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15/09/2009

Corrida armamentista na América Latina?

Le Monde
Paulo A. Paranaguá
Com a venda ao Brasil de 36 caças Rafale, quatro submarinos Scorpène e um submarino de propulsão nuclear, estaria a França assumindo o risco de estimular a corrida armamentista na América Latina? De acordo com o Instituto de Pesquisas para a Paz Internacional de Estocolmo (Sipri), os gastos militares na região atingiram quase US$ 40 bilhões (R$ 72 bilhões) em 2008, ou seja, um aumento de 36% em cinco anos.

Os aviões que o Brasil estuda comprar


Com um orçamento para a Defesa de US$ 15,4 bilhões (R$ 28 bilhões), o Brasil continua sendo a principal potência militar da América Latina. Os contratos com a França representam uma soma superior às compras de armas da Venezuela. O investimento brasileiro ultrapassa o montante dos acordos operacionais entre os Estados Unidos e a Colômbia.

"Não temos interesse em projetar nossa potência", garante o ministro brasileiro da Defesa, Nelson Jobim. Do ponto de vista estratégico, Brasília está conduzindo uma realocação de suas forças armadas com a intenção de defender melhor a Amazônia. Após instalarem sua frota naval no Rio de Janeiro, há quase um século, os brasileiros querem posicionar uma nova esquadra na foz do Amazonas. Como o Brasil e a Argentina há muito tempo não se veem como inimigos, a ameaça potencial agora vem de uma fronteira amazônica difícil de controlar, apesar dos satélites em órbita. Palco de operações hostis às forças terrestres, a Amazônia necessita de meios aéreos e navais de alto desempenho.

O cenário latino-americano é desigual. A Colômbia, único país da região com um conflito armado interno, reserva para seus gastos militares 4% do PIB, ao passo que a Argentina dedica a eles menos de 1%, e não compra armas desde 1994. O orçamento colombiano, bem como o tipo de armamento e de treinamento privilegiados desde a presidência de Andres Pastrana (1998-2002), visam combater as guerrilhas de extrema esquerda, sustentadas pelo dinheiro do narcotráfico. O Chile realizou um esforço contínuo, graças a uma porcentagem dos dividendos do cobre destinados à compra de armas, mecanismo que a presidente Michelle Bachelet acaba de colocar em discussão. Nos últimos cinco anos o México aumentou seus gastos em 23%, mas a maior parte do orçamento visa o restabelecimento da ordem, abalada pela guerra das gangues de traficantes.

Portanto, os números devem ser relativizados, pois o investimento latino-americano só representa 3% dos gastos militares mundiais. A América Latina não tem muito peso no comércio mundial de armamentos. É compreensível, uma vez que a região resolveu suas disputas fronteiriças ou as trata por negociações, como no caso da Bolívia e do Chile. Após o recuo das ditaduras militares sul-americanas, os orçamentos da Defesa foram limitados, provocando um atraso considerável em termos de equipamentos. O aumento dos gastos corresponde então a uma esperada modernização. Entretanto, a crise econômica, que atinge todos os países em graus diversos, torna controversa a oportunidade do rearmamento.

A questão deve ser examinada também sob o ângulo político. Os países do Cone Sul da América - Argentina, Brasil, Chile e Uruguai - conduziram juntos missões de paz, em especial no Haiti, que contribuíram para criar confiança entre seus militares, a ponto de suplantar as antigas rivalidades, como a que colocou chilenos e argentinos à beira de uma guerra pelo canal Beagle (ao sul da Terra do Fogo) em 1978.

Em compensação, o discurso do presidente venezuelano, o tenente-coronel Hugo Chávez, mantém um clima belicista que suas alianças com a Rússia, Belarus e o Irã claramente não irão dissipar. Desde 2003, a Venezuela dobrou seus gastos militares. Caracas comprou de Moscou 24 caças Sukhoi, 50 helicópteros de combate e 100 mil fuzis de assalto Kalashnikov. Submarinos e tanques estão em processo de aquisição. Oficialmente, o orçamento da Defesa representa 1,3% do PIB, mas as contas venezuelanas são nebulosas.

Em 2008, Chávez mobilizou seus tanques para a fronteira com a Colômbia e ameaçou usar os Sukhoi. Simples bravata? Talvez. O exército venezuelano é incapaz de travar uma batalha com chances de sucesso, mas os Sukhoi podem ser pilotados por mercenários da ex-União Soviética. E a única utilidade de uma esquadrilha de 24 aviões é atacar primeiro. Os riscos de um deslize existem. Dotados de um alcance de 3 mil quilômetros, os Sukhoi ameaçam Bogotá, Miami, o canal do Panamá e Manaus. Nenhum país vizinho dispõe de uma defesa à altura.

O acordo que está sendo concluído entre Washington e Bogotá, a respeito da utilização de sete bases colombianas, deve ser recolocado nesse contexto. A Colômbia enfrenta uma guerrilha que se beneficia de fronteiras porosas com a Venezuela e com o Equador. A cooperação de que Bogotá precisa não encontra eco na América do Sul. Além do auxílio na luta contra o narcotráfico, a presença de militares americanos nessas bases constitui uma dissuasão contra qualquer ataque externo.

Tradução: Lana Lim

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