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12/09/2009

Na Alemanha, a esquerda radical se impõe na campanha eleitoral

Le Monde
Marie de Vergès
Em Berlim (Alemanha)
A menos de três semanas das eleições legislativas alemãs, a pesquisa de opinião publicada na quarta-feira (9) pelo instituto Forsa não passou despercebida: o partido da esquerda radical alemã Die Linke (A Esquerda) tem 14% das intenções de voto para o dia 27 de setembro, após meses de estagnação sob a marca dos 10%. Um pequeno acontecimento nesta campanha eleitoral onde tudo parecia pré-determinado, com a chanceler democrata-cristã, Angela Merkel, como grande favorita.
  • EFE/Tim Brakemeier

    Oskar Lafontaine, principal nome do partido de Die Linke, que registrou aumento em seu apoio


Segundo o diretor da Forsa, Manfred Güllner, o partido de Oskar Lafontaine teria se tornado mais "respeitável" aos olhos dos eleitores após os recentes sucessos acumulados em três eleições regionais no fim de agosto: em Sarre, na Saxônia e na Turíngia o partido conseguiu entre 21% e 27% dos votos.

Três anos após sua criação, Die Linke está decidida a ser o estraga-prazeres. Bem firmado no leste da Alemanha, o partido continua sua tranquila conquista do oeste: ali ele já integrou cinco parlamentos regionais e provou sua capacidade de perturbar o jogo das coalizões. Nascido da fusão entre os antigos comunistas da ex-República Democrática Alemã (RDA) e os dissidentes da social-democracia - uma coabitação muitas vezes difícil - , ele seduz um eleitorado ainda vago e de domínios muito diversos. Entre espera por justiça social, voto ideológico e desencantamento pelo SPD (Partido Social-Democrata), eis o retrato de três eleitores.

Andreas Böttger, 34 anos, socorrista
Ele não fala, ele ruge. Contra os preços altos demais, os salários baixos demais, as políticas "hipócritas". "Aqueles que nos governam não fazem nenhuma ideia de nossas dificuldades cotidianas", recrimina esse socorrista da Cruz Vermelha, de 34 anos, que vive com sua esposa e seu filho pequeno em um vilarejo da Baixa Saxônia (oeste). O jovem pai percorre 70 km todos os dias para chegar ao trabalho. Ele faz plantão à noite, muitas vezes nos feriados. "No entanto, só consigo manter minha família, não posso levá-los em férias. Isso é normal?", ele se indigna.

Andreas Böttger gosta do fato de que Die Linke promete um Estado mais forte, mais presente. Um Estado que faz pressão sobre os empregadores para que os salários subam e que o poder de compra aumente. "Em vez disso, hoje dão bilhões aos banqueiros", ele critica. "Nessa crise, foram os mais ricos que ganharam sobre nossas costas".

Ele não quer que seu filho de um ano e meio cresça em uma sociedade "injusta". Antigamente, ele acreditava nos valores do Partido Social-Democrata: "Infelizmente, nos quatro últimos anos o partido realmente estragou sua reputação, provando que somente o poder lhe interessa". Senão, se pergunta Böttger, por que ele não impediu a União Democrata-Cristã (CDU) de aumentar o IVA [imposto sobre valor agregado] em três pontos, de 16% para 19%? Uma medida que prejudica muito o bolso. "Meu voto para Die Linke é ao mesmo tempo de protesto e definitivo", ele conclui, determinado.

René Wilke, 25 anos, estudante de psicologia
Ele era tão jovem quando o muro de Berlim caiu: tinha cinco anos! Estudante de psicologia em Frankfurt an der Oder (leste), René Wilke não tem nada em comum com esses "perdedores" da reunificação iludidos com "nostalgia". Ele só compartilha de suas escolhas políticas. Desde que atingiu a idade para votar, ele se voltou naturalmente para Die Linke, que muitas vezes joga no mesmo campo da CDU e do SPD nos Estados da ex-RDA.

"A divisão Leste-Oeste conta menos para minha geração", afirma o jovem. Ainda que ele lamente que a ex-Alemanha Oriental muitas vezes seja "mal-compreendida e muito criticada, ao passo que nem tudo era tão ruim assim". Mesmo que não lhe diga respeito, ele se diz muito sensibilizado pelos "problemas sociais" que ainda atingem a nova Alemanha com uma crueldade particular. Em sua cidade natal, Frankfurt an der Oder, o índice de desemprego é de 13%. "Como explicar às pessoas que vão diminuir o seguro-desemprego, como fez o SPD, quando simplesmente não há mais empregos disponíveis?", ele se pergunta, escolhendo suas palavras com cuidado.

Com Die Linke, René Wilke não sente que está elegendo um partido radical, mas sim "um partido que conhece as dificuldades das pessoas daqui e lhes propõe soluções". Ele mesmo pretende fazer carreira na política. Seu pai, ex-químico, já votava no PDS, agrupamento de ex-comunistas da RDA e ancestral da Linke no leste. Mas ignore o passado! O estudante pensa que esse legado, mal visto no Ocidente, acabará desaparecendo.

Gabriele Sedatis, 62 anos, sindicalista
Ela cresceu na Berlim Ocidental. Ela conheceu o Muro de perto, e dar seu voto à Die Linke no dia 27 de setembro a preocupa um pouco. Saber que ainda há antigos membros da RDA ativos no partido, "isso não me agrada muito", diz esta mulher esbelta de 62 anos, desenhista industrial que acaba de se aposentar.

Depois de tantos anos votando nos social-democratas ou nos Verdes, ela vê isso quase como uma transgressão. Mas é assim: é preciso dar uma lição nesses partidos estabelecidos que "não se preocupam mais com os direitos dos trabalhadores". Suave e ponderada, Gabriele Sedatis não é uma rebelde anti-establishment. Somente "uma sindicalista engajada". Na universidade onde ela passou toda sua carreira, ela se espanta de ver se multiplicarem os contratos temporários. Sem falar no recuo da idade para aposentadoria para 67 anos. "Felizmente, escapei disso", ela observa. E se entristece: "Para governar com a CDU, o SPD perdeu sua identidade".

Die Linke lhe agrada porque ali falam de "justiça social". Mas também porque ali ela reencontrou seus ideais de "ex-participante de maio de 68": "Cresci com essa palavra de ordem: Guerra, nunca mais!" Hoje, ela acredita, o pacifismo é uma noção bem brutalizada: "É preciso se retirar do Afeganistão. Die Linke é a única que pede isso abertamente". Gabriele Sedatis não ousa dizer a todo mundo que vai votar na esquerda radical, "mas de qualquer forma é melhor do que a abstenção".

Tradução: Lana Lim

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