráveis a Zelaya. Para José, motorista de táxi, a porcentagem é bem mais alta. "Protesto pelo retorno de Mel, o presidente que eu elegi", diz Margarita, uma robusta camponesa que se protege do sol com um guarda-chuva. Os manifestantes se espalham por diversos quilômetros. Vindos da pequena cidade de El Sítio, eles se dirigem ao centro de Tegucigalpa. Policiais de tropa de choque e militares equipados com fuzis de assalto cercam os manifestantes.

Raio-X de Honduras

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    Nome oficial: República de Honduras
    Capital: Tegucigalpa
    Divisão política: 18 Estados
    Línguas: espanhol, garifuna, dialetos ameríndios
    Religião: católica 97%, protestantes 3%
    Natureza do Estado: república presidencialista
    Independência: da Espanha, em 1821
    Área: 112.088 km²
    Fronteiras: com Guatemala (256 km), El Salvador (342 km), Nicarágua (922 km)
    População: 7.792.854 de pessoas
    Grupos étnicos: mestiços 90%, ameríndios 7%, negros 2%, brancos 1%
    Economia: segundo país mais pobre da América Central; dependente de exportação de café e banana; principal parceiro econômico é EUA
    Taxa de desemprego: 27,8%
    População abaixo da linha da pobreza: 50,7%

"Os tumultos foram provocados por desordeiros infiltrados entre os manifestantes", afirma Bertha Oliva, que dirige uma organização de defesa dos direitos humanos. Ela tira de uma gaveta um grande envelope amarelo cheio de carteiras de identidade militares ou de empregados municipais, apreendidas com desordeiros durante as passeatas diárias de apoio a Zelaya. "Na quinta-feira, entreguei um revólver com cinco balas, entre as quais uma explosiva, à Justiça", ela acrescenta.

Para o governo instalado desde o golpe, a saída da crise virá com as eleições gerais de 29 de novembro. Na televisão, os pedidos de voto são alternados com a denúncia de pretensos casos de corrupção atribuídos ao presidente deposto. Tumultos entre pró e anti-Zelaya marcaram um dos primeiros comícios de Elvin Santos, candidato do Partido Liberal, ao qual pertence o chefe do Estado. "Se o processo eleitoral acontecer fora do Acordo de San José, ele poderá ser o mais sangrento da história de Honduras", teme o ex-ministro da Defesa Orellana.

A maioria dos países das Américas anunciaram que não reconhecerão eleições organizadas pelo governo. No campo da "resistência" [ao golpe de Estado], negociações estão em curso para apresentar uma candidatura única à presidência. "Nós só participaremos se o golpe de Estado militar tiver fim e o presidente Zelaya for restituído em suas funções", garante o sindicalista Carlos Reyes.

Frente às sanções internacionais, Tegucigalpa anunciou um orçamento de austeridade. Os financiadores suspenderam os pagamentos. "As suspensões afetarão sobretudo os vizinhos de Honduras, como El Salvador, ao interromper as obras da estrada que deve lhe servir de saída para o Atlântico," ressalta Adolfo Farcussé, presidente da Associação dos Industriais. "A interrupção da ajuda para a luta contra o tráfico de drogas aumentará a quantidade de entorpecentes que entram nos Estados Unidos".

Segundo o economista Julio Raudales, Honduras recebeu em 2008 o equivalente a 380 milhões de euros de auxílio (3,8% do PIB). A maior parte dos fundos enviados por Chávez não pôde ser utilizada pelo governo Zelaya, pois o Congresso se recusou a votar a uma lei que autorizava o seu uso. "Então hoje os golpistas se aproveitam dos fundos de Chávez", denuncia Victor Meza, ex-ministro do Interior.

Tradução: Lana Lim

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