UOL Notícias Internacional
 

17/09/2009

"O processo eleitoral não foi equitativo", denuncia candidato à presidência afegã

Le Monde
Frédéric Bobin
Enviado especial a Cabul (Afeganistão)
Le Monde: Como o senhor julga as condições nas quais se desenvolveu a eleição de 20 de agosto?
Abdullah Abdullah:
Não estou nada satisfeito. O processo eleitoral não foi equitativo. Primeiro, [Hamid] Karzai utilizou os recursos do Estado em benefício de sua campanha. Depois, a Comissão Eleitoral Independente se revelou nem um pouco independente. Finalmente, o governo não respeita a lei eleitoral. Isso já sabíamos desde o início. Para coroar tudo, o dia da eleição foi marcado por fraudes maciças, acompanhadas de uma corrupção de grande envergadura. Como poderíamos estar satisfeitos? Este país pode tolerar um governo fraudulento por mais cinco anos?

  • Emilio Morenatti/AP

    Hamid Karzai, 51, etnicamente Pashtun, tem formação em Ciência Política na Índia. Ele chegou a apoiar o Taleban, mas rompeu com eles a partir dos sinais de que o grupo estava caindo sob a influência de extremistas estrangeiros, como Al Qaeda. Em 2001, foi apontado como presidente interino do Afeganistão, após o ataque liderado pelos EUA, e em seguida ganhou as eleições presidenciais de 2004. Corrupção no governo, desenvolvimento vagaroso e morte de civis em ataques estrangeiros provocaram uma queda em sua popularidade. Karzai diz que negociação de paz com Taleban é prioridade se for reeleito

  • AFP

    Abdullah Abdullah, 48, é médico. Em 1986, se juntou à resistência contra os soviéticos. Foi figura de destaque na Aliança Norte, que ajudou os EUA a derrubar o Taleban. Foi nomeado chanceler no governo interino de Karzai, posto que ocupou até 2006. Seu pai era Pahtun e sua mãe era Tajik, e Abdullah é visto como favorito entre os Tajiks. Com promessas de combater a corrupção, pode obrigar Karzai a disputar um segundo turno

Le Monde: Existe uma instância de recurso, a Comissão de Queixas Eleitorais nomeada pela ONU. Ela o tranquiliza?
Abdullah:
É a única esperança que nos resta.

Le Monde: Quando o senhor pensa que sairá o anúncio dos resultados?
Abdullah:
Não sei. Mas o importante é que o resultado final seja o verdadeiro e não aquele dado por boletins falsos.

Le Monde: Desde o dia da votação o senhor pediu que seus partidários ficassem calmos. Reitera esse apelo?
Abdullah:
Sim, o reitero.

Le Monde: O senhor controla todas as suas tropas?
Abdullah:
Sim, em grande medida. As pessoas estão com raiva, mas tenho certeza de que se comportarão de maneira responsável.

Le Monde: Na situação atual, sentimos o campo de Karzai tentando jogar a carta do nacionalismo afegão contra a ingerência ocidental. O que o senhor acha disso?
Abdullah:
Karzai está jogando. Quando os estrangeiros empurram para um lado, ele empurra para o lado contrário. Ele joga em tudo o que pode, sem compreender as consequências. Mas a verdadeira questão não são os estrangeiros, é o destino da população, é o voto do povo.

Le Monde: E, pelo seu lado, o que acha da atitude da comunidade internacional?
Abdullah:
Ela é positiva. Apoiou o processo eleitoral, e não um candidato em particular. Pelo menos por enquanto.

Le Monde: Se o senhor for eleito, vai negociar com os taleban?
Abdullah:
Antes de chegar lá, há um certo número de problemas prioritários a resolver: a governança, a segurança. A urgência é atingir as pessoas. E isso deve preceder toda discussão sobre a reconciliação nacional. Hoje as pessoas se sentem despossuídas, e é por isso que se unem aos taleban. Sob a palavra "taleban" existe na verdade um número enorme de pessoas que não são taleban. Mas uniram-se a eles por causa da má governança, da corrupção, da injustiça e outros problemas. É preciso aproximar-se delas. É preciso vencer o fosso que as separa do governo. Mas os outros, os que insistem em combater até o fim, é preciso isolá-los. A reconciliação deve funcionar nos dois sentidos. O que observamos neste momento é que os dirigentes taleban não estão interessados em discutir. Eles pensam estar do lado dos vencedores, pois o governo atual fracassou.

Le Monde: Alguns citam a necessidade de concluir um acordo político entre o senhor e Karzai para sair do impasse. Concorda?
Abdullah:
Em primeiro lugar, a fraude deve ser subtraída do resultado final a fim de que o voto da população seja respeitado. Se tivermos de ir para um segundo turno, será em si um acordo político. Minha opinião é que não tiraremos o Afeganistão do caos atual fazendo acordos políticos. Chegaremos a isso principalmente deixando a população decidir seu próprio destino. As pessoas compartilham meu ponto de vista.

Resultado da eleição afegã é investigado por suposta fraude



Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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